THABATA LORENA

Conheci Thabata em 2011 quando trabalhava em uma produtora cultural no Mercado Sul, Taguatinga. De lá pra cá, a rapper, cantora e compositora nascida em Imperatriz, Maranhão, lançou álbum e DVD, rodou sozinha o Brasil em turnê e foi mãe de outra criança.

Thabata me recebeu em sua casa em Taguatinga Sul e conversamos longamente sobre maternidade, representatividade negra, sua personalidade forte, sobre identidades do rap de Brasília e os caminhos da sua música.

Entrevista por Thiago Flores em 03 de outubro de 2019

Foto: Thaís Mallon


Você veio de Imperatriz, MA. Qual a influência da música e da cultura maranhense no seu trampo?

Eu sempre quis responder essa pergunta. 

A minha cidade é um dos principais pólos comerciais do Maranhão. É o Portal da Floresta Amazônica. Minha cidade tem todos os equipamentos sociais que uma cidade grande tem: teatro, cinema, centro cultural, sabe... cartório, autódromo, têm várias coisas assim.

 Como ficou muito cedo com cara de metrópole, rapidamente a gente foi eliminando a cultura local dos lugares de acessos à cultura. Essa característica jogou a cultura popular para um lugar muito marginalizado, que tem a ver com a população originária, ou seja, as quebradeiras de coco, as indígenas, quilombolas. 

Eu não conheci isso no meu estado, nem o bumba meu boi eu conheci lá. A cultura estava ali, mas a minha a avó era crente, então, música do mundo nem pensar.  Tinha aquela coisa muito fechada.  

Minha mãe já gostava de MPB, bem Caetano Veloso, Djavan, Milton, aquela época de ouro. Ouvi muita coisa de artistas nordestinos, mas já com a perspectiva nacional, gente que estava fazendo carreira em São Paulo, Rio de Janeiro e tudo. 

Eu conheci o bumba meu boi aqui em Brasília, através do Seu Teodoro. Brasília foi uma porta para eu acessar a cultura popular por um outro prisma. Então, quando eu fui conhecer a cultura do meu estado, foi com um olhar de valorização.  Era um misto de memória com novidade, do tipo:“eu acho que já ouvi isso em algum lugar”. 

Meu contato com a minha raiz já veio com esse olhar da inovação. Como eu não tive essa cultura na minha cidade, eu não sei como a música de Imperatriz influencia no meu trabalho. Inclusive, eu percebo que eu sou muito mais influenciada por ritmos pernambucanos, porque tem a ver com a minha vivência aqui em Brasília: maracatu, coco, cavalo-marinho, as cirandas né.

Eu faço um resgate constante do bumba meu boi, mas também a partir desse olhar de observadora, de pesquisadora da cultura popular. Então, eu vou muito ao meu estado com esse objetivo da pesquisa, mas da pesquisa na vivência também, de me apropriar.

 Agora, eu tô querendo ampliar a visão do meu estado para as coisas das guitarradas, as influências de produção que tem a ver o Norte.Tem todo um tronco ali, porque o Maranhão já foi Norte. A cultura do Maranhão também parece muito a cultura do Norte do país, a gente tem uma ligação muito forte com a floresta e tem uma população indígena muito grande. 

É isso, eu tô em fase de redescoberta. Eu vejo uma coisa pela primeira vez e parece que eu passei a minha vida inteira vendo aquilo em algum lugar.  Mas ainda estou em busca. Eu ainda não consigo colocar isso no meu trabalho. 

E como começou seu envolvimento musical com o rap? Lembra da primeira vez que ouviu um e dos primeiros sons que escreveu?

Você está fazendo as perguntas que eu sempre quis responder, que legal. 

Nós morávamos em uma casa em que cada pavimento era uma família, um térreo e mais dois andares.

Meu primo já cantava rap, mas eu ainda não ouvia. Rap era uma coisa estranha, que não entrava[na minha cabeça], eu não codificava. Eu dançava É o Tchan, tava na pegada do bambo, do bambo, do bambolê[risos]

Um dia, o telefone tocou lá embaixo e eu tive que subir para chamar o meu primo para atender. Fui entrando e tinha uma luz num corredor escuro. A porta estava aberta, tava saindo uma fumacinha assim do quarto e tocando Quem tem seda [da banda carioca Planet Hemp] , véi.

Eu parei no corredor, encostei a cabeça na parede. Me encostei como se eu estivesse me escondendo na sombra do corredor. Não chamei ninguém, fiquei ali ouvindo a música inteira: “brothers, brothers, hermanos, irmãos, represento todos aqueles chapados no chão”. Ele [Marcelo D2] foi falando, foi falando e, de repente, eu comecei a entender o que ele dizia.

Esse é o momento do rap. No rap, você tem que entender a toada. Para entender o que a pessoa diz, leva um tempo. Quando você conhece um rimador novo, isso é comum. Então, eu comecei a entender. Daquele momento em diante, eu passe a analisar as letras das músicas que eu dançava. Foi um caminho sem volta. 

Voltando à história.

Depois que a música acabou, eu me toquei que eu tinha ficado ali uns cinco minutos parada. Não tinha mais ninguém na linha. Eu desci e desliguei, fiquei fingindo que aquilo nunca tinha acontecido. Eu não podia contar pra ninguém que eu tinha visto. Eu sabia que o cigarro era errado, eu sabia que eu não devia estar ali, entendeu. 

Mas a cena ficou no meu subconsciente, norteando minhas experiências.Eu fui buscando toda essa atmosfera, o escuro, a fresta de luz, a fumaça... 

Eu não cantava, ainda. Eu já tinha feito umas coisas com o Cleber, umas coisas de refrão. Mas, nunca tinha escrito uma música e tal. 

Aí eu me mudei para Natal. Em uma roda de improviso, um cara rimou falando: “não sei o que da rima, não sei quem não rima”. Lá pras tantas, eu fiquei incomodada por ele ficar falando de mim. Ele dizia que eu não rimava. Que eu era legal, mas essas minas não rima. 

Ele não estava falando isso ofensivamente. Mas eu sou muito bélica e me senti ofendida. Basicamente, imitei o flow dele e respondi. Até hoje esse menino diz que não aquela não tinha sido a primeira vez que eu cantei. Mas foi a primeira vez que eu rimei. 

Eu já tinha um acúmulo musical. A musicalidade fluiu dali. Eu comecei, de fato, a cantar improvisando. Isso me marcou muito. Abriu uma torneira. Eu escrevi mais de 40 músicas num período de um ano. Depois, foi tudo pro lixo, mas foi adubo para as coisas que eu viria produzir.

E como foi para você, mulher negra e nordestina, crescer pessoal e profissionalmente no Brasil e no rap, dois universos essencialmente machistas e racistas?

Eu preciso responder que foi mais difícil, sim. O mundo percebe a gente de uma forma e as pessoas trazem essas cadeias de dificuldades. Mas existe um componente muito subjetivo nisso tudo.

É difícil a gente subjulgar o ser, a partir dessas condições que nos foram dadas. 

Eu vou dizer pra você: ser quem eu sou é muito criativo. Minha potência é muito bélica. Ter uma luta, pra mim, é uma coisa que suaviza minha experiência de existência.

Essa pergunta é recorrente. Eu sinto que algumas pessoas têm a tendência de querer me jogar para determinado lugar de fala.  Se a conjuntura não é favorável para mim, eu tenho muito mais para falar sobre as soluções que eu encontrei do que sobre as dificuldades que eu vi. Então, eu me olho mais nesse lugar. 

Se eu nascesse como eu sou e tivesse num lugar de privilégio, eu ia brigar contra quem? Eu ia lutar contra o quê? Então, na minha existência Thabata, eu acho bom ser preta, mulher, nordestina. Eu sei claramente quem é o inimigo e posso realmente fazer uma política de vida.

O meu desafio, enquanto liderança e individualidade, é criar um lugar onde caibamos todos, [da minha trajetória] não ser a exceção. Que a mulher negra possa saber realmente estar em primeira voz e saber colaborar. 

Eu acho que, no nível da individualidade, a vida é tão rica. A ausência também é um trampolim criativo, a falta de lei também é uma perspectiva de aprofundar experiências, sair do campo do que está previsto, né?

Mas, tudo isso porque eu sou a Thabata. E eu, Thabata, não tenho um pensamento definido pela minha cor de pele. Tenho um pensamento definido pela minha experiência. 

A reparação [pelos danos causados pelo racismo] deve existir em nível institucional.

E o machismo?

Sobre o machismo: comigo, nunca senti. Eu sempre me senti muito respeitada intelectualmente, sabe. Por quê? Eu sempre fui muito briguenta. A minha natureza era muito compatível com: “Ó, agora sou eu quem vou falar”.

Outro viés: nunca fui uma menina muito sexy. Quando uma mulher assume sua feminilidade em ambiente masculinos, ela vai para o estereótipo da vadia, da oferecida. Também não ficava com vários homens, do mesmo ciclo. São coisas que fazem que uma mulher vá para um lugar de percepção.

Eu cresci num ambiente onde eu era valorizada por ser preta, por ser mulher. O rap trouxe isso para a minha geração: poder me olhar como uma mulher foda. Eu nunca fui humilhada, dentro do rap, por minhas características. Sempre fui exaltada por ser quem eu sou. 

Mas eu comecei a entender que não se tratava só sobre mim.Outras mulheres tinham outras experiências. Vi várias mulheres sendo questionadas, chacotadas, sofrendo machismo de maneira radical, brutal e desumanizante mesmo. Demonizando a sexualidade feminina, a identidade feminina.

Eu confesso que, em determinado momento, eu era palco para ideias pejorativas sobre o feminino. Eu tenho muito contato com a minha energia masculina. Eu me revestia um pouco nesse lugar meio escroto. Sendo sincera, né. 

Com o tempo, eu fui percebendo que, na verdade, as pessoas não podem viver tendo que brigar e destruir para existir ou para serem consideradas. Uma mina que, por exemplo,não quer bater boca o tempo inteiro, como eu gosto de fazer, tem que ser respeitada na sua escolha. Eu comecei a entender isso.

Não é só o rap que é machista.A sociedade brasileira é, em todos os espaços de poder. Para explicar isso, a gente volta lá atrás: a mulher na vida doméstica e o homem na esfera social. 

É muito mais fácil você ter histórias de mulheres silenciadas, que deixaram de investir no rap, de construir suas carreiras, de fazer suas histórias.

Como foi o seu consumo de rap do DF ao longo da sua trajetória individual? Quais artistas e que tipo de som você mais ouviu?

Sem dúvida, o GOG. Ouvia o GOG não só aqui no DF, mas em todos os lugares que eu ia. Quando a galera ficava sabendo que eu era do DF, já soltava o GOG nas caixinhas e cantava junto. É bem forte.

Com a Vera Verônica, é engraçado. Eu fui ouvir mais a Vera nessa fase em que a gente já estava usando as mídias sociais. Eu não tinha muito acesso, a via nos shows, mas não tinha muito acesso. 

Tive um disco do Atitude Feminina. Código Penal também me marcou muito, principalmente minha trajetória como MC. 

Tem o Tribo da Periferia. A gente tinha o nariz meio torto para o Tribo da Periferia, porque era muito pop. Não que o trabalho não fosse bom, mas a gente ainda não tinha entendido que o trabalho deles não era só popular no conceito, mas também na sonoridade. O Tribo da Periferia tem as melodias, faz um som gostoso para desanuviar a mente do trabalhador que curte rap. Então, tem uma função muito importante.

Depois dessa democratização do acesso, entrou muita gente. Estourou um cano de menino fazendo som,né?

Na minha trajetória de rap, eu fiquei bastante tempo com uma galera no que era meio que um laboratório das nossas produções. São os MC’s de Classe, posso destacar o Nauí, o Afroragga, o Doctor Zumba, o próprio Marcão MC era um cara muito presente lá. Meu DJ, atualmente. 

Sem contar os produtores, amigos, as festas. A gente ia para a DaBomb, para a Makossa, na época que a Makossa tinha uma outra proporção, outra pegada, era uma festa realmente para preto mesmo. 

Se você pudesse descrever a cena e a sonoridade ou as sonoridades do rap do DF, como é que você descreveria?

Eu sinto que tem dois momentos no rap DF.

Tem como rap DF é conhecido, que é o peso, é o gangster. Uma galera da antiga com uma pegada bem oldschool mesmo, tá ligado?! É aquele rap que tem uma herança real dos Racionais. Tudo pausado, aquela voz cheia.

A galera da nova geração, da minha idade, é muito da melodia. O flow dos Mc’s não é um flow duro, quadrado. Você tira pelo Murica, pelo Froid, pelo Afroragga, o próprio Nauí. Flows muito experimentais. As minas também: Rebeca Realleza, a própria Lídia Dallet e outras que estão compondo. Meu próprio trabalho também, não tem essa pegada mais dura, mais falada. 

Todos tem essa característica de serem muito musicais. Eu acho que a gente se encontra nesse lugar de produção. Temos uma herança forte da experiência do Natiruts, esse lugar do reggae, do ragga, um flow mais roots, com uma pegada mais raiz. Também é uma coisa bem mais forte. 

São dois momentos, que é o pesão e o movimento de agora. 

E qual seria sua avaliação da cena do DF como mercado de rap? Quais seriam as nossas maiores deficiências? O que falta para sermos capazes de produzir artistas em âmbito local, regional e nacional e de sustentar carreiras, a longo prazo?

A gente precisa de mais casas de shows particulares. Acho que isso movimenta real a cena local. Faltam casas de show que tenham alma. 

Acho que faltam produtores, agentes de negócio. Eu sinto que falta um pouco profissionalismo nesse sentido. Alguém que aborde os contratantes do tipo “olha esse é meu produto, esse é meu trabalho” . Que deixe as coisas claras pro artista também: é 40/60.

Eu sou assim, eu prefiro 60% de algo do que 100% de nada. Então, falta um pouco de clareza, de interesse:  “olha, o meu interesse é esse, vamos fazer uma parceria assim e tal”. Então, eu acho que ainda falta essa categoria que são os produtores.  

Teve um empreendedor que recentemente, mudou muito nossa visão de geração de renda e o público underground de Brasília, que foi o Ervilha. Aqui no Mercado Sul, ele colocava 500 pessoas numa sexta-feira , cara, sem nada de mais, num boteco para consumir rap basicamente. 

Depois o bicho aloprou, porque era um galpão gigante, difícil de cuidar pra caramba e ele sem equipe direito, mas que também fazia evento e bombava lá. 

Então, eu vejo que o público de Taguatinga sempre vai para fora para consumir. Acho que valorizar essa cena particular, essa cena independente mesmo assim e as casa de show acho que vai... porque é isso, cantorzinho que faz cover, tem esse de ir para bares. O rap precisa de caixa de som, então a gente precisa de uma casa realmente de show.

Você acha que existe uma dependência de dinheiro público e incentivo governamental para a cena do DF, em algum nível?

Eu acho que sim, mas acho que isso é uma coisa importante também.

Hoje,  você tem projetos, prêmios, ações específicos para a cultura hip-hop. Isso bota a cena inteira para pensar e repensar seu próprio planejamento.  É por isso que existe financiamento público, porque, em outros momentos, a gente não conseguiu pensar a carreira, pensar processos, contratar serviços. 

Existe também um buraco na evolução da cena, isso tem a ver com estruturas: equipamentos, lugares, profissionais.  

Então, sim, eu vejo essa dependência, mas não vejo isso de forma negativa.  Acho que é um momento de transição, tá ligado?!

Nos últimos anos, você fez show em vários lugares do país. Como foi a recepção? e Quais momentos  você marcaria como mais marcantes da sua carreira?

Rodei 11 mil quilômetros, só eu e Deus. De Pipa a Pelotas, desse jeitinho [aponta para um Fiat Uno].

O público é muito generoso. E muito aberto. Vi, também que o rap do DF é bem visto nacionalmente. Quando eu falava que estava vindo do DF, o povo falar só trazia referências interessantes. 

Eu posso dizer que as pessoas foram muito generosas.  Chegar num lugar, ninguém te conhecer e, na segunda vez que você está cantando o refrão, a galera cantar junto, foi muito bom. 

Foi nessa viagem que eu consegui bombar a quantidade de pessoas que me seguem, que acompanham o trabalho. Então assim, a recepção foi incrível. 

Eu fiquei muito surpresa. Eu esperava encontrar um público mais desconfiado, mas eu sinto que dizer que era nordestino me ajudou, dizer que era do DF me ajudou. Tudo isso foi positivo. 

Eu destacaria três momentos da viagem.  Em Pelotas, RS,  eu fui recebida num lugar chamada Casa Las Vulvas e foi muito surpreendente, porque eu só vi preto. Então isso foi uma quebra radical de expectativa.

O show ia rolar em outro lugar, mas por causa da chuva acabou rolando lá. Foi um clima meio sarau, todo mundo perto, pessoal sentado no chão. Tudo no mesmo nível, na mesma altura assim. Então foi muito legal, dali saíram altos contatos. 

Outro momento muito forte foi quando eu entrei de gaiata na programação do Polo Hip Hop de Recife. Do nada, a galera “então, entra aqui”. De repente, estava ao lado Rap Plus Size, do outro, estava o Santa Liga Crew.  Nós fizemos tipo uma tríade de finalização do evento. O Pólo no Cais da Alfândega, aquela visão maravilhosa da lateral da ponte do Recife.

O outro momento foi o Festival de Inverno de Garanhus. Eu fiquei da cara com a cidade, com a programação, a transparência, o profissionalismo. Foi momento feliz, porque eu consegui levar minha equipe, o que nunca acontece.

Então, foi um dia que eu me senti meio madura. Foi o momento em que eu fui tratado igual deve se tratado um artista. 

Você tem um menino de uns 10 anos e uma bebezinha. Quais são os desafios de conciliar maternidade e uma carreira artística?

Os principais desafios têm a ver com as relações. O universo da arte está muito pautado nas relações. Um dia, você vai ver o espetáculo de alguém. Você encontra outras pessoas. Daqui a pouco, você conhece um produtor e estão fazendo alguma coisa juntos. 

E a maternidade chama muito a mulher para um lugar de resguardo, né?  Dependendo da onde você vai, é muito pesado, né, a criança mesmo não consegue ficar naquele ambiente de maneira saudável. 

Eu sempre fui visualizando a gravidez e a maternidade estrategicamente, como apoiadoras do movimento que eu tinha que fazer na minha carreira. E nesses momentos, foram momentos de olhar para dentro. 

A Leona me botou para repensar toda forma que eu produzo. Inclusive, uma coisa que está muito comum no rap hoje é: o beat vem pronto, você faz a sua parte. É como se fosse um território. Eu percebo que o rap, muitas vezes, é um território muito solitário. É um lugar, assim, muito solitário e você se relaciona a partir da sua solitude, com milhões de pressões. 

Então, me despertou para um lugar e está sendo desafiador e muito rico. 

Por outro lado, meu filho já tem uma idade muito interessante. Ele já tem 10 anos, deu uma amadurecida muito linda, sem forçar a barra, porque ele é uma criança, né. E ele foi para um lugar de auxilio. Então, ele me ajuda, faz o café da manhã pra mim, cuida do uniforme dele e tal. Então, essa é a maior ajuda que ele pode me dar, porque, sem isso, eu teria que trabalhar dobrado. 

Sempre encaro minhas gravidezes como melhoria da minha qualidade de vida. A gente se questiona sobre nosso sono, sobre nosso alimento, sobre as influências que a gente recebe, os assuntos que a gente troca.

Fico mais assertiva. Porque é isso: você só tem uma flecha e uma hora para fazer acontecer, você não tem outra. 

Então,  está sendo muito rico. 

Dessa nova geração, quais são os artistas que você acha que tem mais potencial para despontar e que o público deveria prestar mais atenção?

No rap feminino, a Rebeca Realleza. Ela está fazendo um espetáculo, além de ser extremamente competente. A Realleza tá em outro nível de produção de show, tem dançarina, tem figurino. Então, ela está trabalhando em outro lugar e vai lançar um disco. 

O Murica. Ele já tem o espaço, já tem esse diálogo nacional. O Murica é um cara que está chegando com tudo. Eu vejo gente no país inteiro ouvindo ele. 

São esses dois nomes, eu tenho certeza.  Na verdade, já são fenômenos.

E nessa trajetória de quase 35 anos de rap do DF, quem você apontaria como os personagens mais importantes?

A Vera Verônica, né. O GOG,  o DJ Celsão. Eu acho que são três nomes  que representam muita coisa para o Distrito Federal.

É claro que teria milhões de pessoas para falar, mas acho que é isso: resistência, militância, construção de processo, qualidade no que fazem , som, representatividade, não abandonar,  ficar no fronte né.  Realmente dedicar sua vida para o rap. 

Álbuns ou faixas do rap do DF. Músicas ou discos especiais para você, não precisa ranquear.

Realleza - Afrontosa

Murica - Fome

Amaro, Taliz, Aborigene e Realleza - Revolução dos bichos

GOG - Brasil com P

Afroragga - 80 tiros

Referências

[Boi de Seu Teodoro- trazido pelo mestre da cultura popular Teodoro Freire nos tempos da fundação de Brasília, foi declarado Patrimônio Cultural de Natureza Imaterial, por meio de seu registro no Livro de Celebrações do Distrito Federal, em 2004. O ato é reconhecido nacional e internacionalmente, inclusive, pela Unesco. O Boi de Seu Teodoro tem sede no Centro de Tradições Populares de Sobradinho]

[Makossa- Produzida por Chico Aquino e Leonardo Cinelli, o Makossa Baile Black acontece há mais de 20 anos no centro de Brasília e já recebeu grande nomes do rap local e nacional. DJ Jamaika, DJ Chokolaty e DJ LM são os residentes mais antigos do baile