TATI BELLADONA
Fui até Brazlândia conversar com uma das rappers mais importantes do Distrito Federal. Sem trair as raízes do rap gangsta do DF, mas extremamente antenada às novas tendências do gênero, Belladona falou detalhadamente sobre o início de sua carreira, impactos das grandes tretas da cena local, respeito entre gerações e os desafios do machismo e da maternidade para a carreira de rapper.
Entrevista por Thiago Flores em 16 de fevereiro de 2022
Você nasceu aqui em Brazlândia? Foi criada aqui? De onde vem sua família? Fala um pouco sobre sua trajetória pessoal nesse sentido.
Nasci aqui em Brazlândia mesmo. Meus pais vieram do Maranhão. Sou descendente indígena. A gente pertence à etnia dos Guajajaras. Tenho parentes que moram em aldeias ainda. Já estive lá algumas vezes.
Mas pertenço a essa cidade, gosto muito daqui.
Quando e como o rap entrou na sua vida? Você se lembra quando começou a escrever suas primeiras letras?A importância da música do Caetano na minha vida foi a seguinte: está tudo bem em ser sensível, tudo bem falar de poesia, tudo bem falar das cores.
Desde pequena, a gente já ouvia bastante rap na rua. Tinha muito Lazer de quadra e só tocava rap. Na minha rua, tinha muito bboy, inclusive o DJ Marola. Ele era um cara que movimentava muito a cena por aqui naquela época. Eu achava muito massa, muito bonito ver a galera dançar, mas eu mesmo gostava da música.
Eu escrevo desde sempre. Sempre escrevi. Desde criança, participava de concurso de redação na escola. Eu vim com o dom de escrever. Na adolescência, eu escrevia peças de teatro na escola e escrevia muita poesia. E já cantava na Igreja.
De repente, quando eu ouvi o rap, eu identifiquei que dava para cantar aquelas poesias que eu fazia. Era a mesma coisa que os caras do rap faziam. Mas eu nunca tinha observado isso. Quando eu percebi, eu uni o útil ao agradável.
E quando começou a rimar em cima das batidas?
Eu já escrevia, já cantava na Igreja e já fazia parte da cultura hip-hop aqui na cidade, já ia pra show de rap, pras rodas de rap. Em Brazlândia, todos os grupos de rap sabiam que eu cantava.
Então, os grupos começaram a me convidar para fazer refrão. Naquela época, mulher só fazia backing vocal. As meninas não faziam levada, não tinha isso. Comecei no rap fazendo refrão para esses grupos.
Fui fazendo pra um, fazendo pra outro, comecei a cantar nos shows e logo foram surgindo convites para participar desses grupos. Mas eu não queria. Mesmo adolescente, eu sabia que aquilo ali não era o que eu queria.
Nessa época, surgiu um projeto de juntar as backing vocals de Brasília e formar um grupo. Me convidaram e eu lembro que eu logo perguntei: “ Eu vou poder escrever?”. Eu queria escrever e cantar minhas próprias músicas. E a resposta foi: ‘Vai, tudo bem.”
Entrei para o grupo, gravamos, saiu em coletânea com composições minhas e eu fiquei feliz pra caramba. Eu era adolescente, chegando ainda, mas conseguia desenvolver muito bem a escrita.
Esse foi meu início. Daí, não parei mais.
Você comentou que seus pais eram da Igreja. Como foi a aceitação da sua família nessa época?
Lógico que não. Eu tenho 5 irmãos, sou a única mulher. Meus irmãos não mexem com música, nem com rap. A única filha, do nada, resolve lidar com rap? Minha família enlouqueceu.
Principalmente, porque, naquela época, o rap era totalmente marginalizado. A gente ouvia rap em casa e a polícia invadia sua casa. Ouvia rap na rua e apanhava. Já tivemos rádio quebrado na quadra, por estarmos ouvindo rap. Se ouvia rap, era marginal.
A preocupação da minha família era com a segurança. Se ela vai cantar rap, como vai ser no baile? Vai ter tiro? Porrada? No começo, a gente ia pros shows escondido. Até eu fazer meus pais entender que não era o que eles estavam pensando, foi um processo.
Quando eu já estava cantando, eu comecei a trazer a galera do rap pra casa pros meus pais irem conhecendo e verem que não era o que eles estavam imaginando. Verem que os artistas eram pais de família, estudantes, pessoas normais iguais a mim. Isso quebrou aquele estereótipo. Até hoje, minha mãe é amiga de todos os rappers de Brasília.
Eu comecei a pegar as letras do GOG e escrever para minha mãe ler o texto. Minha mãe é professora. E ela falava: “ Caramba, é muito coerente, muito inteligente.”
Na época, existia um contexto de violência. O rap era consciente, sim, mas, convenhamos: existiam letras com teor muito pesado para crianças e adolescentes. Nem todo mundo conseguia diferenciar isso.
O rap do DF ganhou muita projeção nacionalmente na década de 90. Você enxerga uma identidade no som daquele período? Características comuns no conjunto de obras que deram uma cara pro que foi produzido aqui?
Brasília realmente tem uma identidade única. Isso é inquestionável. Tanto que vários grupos vem produzir aqui para tentar conseguir essas características que Brasília tem. Mas não tem como reproduzir isso. O que é feito aqui é feito porque é vivenciado aqui.
A identidade do rap do DF teve sua base desenvolvida por todos esses caras[dos anos 90]. Um trabalho fundamental. Mas, de lá pra cá, muita coisa mudou. Hoje, a gente tem uma margem[para diversidade] muito grande. Tudo evoluiu dessa mesma essência das antigas. Naquela época, era um rap mais pesado, mais quebrada, mais agressivo, mais politizado.
Era um rap gangsta. Hoje, não temos rap gangsta. O trap, principalmente do Rio de Janeiro, está trazendo isso de novo: muita quebrada, muito rua. Era isso que Brasília fazia, o que Brasília fez a vida inteira. O que está sendo abordado hoje, Brasília fazia há 15 anos e nem faz mais hoje.
A caminhada do rap do DF foi marcada por longas e diferentes tretas entre os principais artistas dessa geração 90. A curto e longo prazo, que impactos esses desentendimentos geraram para nossa cena?
Posso falar dos impactos que essas tretas tiveram a médio prazo. Na minha época, eu me recordo que eu tive que escolher um lado. Eu não vou falar que lado foi, mas eu me lembro que era uma guerra tão grande entre esses artistas que todas as pessoas envolvidas com rap tinham que escolher um lado. Ou você fica do lado do artista A ou do lado do artista B.
Me lembro que eu me desentendi por muitos anos com alguns amigos, porque uns defendiam um lado e outros, o outro lado. Eu estou falando por mim. Imagina os fãs. Imagina cidades, quebradas. Você pode imaginar o que houve.
Por um prazo duradouro, isso aconteceu, mas era uma época que o rap deveria se juntar.
O rap mudou bastante nos últimos 20 anos. Como você analisa o convívio entre as diferentes gerações de artistas de rap do DF? Acha que existem conexões significativas? Ou existe afastamento?
O que eu vejo acontecer bastante é a velha guarda brigando, reclamando e querendo uma série de direitos. Beleza, vocês tem direitos, vocês ajudaram a construir a história, ok. Mas você também pode respeitar. Eu vejo muitos caras querendo respeito de qualquer maneira, mas não respeitando.
Você quer respeito de um moleque que acabou de chegar e nem conhece a sua história? Ele nasceu um dia desses. É lógico que a nova geração precisa respeitar e procurar saber da história das coisas, saber como tudo foi originado. Mas os velhos precisam respeitar os novos. Um moleque desses, que nasceu agora na quebrada, está correndo tanto quanto esses caras correram. Por que ele não merece respeito?
Os caras mais velhos, muitas vezes, não respeitam posicionamentos, novas idéias, nada. O respeito tem que ser pra todos, independente da idade.
O rap foi totalmente marginalizado, de uma forma desonesta e brutal. Eu me lembro disso. Então, eu sou totalmente a favor da união do rap com o funk, com o forró, com o sertanejo, com o que o rap quiser fazer.
Quando eu vejo o rap hoje tocando na novela, nos filmes, tocando em todas casas, nos carros, em casamentos, em festas, é claro que eu vou ficar feliz.
Quando eu vejo essa pauta da diferença de gerações na Internet, eu vejo que os mais velhos não vem para dialogar. Vem para xingar, para acabar, derrubar. Vai falar que ele se vendeu, que ele não presta, que isso e aquilo. Qual a necessidade disso?
Se você não gosta, ok. É um rap diferente, ok, e vai ter um outro público que vai gostar daquele rap.. Eu sou a favor de todas as vertentes de rap. Olha o que o trap vem trazendo. Tá fazendo os muleque ficar rico. Onde você viu isso no rap?
Eu não vou falar todos, mas a maioria da velha guarda oprime a nova geração. E isso não é de agora. Vamos botar um tempo atrás, quando o próprio Tribo mudou de estilo. O Tribo cantava só quebrada, pesadão, aquilo que Brasília ensinou. Quando o Tribo saiu dessa margem e começa a abordar outros tipos de tema, como festas, o moleque que dá valor na família, dá valor na mina, diversão. O que aconteceu?
Foi um escândalo. O Tribo foi hostilizado, como é até hoje. E quem hostiliza? É a galera do rap, um público antigo que se acha no direito.
Nunca houve um momento em que a velha guarda chegou, abraçou, trocou uma ideia. Não estou falando da relação da década de 90 com o trap de agora, não. Estou falando das gerações intermediárias, dos anos 2000. Lá atrás, já existia essa separação.
O Brasil é um país muito machista. E o rap reproduz essas mentalidades e práticas. Como tem sido a vivência em relação a isso nesses quase 20 anos de carreira? Sente que as coisas tem evoluído?
Quando eu comecei, as mulheres tinham que se vestir igual aos homens, se não ninguém ia parar para ouvir o que a gente tinha para cantar ou para dizer.
Em relação aos estúdios, as experiências eram terríveis. Hoje, eu consigo ter noção de que era assédio, mas, durante longos anos, eu nunca tive essa noção. Hoje eu tenho a percepção certa de que, na grande maioria dos estúdios que a gente ia, a gente era assediada. Não tinha uma vez que alguém não tentava algo com uma mulher que estava ali somente para gravar.
Nos shows, era pior ainda. Você era subjugada, por uma série de fatores, e, às vezes nem cantava. O machismo era muito predominante no rap. Os caras podem dizer que não, mas é só pegar as letras.
De lá para cá, mudou bastante, porque a consciência do cidadão foi mudando. Uma evolução. Assim como a do rap, que era coisa de marginal e passou a ser aceito. A consciência dos caras foi mudando em relação a vários fatores. Hoje, os caras entendem que eles não podem cantar uma série de coisas porque aqui ali é errado. E os comportamentos também foram mudando.
Mas o machismo ainda existe e muito. É difícil pra caramba. Eu fico com dó dessas meninas que tão começando agora. Se pra gente, que tem uma caminhada, tem um êxito, um nome e o respeito da galera, ainda é tão difícil ser aceita pra tudo, imagina para elas?
Você tem uma filha quase adulta já. Como a maternidade influenciou nessa caminhada toda?
Chega a ser desleal. Um MC homem só vai lá e canta. A mulher, não. Ela precisa ser mãe, esposa, filha, tia. Ela trabalha fora e faz música. Tudo ao mesmo tempo.
Por isso, eu nunca vou julgar as mulheres que pararam, que desistiram. Eu sei a luta que é. Eu já pensei em parar. É difícil demais. É um cruz muito grande para você carregar. É maior do que uma pessoa consegue suportar.
A maioria das mulheres que eu conheço dentro da música não tem um relacionamento. Por quê? Não tem como você ter uma vida, um casamento, um apoio e uma carreira na música. Aí entra o machismo.
Os homens não conseguem ver e aceitar isso. A maioria das meninas para de cantar porque precisa cuidar da família, porque o marido impôs. Já o cara vai cantar, vai ter o apoio da mulher. Viaja, volta e está tudo ok. Na primeira coisa que ela faz, o casamento acaba.
Segundo ponto: a mulher que tá na estrada, na rua, trabalhando à noite, viajando, ela é tida pelos piores nomes que você pode imaginar. A sociedade coloca você da pior maneira possível: uma mãe ruim, uma péssima esposa, uma vagabunda, não presta.
Te dou um exemplo banal, cotidiano aqui do meu círculo de amigos do rap. O homem vai pro estúdio escrever. Ele tira umas horas, senta lá e escreve. Pra mulher escrever, ela limpa a casa toda, vai ao mercado, cozinha e para para escrever. Ou cumpre uma jornada de trabalho inteira e, só no fim do dia, esgotada, vai escrever. Ela nem tem força para isso.
Qual o tempo que a mulher tem para se dedicar à música? Para focar na música, a mulher tem que deixar várias coisas de lado. O que é impossível. Graças a Deus, eu tive o apoio da minha família: da minha mãe, dos meus irmãos, da minha filha.
Teve momentos da minha vida que eu me senti muito culpada como mãe. Imagina sua filha ter uma apresentação de Dia das Mães na escola e você não estar lá.Eu não tinha muito tempo pra ela. Sempre estava fora viajando. Eu perdi boa parte de coisas importantes na vida dela. Coisas que era para eu estar lá.
Teve vez que eu sentei com a minha filha e falei: “E aí? Se achar que não está legal, eu paro bem aqui.” E ela ainda criança respondeu “ Não, mãe. Você veio lutando até aqui. Vai continuar”. Ela era criança ainda, mas tinha noção que aquilo ali era muito importante para mim.
Se não fosse o apoio da minha família, eu não teria conseguido.
Se você pudesse citar momentos impactantes da sua carreira, bons ou ruins, quais você mencionaria?
Quando eu gravei com o Cirurgia Moral, foi uma parada que me deixou muito feliz. Quando eu conheci o Jamaika é uma situação que eu guardo com muito carinho.
Ter conhecido o próprio GOG também. Na gravação do DVD do Atitude Feminina, eu levei a minha filha e ele levou a filha dele, grande já. E ele chegou pra mim e falou “ Minha filha é sua fã.” Eu fiquei feliz, né? Cresci ouvindo o cara.
Trabalhar com o Tribo da Periferia é muito marcante. O Duckjay é um cara que abraçou a minha causa, né? Na minha vida, ele é um divisor de águas. Eu vim de uma cidade onde, na música, eu não tive apoio nenhum. E um cara, que é de outra cidade, de outra banca, foi quem me apoiou. Eu nem era estourada e ele falou: “ Vem aqui, vamos trabalhar.” Foi quando minha vida deu uma boa mudada. Não só o Duckjay, mas Diey do 3umSó. Foram caras que sempre acreditaram no meu trabalho.
Outro momento: ter conhecido a Dina Di. Nós saímos em uma coletânea só com mulheres e ia ter um show de promoção deste álbum. Quando eu a conheci, eu tinha acabado de lançar um som chamado Ladrão Também Chora. Ela falou que tinha ouvido o som, achado muito bom e que tinha mexido muito com ela. Foi um dos melhores momentos da minha vida.
Quais artistas do DF você acha que tem mais chance de despontar local e até nacionalmente?
A Griff. Filho e sobrinho do Duck. Os moleques são muito bons, fazendo um trap com a essência de Brasília. O Offmelt, um cara absurdo. Jhoi Breezy.
O Gohan, de São Sebastião.
Esses moleques são novos e tão vindo para revolucionar.
Quem você apontaria como personagens mais relevantes desses quase 40 anos de rap aqui no DF?
Pra mim, Cirurgia Moral, Álibi,, Câmbio Negro, GOG. Tribo, com certeza. O Hungria tem uma importância grande para música de Brasília, isso é inegável. O próprio 3umSó também.
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Cirurgia Moral - A Minha Parte Eu Faço
Álibi - Pague para Entrar e Reze para Sair
Tribo da Periferia - 1º Último
Dj Jamaika - Utopia
3umSó - Talibã