REI (CIRURGIA MORAL)
Depois desta entrevista, Rei acabou se tornando um importante parceiro para a pesquisa. Em diversos momentos, recorri ao líder do Cirurgia Moral para tirar dúvidas, entender melhor determinados assuntos e me aprofundar em um ou outra questão mais delicada. Por conta disso, estabelecemos outras relações de trabalho relacionadas aos projetos pessoais do artista, como o Rap Total Podcast.
Nessa conversa,realizada no estúdio no fundo de sua casa, falamos sobre racismo; auto-estima; histórias sobre Discovery, Câmbio Negro e outros momentos importantes do rap do DF; a trajetória do Cirurgia e sobre respeito entre as gerações.
Entrevista por Thiago Flores em 2 de março de 2020
Quando você descobriu o rap? Quando escreveu sua primeira rima?
Acho importante até falar de um pouco antes do rap ser isso que a gente conhece hoje. Ali no começo dos anos 80, o que chegava pra gente aqui era pouquíssima coisa. Afrika Bambaataa, Kurtis Blow, esses caras tocavam nas rádios convencionais. Eles já faziam o rap, só a gente não sabia que o nome era rap. A gente chamava de funk.
Então, o meu primeiro contato foi ouvindo essas rádios: a extinta rádio Manchete, a 105 FM, que tinha o programa do nosso amigo DJ Celsão, com o MIX Mania. Mas, só depois de um tempo, a gente foi saber que aquilo era rap.
O primeiro rap que eu escrevi, cara, eu tinha 12 anos, na escola. Eu fui um aluno problemático. Reprovei duas vezes a quinta série, duas a sexta e uma, a sétima. Eu era um dos mais velhos da minha turma, chegaram uns moleques mais novos que também gostavam deste estilo de música. Aí um fez[uma rima] de brincadeira, outro fez. Aí eu fiz e a gente foi crescendo nisso tudo.
Eu tive muitos problemas na minha adolescência por causa de ser preto, de ser negro. Eu morava numa rua que só tinha branco. Eu era o único neguinho. Da sala de aula, então: todo mundo periferia, mas só um ou outro negro. Então, era muita humilhação.
O cara que a gente tinha como referência e gostava muito era o Mussum. O cara que mais era zuado nos Trapalhões. Até a gente ter consciência que aquilo ali era tudo errado, a gente achava normal os caras colocarem apelido na gente, porque a gente via os Trapalhões colocarem apelido no Mussum.
Mas mesmo assim, isso me incomodava muito. Chegou uma época da minha adolescência que eu me perguntava: “Como eu vou fazer? Cabelo crespo, pele escura…” Tinha um época que eu não entendia como as coisas funcionavam, nesse sentido social.
Aí, meu pai trabalhava como taxista num ponto na 503 ou 504 sul e era muito amigo de um pessoal que tinha uma banca de revistas. Aos sábados, ele me levava pra lá. Numa dessas, eu vi uma revista que tinha uns caras negão, véi! E eles eram rappers. O nome da revista era Spice. Pô, altos caras da minha cor, com corrente de ouro, bem vestidos, capa de revista. O único preto em capa de revista que a gente via era o Pelé. Aí eu falei: eu vou ser um cara desse aqui.
E quando decidiu levar o rap a sério?
Um pouco mais pra frente, a gente começou a ouvir um rap em português, porque, antes, a gente só ouvia na língua inglesa. [A gente] começou a ouvir nas rádios também os Irmãos Brothers, National Rap, e alguns outros. Pouquíssimos mesmo.
O que me despertou [a vontade de fazer rap] mesmo foi ouvir uma música do DJ Jamaika. Na verdade quando a gente ouvia na rádio as músicas em português, eram os caras de Brasília [Plano Piloto], mas os caras estavam longe, não era ali. Mas o Jamaika não, a gente morava na mesma quebrada, pô. Então era diferente. O cara da minha quebrada está fazendo isso. Eu morava na M norte, na 38 e ele na 36. Eu pensava: “Pô, os caras estão fazendo isso aqui, na M”. De lá pra cá, a gente fez uma amizade e a história que vocês conhecem atualmente.
E como foi a história até o Cirurgia Moral?
Antes do Cirurgia, teve uma caminhada.
Eu criei o Cultura MC’s. A gente participou do primeiro concurso de rap, em 1990, eu tinha 13 pra 14 anos. Eram 30 grupos, eu consegui ficar em 31º de tão ruim. Fiquei em último lugar. (risos)
Depois disso, eu colei com o DJ W, um cara da nossa área lá, já conhecido, mandava muito bem nos scratchs. Chamei ele pra formar um grupo e entrar no outro concurso de rap, que ia ter no ano seguinte.
O primeiro concurso quem ganhou foi o X. No segundo, véi, tinha tanto neguin bom, véi. Tinha DF Movimento, Câmbio Negro, já com a formação X e Jamaika. Por incrível que pareça, nós ficamos em terceiro lugar. Ganhamos a premiação e tudo.
Pô, eu fiquei em último no primeiro concurso. No segundo, eu já estava em terceiro. Isso foi me motivando. Eu e DJ W começamos a querer fazer a coisa mais profissionalmente. Tanto que o dinheiro da premiação que nós ganhamos, nós compramos uma bateria eletrônica do Gilmar, do grupo Paradoxo, antigo Inimigo Público.
A gente fazia as instrumentais: pegava um trechinho de quatro segundos no vinil, ia na fita cacete, voltava o disco, soltava no tempo certo, dava o rec. Quando acabava, apertava o pause, voltava o disco e repetia aquilo ali. A gente tornava um pedacinho de 4 segundos em quatro minutos, cinco, pra fazer uma música inteira.
O processo era bem arcaico mesmo, sem nenhuma estrutura. Os únicos caras que tinham estrutura para fazer rap na época eram o DJ Chokolaty, lá no Setor O, o Raffa e o Leandronik., só. Hoje você vê estúdio em qualquer quintal. Todo lugar tem estúdio, home estúdio.
E o Cirurgia acontece quando?
Antes do Cirurgia, tenho que contar uma história importante pra contextualizar.
Mano, eu trabalhava numa loja de roupa íntima que se chama Intimo, sacou, lá no Venâncio 2000. Na frente da minha loja, abriu uma loja chamada Click Shopping, de presente. A dona da Click Shopping era esposa do dono da Discovery, do Seu Genivaldo.
Sempre que eu ia levar o lixo da minha loja, a esposa do Genivaldo pedia para eu levar o lixo da loja dela também. Aí a gente foi criando uma amizade. Um dia, ela me falou: “você tem um jeito que gosta de rap. Pois é, meu marido está gravando o disco melhor rapper de Brasília.”
Pô, pra mim, o melhor rap de Brasília era o Câmbio Negro, né velho. Aí, eu perguntei: “quem?”. Ela respondeu: “O GOG.” Eu disse: “O GOG, melhor rap de Brasília? Seu marido nunca ouviu Câmbio Negro, não?” Aí, ela: “Não, quem é?”. Finalizei a conversa: “Me dê uma oportunidade e eu mostro pra vocês.”
Um dia, um dos funcionários da Discovery tinha pedido conta, véi. A Dona Rose já veio em mim, né, vê: “Você não gostaria de trabalhar lá na loja com meu marido, não?” Véi, eu quase chorei. Eu me lembro que, no mesmo dia eu pedi conta lá da loja, nem peguei meus direitos, mano.
No outro dia, eu já estava lá na Discovery. Eu tô contando essas coisas, mas eu vou chegar no Cirurgia, ta?
Aí, trabalhando lá, o Genivaldo ficava falando que ia gravar um disco de rap e falando sempre do GOG. Aí eu falei pra ele: “Genivaldo, tu vai gravar o GOG? Eu tenho uns caras que eu acho que iam ser mais rentáveis pra você do que o GOG” Aí ele: “ah, eu duvido, o GOG é o melhor.”
O Câmbio Negro tinha gravado uma fita demo com o DJ Raffa, que já tinha Cadáver Ambulante e outras músicas que, posteriormente, iam sair no disco e virar clássicos, né. E eu tinha uma fita dessa, que o Jamaika tinha me dado.
No outro dia, eu fui e entreguei a fita pra ele. Só dava pra ouvir a fita dentro do carro. Terminamos o trabalho, no caminho de volta, naquele engarrafamento da estrutural. Eu ainda morava na M. Ele foi indo, indo. Foi ouvindo e não falou nada.
No outro dia, ele: “oh, é um lixo. Muito pessoal, “Sou negão careca da Ceilândia”, eu sou isso, eu sou aquilo. O X falando que era aquilo e pá.” Ele achou um lixo, ainda vindo de um funcionário dele. Eles gravaram o Peso Pesado, um disco que tinha o GOG e o Frank De Zeuxis, produção do Leandronik.
Depois que ele gravou esse disco do GOG, ele foi consultar o Raffa: “e esse tal de Câmbio Negro?” E o Raffa: “pode gravar. Pode gravar esse aí, véi.” Veio de quem, pô? Do DJ Raffa, filho do Maestro Claudio Santoro, maior produtor do DF. Aí ele viu o peso da parada.
Eu poderia ter mostrado meu trabalho, mas os caras eram o top de linha e aquilo foi embalando a gente e tudo. Nisso, eu apresentei o Jamaika e o X pro Genivaldo, eles gravaram, assinaram o contrato.
Depois disso, eu já tinha saído da Discovery e pedi um favor pro Jamaika. Falei: “Agora, tu vai levar minha fita pro Genivaldo”. Ele levou e o Genivaldo gostou.
Eu tinha chamado pra participar do grupo o Kalako e o DJ China, que eram do BSB Boys. Mas caras não foram assinar o contrato, fui só eu e o DJ W.
O grupo ainda se chamava Real Atitude. Um dia, eu tava com o Jamaika na Rodoviária e estava querendo arrumar um outro nome pro grupo. Eu não queria mais Real Atitude. O Jamaika é cabuloso pra nomes. Ele falou: ”vai falando o nome das letras que vocês têm.” Aí, eu disse: “o “Meu Primeiro Homicídio, não sei o que, o banho de sol, Produto das Mentes,Cirurgia Moral.”
Aí ele: “Cirurgia Moral. Aí, otário, o nome do grupo.” Eu pensei: “Puts grila, é isso mesmo, véi. vai ser esse o nome.” Essa música era de autoria do Kalako, que não entrou no grupo e a música acabou nem saindo.
O primeiro trampo do Cirurgia foi bem recebido pelo público e pela crítica. Você ganhou até um prêmio Artista Revelação de Rap, pela 105 FM SP. Como foi a gravação desse álbum?
Quando eu fui gravar o Cérebro Assassino, o único produtor disponível era o Leandronik, saca. O Leandronik trabalhava. Saía de casa às sete da manhã, quando dava sete da noite, ele tinha que estar na faculdade. Só chegava em casa mesmo, lá na 707 norte, às 23h, mano. Qual o horário que nós tinha[sic] pra produzir?
Então, o rala era muito. Era sufoco, porque a gente tinha que pegar um ônibus da M Norte pra Rodoviária, da Rodoviária pra Asa Norte, chegava lá 22h30. Ficava esperando ele meia hora. Ele chegava às 23 horas e ainda tinha que comer, porque, se não, o cara não aguentava. Meia noite, ele começava a atender a gente.
Quando dava 1h30 da manhã, ele já estava ,assim, cansadão. Ele morava no apartamento da mãe dele, vai deixar uns caras, uns negão lá da Ceilândia dormindo na casa do cara? Ele dizia: “gente, eu tenho que dormir, eu não consigo mais, vocês tem que ir embora.” 2, 2 e meia da manhã, que ônibus? A gente tinha que andar lá da 7 norte até a Rodoviária, esperar o primeiro ônibus às cinco e pouco da manhã pra voltar pra Ceilândia.
Isso aconteceu durante a gravação do disco todinho, véi.
[PESO] A trajetória do rap do DF, principalmente nos anos 90, foi marcada por inúmeras tretas e rupturas entre os principais envolvidos na cena. Qual a importância esse processos tiveram para o desenvolvimento do cenário local? Que impacto essas cenas tiveram?
Eu não vou ficar falando pra você: “a gente fez isso, por causa disso e eles fizeram aquilo por causa de tal”. Eu vou falar dos efeitos.
Mano, mesmo que, para alguns possa parecer estranho, foram as tretas que realmente colocaram o rap do DF na cena, mano, nos holofotes. Todo mundo queria saber o que era aquilo, o que estava acontecendo com os caras. Todo mundo queria saber qual era o próximo capitulo.
Então, o Brasil inteiro estava de olho. “Pô, ciclano vai lançar um disco, carai, o que será que vai vir?” “Aí, pô, os outros caras vão mandar outro disco agora.” Fazia todo mundo olhar pra cena aqui. Se alguém falar que isso atrapalhou o rap, mano...
Logicamente, ninguém gosta que essas coisas aconteçam. Um lado vai ficar chateado, o outro também. Até chegar aonde chegou, rolou muita água por baixo da ponte, mas muita mesmo.
Por pouco essas tretas aqui não acabaram em tragédia. Por muitas e muitas vezes, saca, passei coisa mesmo do capeta. Então, o que aconteceu: isso aí dividiu uma cena e isso foi um bagulho louco, Muitas vezes, eu até evitei morte de alguém. Eu sei que de lá, eles também evitaram.
Foi ruim, mas foi bom.
Quais as principais diferenças entre o rap produzido no DF nos anos 90 e o que começou a surgir a partir do final dos anos 00?
É uma diferença assim muito drástica.
Antigamente, nós cantávamos num BPM bastante alto. Era de 80 BPM a 110. Hoje em dia o BPM é maior, só que o espaço entre um bumbo e uma caixa ele é dividido pelo metade. Então, se hoje se você fizer uma música com 100 BPM, na verdade você está cantando ela com 50, por isso as músicas atuais são tão arrastadas. O trap, que é a música da atualidade, é bem arrastadão.
Outra coisa: nós não nos preocupávamos, na década de 1980 e 1990, com a melodia, da gente mesmo. De cantar no tom da base, nem nada, entendeu. Nosso rap era só interpretação. Hoje, não. O cara que tem o mínimo de afinação e sabe fazer uma melodia, ele tá colocando isso no rap.
O tipo de música da atualidade, o trap entre outros, proporciona, no mesmo beat, você fazer inúmero tipos de flow, de levada, mano. Os timbres mudaram. São outras coisas, né.
Em conversas com muitos nomes da nossa primeira geração do rap, muitos relataram incômodos em relação a falta de reconhecimento do público de rap às contribuições dadas. Muitos falam em ingratidão e falta de respeito. O que você acha disso? Acha que acontece?
Cara, é um processo natural da coisa. É um processo natural. Foi assim nos Estados Unidos, está sendo assim no Brasil. As coisas andam, caminham, entendeu. Eu já vi entrevistas de alguns rappers renomados reclamando que não recebem respeito dos caras mais novos.
Na sinceridade mesmo, eu nunca passei por isso. Muito pelo contrário, os caras me respeitam demais. Aí que tá: às vezes, o cara que está falando que não está ganhando respeito é que não respeita os caras mais novos, véi. Ninguém baixa a cabeça pra ninguém.
A maioria dos desrespeitos vem de nós mesmo, dos antigos, pô. Se você der respeito pra um cara, você vai receber respeito. Eu acho muito difícil um cara das antigas ser desrespeitado por um cara da nova geração.
Eu acho que, pelo fato dos caras estarem alcançando outras paradas, fica um pouco de despeito, tá ligado, mano. Entendeu, não tem fundamento, não tem base para alguns rappers falarem isso.
O rap é uma é uma árvore. A raiz tá lá, cresceu o troncão,vem os galhos, mano. Junto com o galhos, vem as folha, véi. Tudo isso que você está vendo acontecer, quando chegar o inverno, as folhas se vão. E nascem outras. E o que está sempre fixado? A raiz, mano.
Os caras ficam na preocupação, ficam vendo os moleques novos ganhando dinheiro. Eu fiz sucesso, mas não fiz dinheiro. Mas e seu eu te falar que eu tô melhor hoje em dia, do que quando eu fazia sucesso, tu bota fé? Por quê? Respeito. Os caras olham a caminhada minha dentro Cirurgia, até dentro da malandragem, e vêem que eu não tenho furo. Todo papo que eu dei foi reto e, na hora que precisou, do vamos ver, a gente veio e botou pra fuder, sacou.
Se você pudesse apontar dois momentos especiais da sua trajetória, quais seriam?
Um antes e outro depois da fama.
Eu só fui me convencer que eu tinha que seguir o caminho do rap por causa da música Reino da Morte. Nós criamos o Álibi e, um dia, o Jamaika perguntou se eu não tinha uma música pra colocar no disco. Eu falei que tinha e cantei Reino da Morte. Ele falou: “Nós vamos gravar isso aí”.
Aí, lançaram, a música pipocou e tal. Me lembro que tinha os ônibus escolares naquela época, com os panelão e o som bem alto. Eu sempre morei na M norte, de frente à pista principal, onde passavam os ônibus. Ficava eu e um camarada meu, o Fumaça, véi, olhando os baú.
O baú passava tocando minha música, os caras cantando e falavam comigo: “E aê, beleza?” Sem saber quem eu era. Eu olhava assim: “Olha, Fumaça, os caras curtindo a música e os caras nem sabe que é eu ,vei.” Então, isso nunca saiu da minha mente. Depois que a gente começou a fazer sucesso mesmo e se firmou.
Outro episódio, depois que eu já fazia sucesso.
Último disco do Cirurgia, Não Dá Nada, Se Der é Pouca Coisa. Eu e o DJ Marola fomos fazer um show lá em Caruaru, no Pernambuco. De repente, o telefone do Marola toca,né. Ele atendeu, pá e pá: “Aqui é do Hutúz, vocês foram indicados em quatro categorias.”
Pô, ali foi um sonho, né. A gente acabou não levando nada, levamos só a melhor produção, mas só de ser indicado, você vê que você fez um trabalho legal. Naquele ano, tinham vários artistas grandes que nem foram indicados. Recebemos indicações para Melhor Álbum, Melhor Música, Melhor Grupo e Melhor Produção.
Eu sempre procurei colocar meus pés nos chão, sempre manter eles no chão, porque isso pode atrapalhar pra caramba, véi. Mas, nessa época, quando eu vi que gente do Brasil todo estava votando na gente é que eu tive um pouquinho do gosto de saber que o Cirurgia era conhecido no Brasil inteiro.
Eu já tinha feito show em todos os estados: Manaus, Bahia, norte, nordeste, sul, tudo que você pensar. Só que quando é uma premiação como essa, da magnitude dessa, mano, porra, eu fiquei assim, muito feliz mesmo, saca.
E quando você começou a produzir música? Como você aprendeu?
Antes de eu ir preso [em 2008], eu gravei três discos no Jamaika, lá no Sol Nascente. Ele morando lá e eu aqui, em Sobradinho. Lá no Jamaika era só de manhã, tinha que chegar às 8 horas. Mas esse horário a Estrutural é fechada.
Então, eu tinha que acordar às cinco, pegar dois baús pra ir e dois pra voltar. Gravei três discos lá assim: A Ocasião faz o Ladrão, Remix e o Não Dá Nada. Aí, eu comecei a cansar, pensei: “não dá mais não, véi”.
Nessa época, eu já tinha amizade com o Duckjay, já tinha feito alguns trabalhos com ele. Foi quando eu o convidei pra gente fazer o L.A.T.R.O. Eu já tinha um nome, de um outro projeto que não foi pra frente.
Comecei a fazer com o Duck. Fizemos o L.A.T.R.O[antes da cadeia] e, depois, fizemos meu primeiro disco depois de convertido[depois da cadeia]. Aí, o Duck virou pra mim e falou: “eu vou parar de produzir pros outros.” Eu: “mas eu tô dentro[dos que você vai continuar fazendo], né? Ele: “não, parei pra todo mundo.”
Entrei em desespero. Fiquei mal, fiquei doente, tristão quando ele falou isso.Pensei: “Caramba, e agora? O que eu vou fazer?” Os dois caras em quem eu confio para fazer minhas músicas são o Jamaika e o Duck. Minha vida toda foi rap, achei que era pra eu parar mesmo.
Depois de um tempo, pensei: “moço, eu acho que eu sei fazer [produção musical].” Eu já vi os caras fazendo, as ideias das minhas músicas foram eu que dei. Eu não sei apertar os botões, mas eu aprendo.
Passei um tempo trabalhando como camelô, mas tava muito difícil. Nisso, me liga um cara, um traficante lá da Ceilândia: “mano, tu tá mexendo com rap ainda? Eu quero comprar umas letras tuas. Mas se eu comprar como é que eu vou fazer as músicas, como é que eu vou gravar?”
Me deu o estalo. Falei: “mano, eu vou fazer as música pra tu. Tu compra dois aparelhinhos pra mim?” Fomos lá, compramos uma placa pequenininha de áudio e um tecladinho safado. Aí comecei. Eu ficava lá na sala casa brincando, lembrando como é que os caras faziam, tom. Eu fui pegando aula de internet. Fiz seis meses de curso, mas tocar mesmo, eu não toco.
Pensei: “vou ter que fazer um estúdio pra fazer as minhas músicas e de repente, se alguém gostar, eu faço para outras pessoas e ganho um dinheirinho.” Então, foi assim que eu me aprofundei. Depois que eu abri, o Raffa me deu umas ideias, o Duck, o próprio Jamaika. Cansei de ligar pro Jamaika: “toca um negócio ai pra mim, véi.” Ai ele fazia o vídeo e me mandava.
Me parece estar dando bons resultados, né? O que você acha?
Eu tenho o prazer de trabalhar com qualquer pessoa, mano. Às vezes, o cara não manja muito, eu vou e dou o canal pro cara. não mano, canta desse jeito assim. Às vezes, os caras estão com dificuldade para fazer o refrão, eu ajudo e digo: “deixa eu fazer, não vou cobrar nada, não. Só pro trampo ficar legal, mano.”
Eu tenho que tirar meu sustento e da minha família daqui. Só que a grana não é tudo. Esse prazer de estar ajudando os caras, dinheiro nenhum paga.
Já produzi pro Thiagão[ ex Kamikazes do Gueto], fiz uma música pro Douglas[ ex Realidade Cruel]. Estou fazendo agora uma para o Facção Central.
Isso é bom pra mim e bom pra eles. Bom pra mim, pela visibilidade. E pra eles, porque estão fazendo coisas diferentes e saindo da caixinha.
Você comentou sobre a influência do Duckjay na sua carreira. Qual a importância dele e do Tribo para nossa cena?
Eu vejo hoje o Duckjay como o maior rapper da atualidade. Ele mesmo produz, canta, escreve, tem as ideias dos clipes. Ele é completíssimo. É um dos melhores produtores que eu já vi. Ele é o cara, é o ponto fora da curva, mano.
Quando a gente vai ouvir o Tribo e o Duck, a gente sabe. É ele ali mesmo. A idéia dele, a cabeça dele a mil grau funcionando dentro da cena. Eu acho que o Tribo ainda vai alçar voos mais altos do que ele já vem alçando.
Na sua opinião, quem são os nomes mais decisivos para a trajetória do rap do DF, nesses quase 40 anos de caminhada?
Em primeiro, sem dúvida, é o Jamaika. Sempre foi um cara um passo a frente de todos, tanto em escrever quanto em produção musical.
O Raffa, em segundo lugar. O papel dele é muito importante. Ele fez o primeiro concurso de rap de Brasília. Hoje, tem internet, mas antes a gente não tinha acesso a nada. Ele apresentou muita coisa para gente da periferia, do tipo: “aquela música que você gosta está nesse disco aqui!”. A gente ficava igual menino.
E o Duckjay, por tudo que eu falei antes. São os três caras que revolucionaram.
E o top 5 do Rei - Faixas ou álbuns especiais da nossa história.
Câmbio Negro – Sub-Raça
Cirurgia Moral – A minha parte eu faço
DJ Jamaika – Utopia.
Código Penal – A Maloca
L.A.T.R.O – Terra de gladiador, esse foi cabulo demais