RIVAS

Rivas é a cara do hip-hop. É B-boy, grafiteiro e rapper e participa do desenvolvimento da cultura no DF desde os primeiros passos, ainda na década de 80. Versátil, apresenta com Rei, um dos mais importantes podcasts de música de Brasília, o Rap Total Podcast.

Nessa conversa,  Rivas aborda episódios da gênese do movimento em Brasília,  fala sobre a importância do Álibi na sonoridade da capital;  analisa os impactos das tretas na trajetória do rap daqui e elabora previsões de futuro para o rap, o break e o graffiti locais.

Entrevista por Thiago Flores, no JK Shopping, em Taguatinga, em 13 de dezembro de 2019


Você é um dos pioneiros do hip-hop no DF, em todas as manifestações da cultura. Como e quando começou o seu envolvimento?

No início da década de 1980. Eu já frequentava os famosos bailes, né. Então, um local que a gente frequentava muito era na L Norte, no Paradão. Lá rolava muito som, muito funk, muito soul. 

Aí começou a chegar essa coisa do hip-hop, algumas músicas mais eletrônicas, Grandmaster Flash, Kurtis Blow, essa galera já entrando. Essa música já era totalmente diferenciada. Não tinha nada a ver com o que a gente ouvia antes. Tinha aquela originalidade total, chegou o Afrika Bambaataa, que foi o Planet Rock, misturado com o Kraftwerk. 

Para a gente ter o contato, para gente receber isso, era muito difícil. Geralmente chegava na mão dos DJ’s primeiro, o cara que corria atrás de música, de lançamento, aquela coisa toda.

Em 1984, nós fundamos nosso primeiro grupo de break, a Reforços Break’s. Quatro camaradas: o Flash, Turbo, BK e eu, Kabala, na época. 

Eu já fazia os grafites, já desenhava influenciado por um filme, que se chama Breakdance[Breakin ou Ritmo da Rua, de Joel Silberg, 1984]. O filme é tipo uma aula, um release de tudo né e deu aquele choque em geral né. Pensamos: “isso tem tudo a ver com que a gente faz.

 Sempre, no início, a base foi o break, não tinha começado o rap. Apesar da gente ouvir, era mais a dança mesmo, era o break.

Onde você morava nesse tempo? Como era a quebrada nessa época?

Era cabuloso. Morei em Taguatinga até 1982, depois eu mudei para a Ceilândia, para o P Norte, poucos anos depois que criaram o P Norte. 

Quando a gente andava de Taguatinga para a Ceilândia , o que a gente via era muita poeira. Taguatinga já estava asfaltada, mas Ceilândia não.

Tinha aqueles mitos da malandragem na Ceilândia. Todo maloqueiro tinha um nome e era um cara muito conhecido na área. Tinha um ou outro, diferente de hoje, que são inúmeros, que tomou conta. 

Já em 1985-1986, a gente se mudou. Saiu do P Norte e foi para a M Norte. A M Norte não era Ceilândia nem Taguatinga, era aquela briga. Os caras: “ah é Ceilândia” ou “ah, é Taguatinga” e aí ficava perdido no meio do nada. Hoje não, a galera sabe que M Norte é Taguatinga, né.

Qual a importância do break para a disseminação da cultura como um todo e do rap como gênero musical?

O b-boy é a expressão do hip-hop: tem a dança, as camisetas e os jacos grafitados, ele cultua aquilo alí. Ele precisa de um DJ. O b-boy dança ouvindo rap, cantando aquele som dançante. Então, dentro dessa cultura, eu vejo mais representatividade no b-boy. Se você  pegar os caras do rap antigão [do DF], todos ou quase sua maioria dançaram break. Não somente em Brasília. Se você pegar uns caras de São Paulo, da gringa, sabe.  Nos Estados Unidos, eles dançavam break, depois veio o lance do rap.

E a rima, chegou quando?

Em 1984, 1985, a gente começou a se envolver com o início do rap. Já começou a querer cantar, a falar algumas coisas, a escrever algumas coisas. Em 1985, a gente forma nosso primeiro grupo: o BSB Boys.  Era o Jamaika, meu irmão; o Kalaco e eu, Kabala. 

BSB Boys tinha a ver com BSB, Brasília né. Boys veio de B-Boys, tinha a ver com break. Então, em 1985, a gente já estava fazendo rima já.

Num momento um pouco posterior, na década de 90, o rap do DF ganharia muita projeção nacionalmente. Como foi essa fase? Vocês sentiam que estavam colocando o nome do DF no mapa e que estavam representando a quebrada?

No II Concurso de Rap do DF, o Jamaika se juntou com o X e formaram o Câmbio Negro. Eles ganharam e o BSB Boys ficou em segundo.  É sempre interessante falar o esquema do negão, do Jamaika: a maioria dos nomes dos grupos, das paradas, ele que deu. Câmbio Negro foi o Jamaika, DF Zulu Breakers foi o Jamaika,  Álibi, foi o Jamaika que deu o nome. Então, o Jamaika tem essa pegada do nome.  

O Câmbio Negro começou uma parada: falar da quebrada de uma maneira assim: “eu sou daqui e não estou nem aí pra quem não gosta de mim vei, tá ligado?!” A gente levantou a moral da quebrada. 

Numa premiação de rap no Rio de Janeiro, quando falava de Brasília, a galera não conhecia. O único lugar que essas pessoas conheciam era a Ceilândia, porque ela estava registrada dentro do rap, dentro das músicas. 

A década 1990 foi essa coisa: a gente falou das quebradas, a gente realmente valorizou onde a gente morava. Isso deu moral para quem era de lá. Isso fez que quem era da quebrada falasse assim:  “Pô, irmão, eu também sou daqui.” A denúncia rolava também. “Ceilândia é isso, na Ceilândia é aquilo” e isso deu mais coragem para a galera de outras quebradas também falar da área deles.

O Álibi, grupo do qual você fez parte, foi um divisor de águas para o rap do DF? Na sua opinião, por que o trabalho do Álibi foi tão marcante?

Quando a gente aparece com o Álibi, a gente mudou todo o processo. A gente colocou coisas que a gente curtia: por exemplo, o breakdance, que a gente ouviu; músicas que eram em 120-130 bpms, a gente colocou em 80-90; a gente colocou o grave, irmão. 

Quando a gente coloca o grave no centro do rap, isso ainda não era uma característica aqui do DF, nem de São Paulo. Não era característica do Brasil colocar aquele grave e a gente colocou um grave, realmente, muito pesado. Tanto é que na década de 1990, os baús escolares, tudo que era som de carro, rolava Álibi. 

Além do Jamaika, claro, o Raffa teve uma importância gigantesca, o estúdio Zen teve outra importância, porque foi um processo. O Raffa entendeu aquilo ali, começou a colocar aquele grave redondo. Fomos gravar no Zen, onde deu uma qualidade monstruosa. Então, você coloca aquele CD, cara, o grave vai truvar pesado, tá ligado. 

E isso foi uma marca registrada, foi um legado que a gente deixou. Hoje, a gente ouve Brasília com um gravezão. A gente sabe que isso tudo rola, porque a gente começou com aquilo ali.

Você consegue citar alguns momentos marcantes da sua trajetória com o Álibi?

Um lance legal do Álibi foi, por exemplo, um show que a gente fez em Goiânia. Acho bem relevante, porque foi um show só com Racionais e Álibi. Naquela época, o nível dos grupos era muito nivelado.

Rolava outra parada muito boa. Eu lembro que as fitas cassetes, as piratas e tal, no lado A era Racionais, no lado B, era Álibi. Roram fitas que venderam para caramba, tá ligado. 

Então assim, a gente tem muitas histórias dentro desse processo, mas eu curto muito esses momentos. Foi bem legal, porque rolou uma interação muito boa com a rapaziada.

Os anos 90 no DF foram marcados por sucessivas tretas entre grupos, artistas, gravadoras. Como você avalia esse processo e o impacto disso tudo para o rap do DF?

Falo que essas tretas foram por falta de maturidade, saca? Falta de experiência. Era todo mundo muito molecão. Independente da idade, mas não tinha experiência, maturidade para aquilo ali.

 Essa falta de entendimento gerou esse conflito todo, tá ligado? Essa divisão, esse racha, fez com que a cultura, querendo ou não, quebrasse. Então, várias parcerias podiam ter sido feitas. Essas parcerias não aconteceram. A gente entende mais do que nunca que essas parcerias fortalecem carreiras. 

Hoje, graças a Deus, a gente troca ideia. Todo mundo entende o que rolou. Aquilo foi uma guerra cabulosa. Teve perdas para todos os lados, entende? Não foi uma coisa legal. Música vai durar para sempre. Toda vez que um cara der play, aquela parada vai rolar. Então, a gente, querendo ou não, vai ter arcar com isso para o resto da vida.

Depois da sua conversão à igreja evangélica, que tipo de reflexão isso despertou em você?

O clássico do Cirurgia Moral, A Minha Parte Eu Faço, que eu cantei também, é a mais cabulosa, mais cabulosa que algumas do Álibi. O refrão é aquele, né [Vai vai, mata esse cara, tem que ser agora, pega logo…]. 

A gente teve várias experiências negativas com essa música. De estar cantando e, no meio dela, a parada rolar, o pipoco rolar, gente morrendo. A galera realmente esperava. Quem tinha guerra, quem tinha treta, falava: “É agora!”. Se você está muito doido, você tem guerra contra alguém, e você ouve aquela parada, fica na tua mente. Não tem como, é meio que automático [insconsciente] você tomar uma atitude em relação a aquilo ali. 

Então, são músicas que a gente para realmente para pensar. Existe a parte artística da parada, a gente não joga fora, mas existe a tua palavra. O peso da sua palavra.

Depois da conversão, você começa a ver as coisas de maneira diferenciada. Você começa a refletir:  “pô, o que eu vou falar agora, tá ligado?” De que maneira eu quero atingir? De que maneira eu quero falar dentro da periferia, dentro da minha quebrada?

As histórias vão se repetindo dentro da periferia. Mas, hoje, eu trampo com meu filho Ravel e a gente tem a oportunidade de falar uma parada positiva, diferenciada, com esses moleques. Na linguagem que eles curtem, que já não é mais aquela parada do Álibi.

Como você tem vivenciado tantas mudanças na cultura hip-hop, entre a época que você começou nos anos 80 e na contemporaneidade?

Eu sou um cara que, além de me adaptar, eu vivo dentro do hip-hop entendendo o contexto. Existe um eterno F5. As coisas se atualizam, a arte se atualiza.

Eu tenho contato com os caras do graffiti, contato com vários DJs, com a rapaziada do rap e tenho contato com os breakers. Dentro de cada segmento, eu ouço a mesma coisa: os caras antigos, que não se atualizaram, eles vão falar: isso não é break, só no meu tempo que era break; isso não é rap, graffiti de verdade é o antigo.  Se o cara não acompanha a evolução, ele não entende. Ele vai olhar e vai estranhar pra caramba. 

Existe uma evolução.

Quais são os seus trampos atualmente?

Eu trabalho sempre dentro do hip-hop. A gente tem o encontro de b-boys e b-girls que já rola há 30 anos em Brasília. A gente produz esse encontro com uma galera, com uma coordenação. O encontro acontece todo o primeiro sábado do mês. Hoje, ele está rolando na Biblioteca Nacional. 

Eu trabalho com graffiti também, não paro. Estou sempre muito envolvido. Na parte do rap, eu faço esse trabalho com o meu moleque: o Rivas e Ravel. Não tem como falar que é um trabalho gospel, tá ligado, mas é um trabalho muito na positividade. Cristão. Todas as ideias que a gente vai dar, realmente vão ser positivas, tá ligado.


Na sua opinião, nas três linguagens- rap, break e graffiti- quem são os artistas que mais te chama atenção atualmente?

Brasília sempre teve vários artistas de break, que representaram nacional e internacionalmente. A gente está passando por uma fase complicada hoje. Várias crews pararam de trabalhar ou estão mais devagar. Quando a crew é forte, o camarada cresce mais individualmente

Uma crew que se destaca nesse cenário é a Start Family [SF]. O líder da SF é o Chad. Dentro da SF, ele continua trabalhando com uma categoria de base, treinando os pivetes também.

No graffiti, eu sempre fui fã de um cara, eu sempre curti muito o Snupi. O Elon é um cara que está na rua, está no trabalho social. Se destaca. Outro cara que eu curto muito o trampo e é um camarada humildão, é o Soneka. Soneka tem um trampo muito diferenciado.

No rap, um cara que eu aprendi a gostar muito é o Heitor. Heitor Valente tem uma ideias massas, um som limpo, tá ligado? Muito legal. 

Falando de produção musical, tem o Duckjay. Um cara que produz muito bem,  se destaca muito dentro do processo. Mudou de estilo. Eu entendo aquela mudança dele: daquela coisa mais perifa para uma pegada, hoje, vamos colocar, mais popular. Respeito muito o Duckjay, sempre curti muito dele, muito mesmo. 

Não tem como, vou puxar uma sardinha cabulosa para o Ravel. O moleque está produzindo muito bem. Está com a mente muito aberta, tá ligado? A música que ele está produzindo está pegando uma identidade muito massa. Eu valorizo muito isso. 

Nessa trajetória de quase 40 anos, quem você apontaria como os nomes mais relevantes do rap do DF?

Função, hein?

Vou citar os caras que se mantém trabalhando. O GOG. Meu irmão, o DJ Jamaika, sempre teve uma representatividade muito fort., curto muito também. 

O Daher do Guindarte 12, é um cara que não para véi. Tem essa coisa da perseverança. Eu curto isso, eu sou um cara da perseverança também. Eu curto o lance de quem persevera dentro do esquema. O Guindarte 121 é um grupo que assim curto muito.

TOP 5 do Rivas- Faixas ou álbuns do rap do DF especiais para você

Álibi- Abutre

Álibi – Pague para Entrar Reze para Sair

Cabala-  Valorizando a Nossa Arte [Ravel comenta: É importante ressaltar essa obra. Ela, realmente, foi extremamente diferente. Naquela época, ninguém fez um CD de break e até hoje não fizeram um CD de break aqui em Brasília]

Câmbio Negro- Sub-Raça

Vamos trazer algo atual:

Puro Suco- Rataria Popular Brasileira.