VERA VERÔNIKA

Em 2015, Vera Verônika foi coordenadora de um projeto em que atuei como instrutor e consultor de empreendimentos culturais. De lá para cá, minha admiração pela história desse patrimônio vivo do hip-hop no DF só cresceu.

Sentamos no hall do Espaço Cultural Renato Russo e conversamos sobre a jornada das mulheres no rap daqui, gangsta, machismo estrutural e sobre as dificuldades da indústria fonográfica contemporânea.

Entrevista e foto por Thiago Flores em 29/10/2019, no Espaço Cultural Renato Russo

VERA-VERONIKA.jpg

A história do rap é contada sempre fazendo referência aos homens, colocados como únicos protagonistas. Você, como pioneira- ou uma das pioneiras- do hip-hop daqui, pode contar um pouco do começo da trajetória do DF pela perspectiva da participação das mulheres? 

A cultura hip-hop no Distrito Federal começou com a música e com a dança. A dança veio ainda primeiro, com Nelson Triunfo.

O DJ Chocolaty tem documentado uma menina chamada Regina fazendo um freestyle em 1990, num concurso de rap que o Câmbio Negro ganhou. Talvez tenha sido ela a primeira mulher a fazer rap aqui. Mas, essa menina sumiu do mapa e eu fiquei sendo considerada a primeira.

Eu comecei cinco anos depois que os caras já tinham músicas gravadas. Mesmo eu já participando da cultura, só consegui gravar meu primeiro som em 1992. 

Naquela época, as mulheres eram convidadas pelos grupos masculinos para fazer refrão e backing vocal. Então, já tinham mulheres fazendo isso, mas não rimando.

Eu convidei duas amigas que dançavam nos bailes, mas ainda não cantavam. Em 1991, a gente criou o grupo Missionárias, no Entorno. No DF mesmo, não tinha nenhuma mina praticamente. 

Muitos homens ajudaram. Naquele tempo, não tinha essa globalização: internet, computador, telefone.  Era uma coisa bem rudimentar, comparando com a tecnologia de hoje.

Como a gente não tinha acesso às bases, o DJ Chandelly  me ensinou a editar fita para compor a  base.  Vimos também a necessidade de ter uma mulher DJ e não tinha nenhuma. Fui fazer curso de DJ, com o DJ Chocolaty. Então, acabei sendo pioneira em dois elementos: sendo DJ e MC. 

Depois do meu grupo, a gente descobriu que muitas meninas queriam rimar também. O grupo era impactante. Três mulheres no palco: eu muito grande, muito gorda; uma loira e uma morena. Era uma coisa bem legal para a época. Naquele tempo, a gente tinha que pagar para estar nos eventos e cantar. Era assim que a gente conseguia se apresentar. 

E aí, em 1994/1995 foi o boom, o início de várias mulheres e vários grupos femininos no DF. 

Em uma entrevista para o extinto Huffington Post, você menciona uma pesquisa sobre as mulheres do rap do DF. O que é esse estudo e como está sendo realizado?

Em todos esses anos, percebi que a gente[mulheres] não tem nossa história documentada. Resolvi mapear quem são as mulheres da cultura hip-hop no Distrito Federal. As precursoras, as atuantes, as que já pararam, os motivos que as fizeram parar.

Eu tenho entrevistado, por meio de questionário escrito, mulheres dos cinco elementos: b-girls, grafiteiras, DJs, MCs e as do quinto elemento, que é o conhecimento. Dentro do quinto elemento, eu pude identificar: mulheres na produção, Slam’s, o freestyle, a poesia, as batalhas... Então, a pesquisa se ampliou um pouco. 

É um material muito rico. Porque, só as que cantam, eu estou na entrevista número 92. Mas, nem todas não ainda atuam.

O início da década de 90 marca a emergência dos artistas de rap do DF no cenário nacional. Você consegue identificar algumas características peculiares do som que era produzido aqui? Base, letras, discursos ou até trejeitos...

O DF tem uma particularidade: todo o Brasil veio para a construção de Brasília. Então, a gente tem todos os tipos de sotaques, de gírias . 

Naquela época, a gente foi meio que intitulado gangsta, porque a gente era agressivo: as bases pesadas, as letras fortes. Gangsta, para a gente, naquela época, era ter força e ter peso. Então, essa era uma característica muito forte.

Outra coisa marcante são as expressões: o véi, pegar um baú e gírias que vieram com o GOG, com o Jamaika, com os Magrellos, com o Raffa. A gente tem sim essa particularidade que saiu de Brasília e foi para o Brasil.

A trajetória do rap no DF foi marcada, principalmente no universo dos homens, por tretas importantes e longas. Quais foram os impactos destes desentendimentos entre artistas, produtores e grupos, nos caminhos percorridos pela cena daqui?

Eu tenho duas visões sobre essa sua pergunta. 

Primeira: enquanto os caras estavam tretando por disputa de espaço, de gravadora, por rádio e ideologia, as mulheres estavam ralando. Enquanto os caras estavam brigando, a gente estava se profissionalizando. 

Muita gente já me falou: “Você era nível nacional! Era para ser a nossa Dina Di.” Como? Se eu tinha que ser professora 60 horas/semana, me qualificar, criar meus filhos? Para além do rap e da música, a mulher sempre carrega um fardo a mais, ela tem que fazer duas vezes mais. 

Então, enquanto os caras estavam tretando, a gente estava se qualificando. Isso é um dado da minha pesquisa: quase 70% das mulheres envolvidas com o hip-hop no DF já passaram pelo ensino superior.  Bem diferente dos homens rappers, dos artistas. Porque a gente precisa se qualificar, a gente precisa ser melhor...

Segunda: essas rixas trouxeram uma ruptura muito grande. Era para, nacionalmente, a gente estar junto, estar na mídia junto [com os grandes pólos de rap do Brasil, como São Paulo]. A treta de alguns grupos, até com músicas ofensivas na época, fez com que a gente perdesse espaço. 

Isso não foi culpa de masculino ou feminino, foi o rap nacional do DF. Ele estava lá no topo e caiu de uma forma que saiu arrastando todo mundo. Esse é o meu ponto de vista sobre essas tretas.

O machismo é um traço profundo da sociedade brasileira. Como você sentiu isso nesses 30 anos de carreira? Como você acha que o machismo impacta a cena atualmente?

O machismo é uma fissura na sociedade e nunca vai acabar, infelizmente. É cultural. Está atrelado à educação e a educação é renegada em nosso país. 

Como eu falei na primeira pergunta, quando eu comecei no hip-hop, eu não sentia machismo.  Como não tinham outras mulheres, quem me ajudava eram os homens.

Depois que eu e outras mulheres se estabeleceram, a gente foi vendo atitudes muito veladas, muito intimistas, dos caras falarem para as minas: “Ah, você é mulher, te conheci no hip-hop, mas, hoje você não vai cantar, não vai sair, não vai sozinha, não vai com essa roupa, você não pode...” Muitas mulheres foram ouvindo isso e acabaram saindo do movimento.

Hoje, o machismo está muito mais agressivo. Ele está nas letras dos rappers, nas atitudes das batalhas.

Se numa batalha de rima, você tem um tema, mesmo genérico, o homem vai atacar a mulher na roda: vai falar do cabelo, da bunda, da condição social, que o lugar dela é na cozinha. 

O cara vê aquilo como brincadeira, disputa do jogo, mas são opressões psicológicas que podem fazer uma mulher desistir. Ou vão fazer com que uma mulher se revolte ao ponto de ter que fazer uma letra atacando uma pessoa. 

Muitas vezes, não são só ataques verbais e psicológicos, são agressões físicas. Se as minas não tem conhecimento, não tem apoio, o machismo acaba fazendo com que muitas desistam do movimento.  

Quais são as maiores deficiências no DF como mercado de hip-hop? Por que é tão difícil sustentar carreiras artísticas, principalmente a longo prazo?

Como os grupos de RAP vão se sustentar num estado que não valoriza a cultura hip-hop?? Atualmente, gente já está enfrentando propostas parlamentares de criminalização da música, principalmente do funk e do rap.

O mercado fonográfico também é bem difícil. Ou você investe tempo e dinheiro numa assessoria de impressa, numa mídia e numa inovação musical ou você acaba estagnando. O ponto principal é a falta de conhecimento de como colocar o produto e o material na rua. 

O DF tem uma particularidade. A gente tinha muitos eventos públicos, subsidiados pela Secretária de Cultura, por emendas parlamentar. A galera meio que se viciou nisso, meio que está sempre esperando acontecer. 

Essa pergunta parte de uma percepção minha. Se você discordar, você pontua. Eu vejo muitas festas com DJs tocando rap, mas não vejo muitas festas com MCs rimando. Você acha que existe mesmo essa disparidade?

Todo grupo de rap precisa de um DJ, mas o DJ não precisa de um grupo de rap. O grafite é um elemento do movimento hip-hop, mas nem todo grafiteiro ouve rap. Os b-boys não dançam o rap nacional. São quatro elementos que não estão conversando mais entre si. 

Daí, a gente parte para a especulação dos produtores: “Vou colocar numa festa um DJ de rap, que também toca outras coisas ou colocar MCs  que ficam só no rap discurso? “

O cara pensa: “no rap discurso, as pessoas não vão dançar, elas precisam ouvir e refletir. No momento, eu só quero entretenimento, vou contratar só DJ mesmo.”

Então, acaba que quem produz a festa não tem essa sensibilidade de colocar os elementos juntos. Uma visão minha.

Na sua opinião, quais são os personagens mais relevantes nesses quase 40 anos de rap do DF?

Câmbio Negro, Código Penal, DJ Celsão , Vera Verônika , GOG, Falso Sistema e DJ Chokolaty.

Quais são seus álbuns prediletos dessa trajetória?

Câmbio Negro - Sub Raça

Código Penal - Vivemos como o Diabo Gosta

Falso Sistema - Contra Ataque 1° Ato

Vera Veronika – Mojubá

E o Top 5- álbuns ou faixas da Vera Veronika?

Vera Veronika – Heroínas de Geração

Falso Sistema - Lado Sul

Câmbio Negro - Sub Raça

Código Penal - A Hora do Poderoso

GOG - Dia a Dia da Periferia


Referências

[Nelson Triunfo- Pernambucano considerado um dos pais do movimento hip-hop brasileiro. B-boy profundamente envolvido com o surgimento da cena em Brasília e São Paulo. ]

[Dina Di- Rapper paulistana falecida em 2010. Um das pioneiras do rap nacional, integrou o grupo Visão de Rua e reverenciada até hoje pela cultura hip-hop]

[Gangsta rap- subgênero do rap desenvolvido e consagrado na costa-oeste dos Estados Unidos, a partir do final da década de 80. Caracterizado pelo ritmo mais lento, baixo grave e marcante; uso de sintetizadores, samples de funk, jazz e soul, refrões com vocais femininos; letras agressivas e descritivas de um cotidiano periférico violento]

[DJ Celsão- nascido em Nilópolis, RJ, desempenhou papel fundamental para a disseminação do rap e da cultura hip-hop no Distrito Federal. Residente do baile charme mais famoso da capital e apresentador do programa de Rádio Mix Mania, abriu espaço para inúmeros artistas brasilienses. Faleceu em 2015]