THIAGO JAMELÃO

Thiago Jamelão é figura tarimbada em shows, gravações e gigs pelo DF. Guitarra afiada e voz afinada, conversamos em duas oportunidades. A primeira em 2019, no Conic, e a segunda por Whatsapp, em 2020.

Falamos sobre hardcore, não saber cantar, conviver com o ídolo Emicida, a construção do primeiro álbum solo e características peculiares do rap do DF.

Entrevista e foto por Thiago Flores em 07 de julho de 2019, no CONIC, e em diferentes dias de 2020, por Whatsapp.

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As coisas estão começando a fluir pra você. Mas para chegar até aqui foi uma caminhada, né, mano? 

Nunca imaginei que poderia conhecer outros lugares, ainda mais vindo de onde eu vim.  Eu morava em Goiânia e achava que o lugar mais longe que eu conheceria seria Caldas Novas, porque minha mãe tinha familiares lá.

Na minha primeira turnê com o Ataque Beliz, no ônibus, olhei aquela placa “Bem-vindo à Goiânia” ficando para trás e chorei, mano.

E como começou sua trajetória na música?

Minha primeira referência em música vem da minha mãe. Ela cantava muito pra gente.  Também tenho a rua, porque, onde eu morava, tinha uns caras que viviam cantando, tá ligado? Cantavam pagode e até rap na rua. Essas são minhas primeiras referências.  

Mas, foi na igreja onde eu comecei a ter interesse de verdade: cantar e aprender um instrumento. Comecei tocando bateria, depois fui tocar guitarra. Depois disso, eu entrei numa banda, que abriu minha cabeça em relação ao mundo e à música: o Countdown. Na verdade, eu nunca imaginei que pudesse viver de música, ainda mais do rock. Não dava grana. Era um rolê por amor mesmo

Fiquei um tempo tocando com eles até me mudar para Brasília. Tinha desistido da música. Eu achava que tinha que encontrar um trampo, fazer grana, construir minha vida e ajudar minha coroa lá em Goiânia. 

Comecei a trabalhar numa loja de camisetas conhecida da cidade e trombei a Ellen Oléria, que conhecia o som da CountDown e me reconheceu.  Ela me chamou para fazer um projeto com ela e o irmão dela. Eu falei: “Nem sei tocar essas coisas, sou do rock”.  Eu era muito roqueiro: power acorde, solar rápido, essa coisas mesmo. 

Trocando ideia com a Ellen, conheci uma menina que fazia rap e elas me apresentaram os moleques do Ataque Beliz. Os caras me chamaram para fazer um teste, porque iam mudar uns integrantes da banda. Eu fui.

Nem precisei fazer o teste. Esperando a minha vez, fiquei tocando o violão e cantarolando, o Benjamim chegou e falou: “ô, mano, tu canta!”. Eu falei: “não, eu toco guitarra.” Nem sabia que eu cantava, pô.

Na igreja, cantava todo mundo junto. Eu cantava para ajudar.  No Countdown, a gente gritava, tinha uns melódico, mas eu não achava que eu era um cantor.  Mas os caras disseram “mano, você está na banda e vai cantar.” E eu fiquei e fui levando, mas sem acreditar que cantava.

E quando você acabou se convencendo?

O divisor de águas na minha cabeça foi em 2011, quando a gente fez o programa Som Brasil e eu teria que cantar a música principal do programa

Pedi ajuda ao Angel Duarte, uma das minhas maiores referências como cantor. Ele me deu umas dicas, me botou para cantar e falou: “mano, você canta”. 

A ficha só caiu depois que eu gravei o programa, depois que eu me ouvi cantando. Por mais nervoso que eu estivesse, depois daquele momento, eu tomei para mim que cantava. Aí, eu comecei a cantar, de verdade.

E você curte o rap de Brasília que surgiu nos anos 90?

Sim, velho. Tive a oportunidade de trabalhar como duas figuras do início do rap DF: o GOG e o Cambio Negro. Depois vem o DJ Jamaika. Foram os três maiores nomes que eu conheci pessoalmente, né. 

E na sua visão de músico, como você descreveria a sonoridade do surgimento do rap aqui no DF?

Caralho… que pergunta foda, mano.

Acho tudo muito diferente, cada artista fazendo uma coisa. Embora, tenha, sim, um estilo em comum. Acho que, até por isso, o DJ Raffa vai para São Paulo, né? Acho que eles queriam essa sonoridade.

É muito louco. Tem o grave, o destaque de Brasília sempre foi o bass. Mas, pra mim, não dá para fazer essa leitura descrevendo só pelo grave, porque eu penso em todos os elementos.

Que transformações você consegue enxegar no som que era produzido nos anos 90 e nos meados dos anos 2000 e o que está sendo produzido hoje, na contemporaneidade?

Nos anos 90, a gente tinha um discurso mais político. No rap de hoje até tem uma galera preocupada com o texto, com a história, em trazer esse discurso político de uma maneira mais atual. Mas, tem uma outra molecada que só que falar de festa. Eu acho ok: mudança de geração, mudança de mundo, tá ligado?! 

Quanto à sonoridade, hoje, o rap tem mais elementos orgânicos, coisa que não tinha antes. Antigamente, era mais quadrado, falando de timbragem e tudo mais.

Atualmente, existe uma coisa mais cantada. Os caras se arriscam a cantar mais, muito mais melodias. Antes, os caras rimavam e levavam alguém que fazia aqueles refrões, que eram marcantes.

De maneira geral, os artistas que colocaram o DF no mapa na década de 1990 perderam um pouco de relevância no cenário nacional, pelo menos comercialmente. Por que você acha que isso aconteceu? Foi um movimento de mercado?

Na minha visão, existiu a questão do mercado sim, mas tem a questão da vida em si. Tudo muda, as histórias mudam, as pessoas mudam...

Alguns desses nossos camaradas não conseguiram se adaptar às mudanças de gerações. Acho que faltou trabalhar o profissional, aquela visão empresarial, de futuro mesmo. Acho que faltou isso.

Você acha que as grandes tretas do rap do DF na década de 90 tiveram impacto no cenário que temos hoje? Quais impactos você enxerga?

Sinceramente, acho que não. O maior impacto que essas tretas causaram foi nos próprios artistas Acredito que pessoas que poderiam ser maiores não chegaram lá por não terem conseguido lidar com si mesmas.

Pode soar clichê, porém, a real é: nosso pior inimigo somos nós mesmo.

Quais as maiores deficiências da cena de rap do DF? O que você acha que falta para a cena desenvolver, produzir mais, gerar mais emprego e mais dinheiro?

Falta uma junção, mano. União de verdade para o fortalecimento real, mesmo. A gente sempre teve esse discurso, mas falta um fortalecimento real. 

E falta também um barato das pessoas se preocuparem em ganhar sua cidade. Construir, no lugar de onde você é, é importantíssimo. Acho que falta isso: fortalecer o outro,  abrir o coração para se identificar com aquelas história cantadas. Tem um monte de moleque talentoso, véi, colocando a vida na caneta.

Falta isso: fortalecer indo no show, fortalecer comprando uma peça., divulgar, compartilhar real. Às vezes parece meio que uma competição de “ah eu não vou compartilhar”. Sei lá, besta véi.

Há alguns anos, você está numa vivência muito próxima com o Emicida. Quais as maiores lições pessoais e profissionais você conseguiu tirar desse período?

Meu mano, são tantos aprendizados que nem sei como organizar. O que posso dizer é: essa proximidade me ensina a ver as coisas de um modo que eu não enxergava. E a lidar com elas de uma maneira leve. Não falo somente profissional, mas de vida. 

Trabalhar com o cara que eu sempre admirei a caminhada, sempre me identifiquei com cada história que ele escreveu e cantou, tem me ensinado a cada dia. Me abriu a cabeça para várias coisas. 

É um barato louco. Eu venho de uma parada muito mais técnica, de estudar. Ele tem a vivência de rua e a vivência por instinto. Então, ele tem uma sensibilidade para umas coisas, que eu não tenho. Então, eu aprendo muito com ele nisso também.

Quais foram os melhores e os piores momentos dessa vivência aí em SP?

Não diferente de muitas pessoas, eu sou um cara que odeia mudanças. Somos muito medrosos e acomodados a uma certa forma de viver.  O pior momento foi estar numa cidade nova,  de certa forma construindo tudo do 0 novamente. 

Graças a Deus, fui bem acolhido pelos amigos aqui. Tenho tido vários melhores momentos, mas posso dizer dois: trabalhar e ajudar a construir dois trabalhos lindos, que são o álbum Amarelo, do Emicida, e o disco da Drik Barbosa.

E o seu álbum, mano? Como está?

Está para sair, se Deus quiser.

O produtor do disco é o DJ Duh, produtor do Inquérito. Quem assina a direção artística é o Emicida. O disco tem participação do Rashid, do Musik, da Drika Barbosa, do Emicida, da Paola e dos músicos que participaram, como o Digão. Tem esse time todo comigo.

Posso dizer que é um disco de r&b e rap, mas vou deixar para o público ouvir e definir o que é. Acima de tudo é um disco que eu tô colocando tudo nele: minha alma e minha música. 

Na sua opinião, quais os personagens mais importante dessa história do Rap do Distrito Federal?

Pra mim, os personagens mais importantes: GOG, com certeza. Câmbio Negro e Tribo da Periferia. Posso colocar o Ataque Beliz, que foi importante para a cidade, pra cena e para mim, Jamelão enquanto construção.

E você tem algum álbum favorito aqui do rap do Distrito Federal?

Caralho, mano. Nome de álbum mesmo? Preferido, preferido não tem agora não. Eu gosto do Cartão Postal. É isso, eu não sei dizer mais agora.  

E o Top 5- álbuns ou faixas do Jamelão?

Vou de faixas:

GOG – O Amor Venceu a Guerra 

Tribo da Periferia – Sem Rótulo 

Ataque Beliz – O Giz e o Fuzil 

Vera Verônika – Heroínas de Geração 

Atitude Feminina – Rosas

Menções Honrosas: Heitor Valente- Dádiva e Murica- Fome

Referências

[Ataque Beliz- grupo de rap formado no Paranoá, DF, em 2001. Liderado por Higo Melo, Alisson Melo e Anderson Benjamim, misturava rap com diferentes sonoridades, sempre acompanhado por uma banda. Encerrou as atividades em 2018]

[Ellen Oléria- cantora, compositora, atriz e apresentadora brasiliense. Um dos nomes mais relevantes do cenário musical brasiliense contemporâneo]

[ Programa Som Brasil- Extinto em 2013, foi um dos programas música mais importantes da televisão brasileira. Transmitido pela Rede Globo, teve 30 temporadas, desde 1981]