VULLTO
Em 2022, Froid, um dos nomes importantes do rap do DF, apontou Vullto como aposta do gênero para os próximos anos. Conversamos com o rapper, baterista e produtor musical, sobre sua trajetória pessoal, como uma lesão no tornozelo se tornou oportunidade, características do rap do DF e desafios de carreira de um artista iniciante.
Entrevista por Thiago Flores via Whatsapp em 8 de julho de 2020
Queria que você se apresentasse, por favor.
Meu nome de batismo é Kelvin dos Santos, mais conhecido no mundo da música como Vullto GSS ou VLT.
Onde você nasceu? Onde foi criado? Onde vive?
Eu nasci em um hospital no Plano Piloto. Quando isso aconteceu, meus pais moravam em Sobradinho II. Fui criado em vários lugares.
Moramos lá em Sobradinho II por poucos anos, tenho poucas lembranças. Quando me entendi como alguém, já estava morando no Paranoá. Com sete anos, viemos para a Ceilândia, onde até hoje mora boa parte da minha família.
Minha criação foi no meio da rua, na Ceilândia Norte, rodeado de primos, amigos que moravam na rua da casa da minha avó. Comecei a jogar basquete nas lixeiras da rua e, quando percebi, já era um atleta profissional.
Essa vivência me proporcionou conhecer grande parte do Brasil, morei sozinho por um ano em SP (2013), morei na Asa Sul, na Asa Norte e em vários cantos desse quadrado. Hoje, vivo no Setor O, CEI Norte.
Como foram seus primeiros contatos com música? Quando o rap surgiu na sua vida?
A música sempre foi muito presente na minha vida. Minha família é enorme e respira música, dos mais variados tipos. Não tem muitos músicos, mas todos são consumidores assíduos. Meu pai sempre ouviu de tudo. Ele tinha um CD chamado A Minha Parte Eu Faço, do Cirurgia Moral, que era um dos meus preferidos.
Só que minha mãe é crente e não gostava que eu ouvisse aquele tipo de música. Eu não entendia muito bem do que se tratava, mas a batida me chamava muita atenção. Acho que esses foram os primeiros contatos com o rap.
Depois eu comecei a ver, street Ball, break dance e percebendo a ligação entre essas culturas. Acho que todo esse emaranhado me fez ser o que sou: a dança e o basquete me deram ritmo e suingue.
E a bateria, é claro. Eu aprendi muita coisa na igreja, sempre admirando os instrumentos, os microfones, as mesas de mixagem etc. Mas a bateria foi a minha primeira paixão no mundo da música. Aprendi a tocar bateria com 10 anos.
Quando você percebeu que o rap poderia ser uma escolha profissional?
Só agora as coisas estão ficando claras pra mim: sobre o mercado da música e a importância de vários fatores que fazem o artista viver da música.
A história na música começou quando o basquete acabou.
Como foi essa história no basquete? Ou o fim dela, pelo menos?
Joguei por 10 anos e o rap sendo a trilha sonora da minha vida desde sempre. Moleque preto revoltado com tudo, racismo, política, polícia, tá ligado, vai ouvir o quê?!
O basquete me proporcionou várias vivências com a alta classe, me proporcionou o acesso a um ensino superior, que infelizmente não deu pra eu concluir ainda.
Mas rolou o seguinte: em 2014, eu tive uma lesão no joelho direito, no menisco mais especificamente. Lesão de recuperação mais fácil do que a que viria em 2016. Em 2016, eu rompi o LCP (ligamento colateral posterior) do mesmo joelho. Isso aconteceu em meio a uma crise no time(UniCEUB), que veio à falência.
Perdi minha bolsa da faculdade. Me encontrava lesionado, sem suporte, abandonado mesmo. Resolvi desistir de ser jogador profissional. Foi uma escolha dura mas eu me mantive firme e com os pés no chão.
Atualmente, você canta e produz?
Eu escrevo, produzo os beats, gravo, faço a mixagem, masterização e tudo mais. Tudo isso aqui do meu quarto, com o pouco recurso que tenho: um notebook velho, uma caixinha da Gradiente, fones de ouvido, placa de áudio e mic.
Como aprendeu a produzir música?
Um pouco da minha carreira como jogador de basquete ir por água abaixo, um amigo (Lion BEATs) da faculdade havia me falado sobre um tal Fruity Loops. A gente conversava muito sobre música e eu sempre escrevi poemas e poesias. Nesse momento, passou na minha cabeça de juntar tudo isso. Ele me mostrou esse programa e eu fiquei fascinado imediatamente, com o processo de construção de uma música.
Outro amigo (STREET), que hoje faz parte do meu grupo,(GSS), me mostrou as músicas que ele tinha escrito. Eu achei muito genuíno e emocionante por compartilhar da mesma vivência e me sentir contemplado nas rimas desse mano. Ele também me falou do Fruity Loops e queria que a gente começasse a fazer as bases, pra fazer nossas próprias músicas.
Então, começamos em 2016, com o mesmo computador que ainda faço minhas produções hoje em dia. Quando me lesionei pela segunda vez, precisei ficar de cama por três meses, pois não podia tocar o pé no chão.
Isso desencadeou uma série de problemas psicológicos, emocionais e até físicos em mim. Eu era um cara acostumado com a rotina de atleta com treinos todos os dias. Tinha a faculdade e uma vida social. Mas me encontrava com depressão, triste e cabisbaixo. É aí que entra a salvação: o FL Studio.
Passei quatro meses me dedicando a aprender a produzir. Era uma coisa muito nova e divertida pra mim. Passava a maior parte do dia fumando ganja e produzindo, vendo vídeos no YouTube pra aprender a mexer na daw.
Isso me distraiu um pouco da lesão e me deixou mais tranquilo e feliz. Ao fim desses quatro meses de recuperação, eu já sabia como produzir um som. Mas o aprendizado nesse âmbito é infinito, por isso eu não paro de produzir e estudar sobre.
No DF, quem são suas referências no rap?
São meus amigos. No rap, eu posso citar o Don, Lamak, Matuto, Gabiru, STREET, Hate, Rach, Guerreiro, Phyre, GNZ. A lista é gigante, meus amigos me inspiram bastante. Mas as minhas maiores referências não estão só cantando. Tenho como referência produtores e pessoas com histórias de vida inspiradoras, atitudes e condutas admiráveis.
Tem o Duckja, né, pô. Desde moleque, eu sou fã desse cara. Conheço a história dele e o admiro demais por conta dela. Ele é um produtor fora de série e faz um trabalho magnífico com a galera da Tribo.
Você curte o rap do DF que surgiu nos anos 90? Como você descreveria essa sonoridade que colocou o Distrito Federal no mapa do rap nacional?
Eu curto, sim. Curtia muito mais quando eu era moleque, mais revoltado. Hoje, ando mais reflexivo sobre minhas ações e pensamentos.
Quando eu faço um som gangsta, a galera fala, "ficou bem rap DF essa hein". Acho que essa seria, mais ou menos, a descrição dessa sonoridade, meio gangsta saca?!
E que transformações você enxerga entre o rap daquele tempo e o que é produzido atualmente?
Tem muita gente no DF que saiu dessa bolha de que o rap só tem que falar de favela, de crime, de drogas e armas, de que o rap só é rap se tiver um cara rimando sem melodia na voz, só o papo reto e sermão grátis.
Eu sou uma dessas pessoas, mas ainda tem muita gente com esse pensamento.
Tudo parte do princípio do que é o rap pra cada um. Eu tenho consciência de que o rap hoje é o mais novo filho do sistema, assim como foi a capoeira, o jazz o blues.
O que, antes, eram armas e diversão para nós, viraram entretenimento e lucro pra muita gente. E, agora, eu te pergunto, o que fazer no meio disso tudo?! Não dá pra mudar um sistema implacável. Então, eu vou buscar tudo que é meu.
Além do rap, eu gosto de música. Música boa e dinheiro, não me privo disso e não me enquadro em nada. VULLTO completamente livre e desimpedido para fazer arte da forma que lhe convém. É aí onde nasce a identidade e a originalidade.
Quais as maiores dificuldades do seu trampo como rapper? São as mesmas que você enfrenta como produtor?
A falta de grana. O rap não paga na hora. A produção, às vezes, paga. Mas minhas maiores dificuldades são financeiras, as mesmas como pessoa, como rapper e como produtor. Minha filha nasce em abril. Talvez precise, sei lá, trabalhar num mercado ou lava jato.Mas eu já vim de tão longe, não posso parar agora. ...
Eu gosto de todas as partes do processo de criação do som, porém, tenho mais facilidade em fazer os beats. As dificuldades são unificadas, a partir do momento em que eu sou o rapper e o produto. São dois alvos para uma flecha, vamos colocar assim. Isso gera uma atenção dividida.
Eu tenho dificuldade em administrar tudo que precisa para se construir uma carreira sólida: a grana, equipamentos, conhecimentos sobre registros, streaming, marketing, como realmente fazer a grana chegar para investir e fazer mais.
Arte precisa de investimento e eu também quero sobreviver.
O que é Ghetto Super Star, o GSS?
O GSS é o meu primeiro projeto, é minha família. São meus amigos, pessoas que confio de olhos fechados. Somos um coletivo de hip-hop, promovemos, além de música, arte ,cultura e esporte na nossa quebrada.
Eu, o Street e o JD criamos o GSS no fim de 2016. Fizemos umas 5 músicas de cara. Eu não sabia produzir direito ainda, então ficou tudo uma merda, mas as letras eram boas. Tão boas que chamamos a atenção do Japão, do Viela 17.
O Japão nos viu mandando um som no aniversário de um amigo em comum, em 2017, e nos chamou para abrir uma das edições do evento Viela 17 Convida. Foi nosso segundo show da carreira e foi bem louco.
Daí em diante, passamos por muita coisa boa e ruim juntos. Não tínhamos noção do que estávamos fazendo. Sabíamos aonde queríamos chegar, mas não o caminho pra isso. O GSS não morreu, continua vivo, porém, cada um dentro desse grupo tem seus objetivos e escolhas.
Nosso maior projeto é o DESAFIO ESTRELA DO GUETO, evento que acontecia de mês em mês, levando o basquete e o rap, como entretenimento e uma válvula de escape para as pessoas da Ceilândia. Muitas vezes, essas pessoas nunca tinham tido contato com o esporte ou a música dessa forma mais empírica. Esse projeto também nos trazia uma renda para que a gente desse continuidade no mesmo e também pudéssemos investir na nossa música.
Um salve para toda a família GSS, Camz, Capital, Spek e geral que nos acompanha e gosta do que fazemos pela nossa quebrada.
[PESO] Quais foram seus principais trampos lançados?
Engenharia Social, single produzido por mim, conta com clipe no YouTube e a música em todas as plataformas digitais.
23 do Lakers também produzida por mim, conta com clipe e música em todas as plataformas digitais.
Baile Black, que é um som do Guerreiro com minha participação e a produção do Thon CRZ.
Querem, uma remix de uma música do Dr DRE, disponível em todas as plataformas digitais.
Não se Perde na Memória é uma outra produção minha, que eu acho bem foda.
Uma história bem pesada e intrínseca, que veio num momento bastante conturbado na minha vida onde eu precisava extravasar, de alguma forma. Na música, eu encontro isso sempre, é como se fosse uma terapia pra mim. A música se chama Subtração, produção minha, mix e master do Thon CRZ.
Todas disponíveis em todas as plataformas digitais.
Com quais artista do DF você gostaria de trabalhar?
Duckjay, com toda certeza. Sou muito fã e muito grato por ter conhecido ele em 2021. Só falta ter a oportunidade de produzir e rimar com ele. O Froid, né, mano. Também o conheci em 2021 e fui citado por ele no Instagram como uma das principais forças do rap do DF em 2022, ao lado dele mesmo e do Bless 97.
Também tenho vontade de trabalhar com Jean Tassy. Ele é sem dúvidas um dos melhores que temos aqui e é diferente do que eu costumo fazer. O estilo dele me cativa muito. Citei esses porque me parecem mais distantes.
Na sua opinião, quem são os personagens mais importantes desses quase 40 anos de história do rap do DF?
Duckjay, com certeza o maior produtor do DF.
Toda a banca da Kamika-z, Tribo, 3 um só, Pacificadores, Guindart 121, Viela 17, GOG, Mano Mix, Dino Black, Rivas, toda a cena das batalhas de rima e vários outros artistas,
Existe um hiato entre as gerações, mas eu acredito muito na galera responsável de uns 10 anos pra cá e a galera que tá chegando agora. Sinto falta de uma aproximação entre a nova e a velha escola aqui dentro do DF.
Qual é o seu álbum preferido do rap DF?
Cirurgia Moral - A Minha Parte Eu Faço
TOP 5 Vullto - músicas ou álbuns do rap DF especiais para você.
Tribo da periferia - Todos
Froid - Todos, inclusive com Um Barril de Rap
Rach - Todos
Hate RCT - Tudo pelos Pretos
Murica - Sede