REALLEZA

Conversei com a Rebeca Realleza na UnB, em um dos bancos do ICC, popularmente conhecido como Minhocão. Conversamos sobre o início de sua trajetória como cantora de igreja, sua participação precoce junto ao grupo Sobreviventes de Rua, e sobre novas oportunidades profissionais surgindo.

Entrevista por Thiago Flores em 22 de fevereiro de 2019

Foto: Thais Mallon


Hoje a gente te vê em carreira solo, ocupando diferentes lugares e abrindo várias portas. Mas até chegar nesse ponto foi uma caminhada. Fala um pouco sobre a sua trajetória na música. Como começou seu envolvimento e quando você começou a fazer rap?

Meu primeiro contato com música veio da igreja. Eu comecei dançando balé num projeto da igreja e dançava mais referências gospel.

Eu semprei gostei de rap. Quando eu morava em Sobradinho, tinha um cara que passava na minha rua de carro, tocando sempre uns rapzão das antigas pesadão, tipo Facção Central, Realidade Cruel.

Quando aquele carro passava, era minha alegria do dia. Ouvir aqueles gravão, ver o bicho dentro do carro curtindo mó onda, eu pensava: “caraca, bicho que som louco, véi”

Só que eu não podia escutar em casa, né.  O rap, naquela época, era muitíssimo marginalizado. Então, se eu ouvisse um negócio daquele com a idade que eu tinha, uns oito ou nove anos, Deus me livre. Ia ser complicado(risos). 

Foi num projeto de escola chamado Colisão de Ideias onde eu tive contato com o rap mesmo, entender, ouvir, cantar.  Como minha mãe é professora, ela não empatou, porque o projeto falava sobre meio ambiente, sobre questões raciais, sociais.

Você se lembra dos primeiros raps que escreveu?

Eram duas músicas, uma falava da paz e a outra era um manifesto sobre questão de ser negro na periferia. Inclusive, o PR15 gravou esse som.  O Donizete[ da banda PR15] era quem tocava esse projeto na escola.

E depois desse projeto?

Eu participei do projeto durante uns dois anos. Lá eu conheci o Bila, cantor de rap e que tinha um estúdio. E eu comecei a frequentar esse estúdio. Eu ia para lá e ele me atualizava,me mostrava o que era rap, o que tocava e o que não tocava.

Era lá que eu ouvia as músicas inteiras, porque eu só ouvia uns pedaços enquanto o cara do carro passava na minha rua(risos). Eu falava “quando eu era criança, ouvi uma música que era mais ou menos assim...”. Daí o bicho botava para eu ouvir. 

Nessa época, eu conheci os Resgatados das Cinzas. O Rodrigo estava fundando o grupo e ele também era da igreja. Ele foi ao estúdio do Bila para gravar uma música, um lovesong da igreja, do casalzinho que tava orando para namorar, aquela coisa bonitinha.

Ele queria uma mina para gravar o refrão e uma partezinha. Daí o Bila falou: “Eu tenho a Rebeca aqui. O Rodrigo foi lá, a gente sentou e escrevemos a música Minha Vida.

Eu sempre gostei de rap gospel. Era o rap que eu podia ouvir em casa. Minha mãe também é pastora. Eu não podia ouvir Facção Central, Racionais,Realidade Cruel, nada disso. Eu tinha que ouvir o quê? Apocalipse 16, Ao Cubo, Provérbios X, DJ Alpiste, esses grupos mais voltados para o gospel.

Aí eu pensei: “Minha mãe vai me deixar fazer rap gospel.” A gente rodou várias igrejas na Ceilândia e em outras cidades. Foi com o Resgatados das Cinzas que eu saí do nucleozinho da Ceilândia para cantar em outros lugares.

Depois disso, eu saí um tempo da igreja. Não dava mais para cantar músicas gospel sem estar na igreja. Fica um pouco contraditório, né?! Eu fiquei um ano sem freqüentar a igreja e sem cantar nesse grupo.

Uma amiga encontrou o Beto, do Sobreviventes de Rua, e ele falou:  “Cadê aquela menina que cantava no grupo lá? Ela tem uma voz super legal.  A gente está precisando de alguém para o Sobreviventes. Liga para ela.”  Minha amiga me ligou:

– Oi Rebeca, tá bem?
– Tô bem!
– Tá fazendo o que?
– Tô limpando a casa.
– Ah beleza, só queria te falar que, a partir de hoje, você é do Sobrevivente de Rua! No dia tal tem ensaio fotográfico, no dia tal tem ensaio, dia tal tem show.

Eu falei ”Demorô!“ Ela já me conhecia há muito tempo. Era alguém em quem eu confiava, em quem minha mãe confiava. Ela era mais velha, me levava para os lugares e me deixava em casa de boas.

Você trampou com o Sobreviventes de Rua, um grupo da Ceilândia importante pra cena do rap local. Como foi essa conexão e que lições você aprendeu com essa experiência?

Eu não tinha a experiência de cantar para muitas pessoas, em um palco grande, com um microfone bom, com aquela luz... Quando eu entrei para o grupo, eles já tinham 15 anos de caminhada. 

Eu era bem nova. Eles eram todos homens, mais velhos. Demorou um pouco até eu ter voz no grupo. Antes eu falava: “Pô, tô vendo umas paradas massas para a gente e eles: “ Calma aí, tu tá aprendendo.Tu tem que ver como é o rolê, que a cena é assim, os cara é pan...”

Com o tempo, a gente viu que a cena estava mudando e eu comecei a ter voz. Trouxe minhas composições para o grupo.  Foi um rolê que eu aprendi muito com eles:  palco, entrevista, falar com as pessoas, vender seu trabalho. Passei cinco anos e tive experiência de viajar, de cantar em show com artistas nacionais, de cantar em eventos grandes e ser respeitada também.

Em vários momentos, você fala da influência da igreja e da religião na sua vida. Na sua musicalidade, você consegue enxergar essa influência também?

Total. A sonoridade da igreja foi muito importante para mim. O rap  dos anos 90, anos 2000 tem essa coisa do cara mandar uma rima cabulosa e vem uma mina no refrão. Isso eu peguei da igreja, também. O jeito que eu canto. Tem letras que eu coloco versículos da bíblia e misturo numa parada. Tem todas essas referências.

E como foi a transição para a carreira solo? Quando foi a primeira vez que você se apresentou sozinha e como você reagiu internamente?

Eu comecei num evento chamado Batom Battle, que as minas do BSB Girls organizavam. Elas fizeram esse evento e estavam procurando uma mina para escrever uma música lá. Eu fui, escrevi a música e todo mundo curtiu. Então, elas falaram: “Rebeca, a gente queria te colocar para abrir o evento”. Daí, eu falei: “pô demoro, vou falar com os meninos [dos Sobreviventes de Rua]” E elas: “então, é um evento de mina e a gente tá colocando as minas como protagonistas.  É só você, não os caras” Eu pensei  “Caralho, agora o bicho pegou.” 

Eu fui lá e cantei. Me amarrei, porque a galera cantou junto, dançou, fez roda. Um mês depois, eu fui chamada para cantar no Festival Latinidades edição 10 anos, um show de uma hora. Eu tive que me virar para sustentar um show de uma hora sozinha. Eu chamei a galera que dança, juntei as coisas que eu acredito, peguei umas músicas dos meninos [dos Sobreviventes de Rua], peguei letra que era minha e fiz um bololô e fui cantar no Latinidades. 

Véi, quando eu cantei e vi que tudo deu certo, com entrada e saída de palco, troca de figurino, como se eu fosse a Beyonce, a Rihanna, a Ciara, eu pensei: “Caracas, que louco, eu tenho que fazer isso da minha vida.”

Eu não pensei que tinha que sair do SDR. Pensei “vou fazer o trampo solo e continuar com eles”.  Mas, no trampo solo, começou a aparecer show atrás de show até que, depois de um tempo, minha agenda começou a conflitar com a do grupo.  Aí, a gente se reuniu e eu decidi priorizar minha carreira-solo.

Como artista, como você descreveria a sonoridade de rap que surgiu no DF nos anos 1990? Existe alguma particularidade? Alguma coisa em comum que identifique o som que era produzido aqui?

O grave. Se você conversa com uma pessoa de outro estado sobre o rap do DF, essa pessoa sempre fala: “caraca, vocês tem uns graves sinistros”. 

É muito foda. É o que destaca vários artistas daqui: a gente tem um grave único. Aquela sonoridade pesada: o grave batia com uma letra pesada com uma voz muito pesada. Quanto mais pesado o som, mais louco ia ficar o baile. 

Era o grave e eles começaram a colocar umas melodias. O Opala 171 Azul tinha uma melodia, o Guindart começou a usar muito essas melodias. O grave com aquelas vozes, com aquele timbrezão assim, afinadíssimo.

Muitos dos artistas que colocaram o DF no mapa do rap nacional na década de 90 e nos primeiros anos dos 2000 perderam espaço, apelo comercial e alguns passam graves dificuldades financeiras. Por que você acha que isso aconteceu? Quais fatores contribuíram para essa situação?

A periferia não é treinada para trabalhar com dinheiro, com negócios. Até hoje, infelizmente, tem essa visão: se é de periferia, é subordinado. Então, não é nosso negócio sermos grandes empresários, grandes gestores de carreira e de empresa 

Eu posso estar falando besteira, mas, na minha concepção:

Você pega um cara da periferia ou uma mina da periferia e, do nada, essa pessoa começa vender shows. Canta uma hora e ganha um cachê de, sei lá, 2 mil reais. Tem gente que trabalha o mês inteiro e não ganha isso. 

Essa pessoa começa a fazer um dinheiro aqui, que dá para comprar um carrinho melhor, que dá para comprar uma casa melhor. São poucos aqueles que vão parar e pensar: “tá entrando um dinheiro, vou pegar e investir em tal parada, vou fazer esse dinheiro multiplicar.” 

Essa situação é um bang na cabeça do cara. Vem um dinheiro da música e o cara pensa: ”vou comprar logo o carro, eu vou comprar não sei o quê...” Eu acho que muitos deles não tiveram essa visão de investir o dinheiro ganho para continuar a carreira. 

Outra coisa também: o cenário, a música, o mercado. Tudo muda, tudo passa ligeiríssimo.

Grande parte dessa geração eram artistas de rua. Começaram a ficam conhecidos por conta dos bailes. Você ia para o baile e estava todo mundo cantando. Saía do baile, todo mundo cantando.  Você podia não ter ouvido o cara no baile, mas sabia a música, porque seu amigo sabia.  Era uma coisa mais da rua, mesmo.

Quando começou essa era tecnológica, foram poucos que se adaptaram. Muitos continuaram com essa idéia: “eu sou rua, esse negócio de internet é para playboy ou eu nem sei mexer nesse bagulho, vou deixar quieto”.

Aí, o mercado mudou.  O jeito de vender música mudou, o jeito vender shows mudou. Tudo mudou. Os que souberam sobressair, os que tiveram produtores grandes por trás coordenando tudo até tem alguma coisa atualmente. Por exemplo, o Japão: vende roupa, vende óculos, faz shows, chama um fulano para cantar. Tá se reinventando.

Tem que ter a mente aberta para ver que a cena mudou musicalmente também. 

Porque tem a galera das antigas que pensa:  “você vai cantar meu rap e ai vai cantar do jeito que eu quero” .  Você leva uma proposta e a pessoa: “ Eu sei o que eu faço,,eu já fui famoso, eu já cheguei  lá e tu não chegou”.  Aí, tu fica: “beleza, vai lá, bichão.”

Você falou que o rap mudou musicalmente nesses anos todos. Que mudanças você apontaria em termos de sonoridade?

Hoje em dia está muito musical. Mais fartura de instrumentos, de melodias, de levadas. Hoje está mais ampla a parada.  Antes, o que imperava era o grave. O peso, na voz e na música. 

Hoje é musicalidade.  Não é à toa que você coloca um piano, um violão. Tá surgindo um rap acústico. Tem uma galera das antigas que não aceita, fala que isso não é rap. Mas é. As coisas mudaram, as opções mudaram, os públicos mudaram. 

O rap é verdade e cada um mostra a sua de um jeito. A nova geração está muito musical.  Hoje, você vê artistas mais melódicos, como eu, se destacando. 

Outra coisa: antigamente, as mulheres no rap tinham que parecer com os homens, tinham que ter uma levada mais parecida com a dos caras.  Hoje, não. 

Quando eu comecei minha carreira solo, muita gente falou que eu tinha parado de cantar rap. Porque meu som é diferente da estrutura antiga deles. Para eles, o rap fala das mágoas da periferia, do sofrimento.

 Mas, hoje, você está vendo a periferia acessando tanto lugar bom, e conquistando tanta parada cabulosa. A gente tem que falar para os nossos sobre isso: que a gente também pode acessa esse lugares, que a gente está indo, está curtindo, que a gente quer e tem do bom e do melhor. Não é questão de ostentação.  É questão da gente saber que a gente merece mais, entende. A gente pode ser mais, a gente deve ser mais. 

Teve uma galera que falou: “Nossa, a Rebeca não canta mais rap”, porque eu chego no palco e boto uma roupa chamativa. Vou dançar e rebolo. Boto pra tocar um funk, um dancehall,  começo a dançar break.  E isso é rap. Se não é rap, é música, então...

Existem vários tipos de ativismos presentes nas suas letras e no seu discurso. Como é a sua relação com essas temáticas e como é o processo de transmitir isso nas letras? É um negócio simplesmente orgânico, natural ou existe algum tipo de estudo específico para isso?  Seu envolvimento acadêmico [Realleza é bacharel em Direito] tem influência no seu processo de composição e nesses posicionamentos?

Tem coisa que é orgânica, natural. Eu tenho essa vivência como mulher preta periférica, moradora do Sol Nascente. Tenho essa vivência como negra que já sofreu muito racismo, que ainda é vista de um jeito estranho em alguns lugares. São coisas que eu passo no meu dia a dia e minhas letras falam sobre o cotidiano. 

Fiz uma sobre feminicídio. Posso dizer que 99% das mulheres do Brasil já passaram por alguma situação de possessividade,  de um homem querer ditar o que ela tem que ser, o que deve fazer, como ela deve se vestir. 

Mas para eu colocar na minha música, eu tive que estudar: o que é o feminicídio, como se chega até o feminicídio, como acontece, onde acontece, como é tratado. Eu tenho que  estudar para falar com propriedade. Eu tenho que saber como acontece o crime na sociedade se eu quiser fazer uma música do crime. Eu tenho que saber como é a noite se eu quiser fazer uma música sobre a noite. 

É orgânico, mas quando eu resolvo apontar para aquilo, escrever sobre tal tema, eu tenho que focar no conhecimento. Alguns temas pedem uma pesquisa mais avançada. Outras músicas saem porque o que eu tenho de vivência já é o suficiente.  Assim é o processo.

Falando de futuro, que tendência de som e de musicalidade você vê para cena do rap no DF?

Tendência de música está sendo o trap. São vários rolês pequenos que acabam criando um grande. E, se você for nos roles,  é o trap que está reinando. Não é o gangster, dancehall, não é o charme. É uma tendência não só para aqui para o DF né, mas para o Brasil. 

Eu acho que a tendência é um som mais orgânico, um som mais melódico, passando uma mensagem mais tranquiila, que você possa ouvir num barzinho, que você possa ouvir em casa suavezão, e consiga relaxar ouvindo. 

Eu acredito também na tendência da música para dançar. A dança dita o rolê. O DJ vai de acordo com o público e a dança é um parâmetro muito presente. Se você  ver todos os grandes tem um balé.  A dança chama a atenção de quem quer dançar, de quem gosta de ver as pessoas dançando. Ela traz interpretação da música. Eu acredito muito nas tendências mais dançantes.  É no que eu estou apostando.

Quais os artistas da cidade você acha que tem mais chance de despontar nos cenários local e nacional?

É complicado, porque eu posso puxar várias sardinhas, mas vamos lá.  Thabata Lorena. Eu acho ela originalíssima, talentosíssima.  A Lígia Dallet, para esse orgânico. A Taliz, com quem eu participei no projeto Revolução dos Bichos, 

Tem o Nenzim.  Ele trampa com a galera do Jovem de Expressão. É uma pessoa que eu acredito que vai sair e dar uma estourada. E eu, é lógico.

E o top 5 da Realleza, faixas ou músicas do rap do DF especiais para você.

QI Intelectual- Sorria

QI Intelectual- A ocasião faz a canção

Etnia das Ruas- Olhos Pretos
Belladona- À Flor da Pele
Dona Rayla- Ruas da Norte

De álbuns, destaco:  Sobreviventes de Rua- Rap é a Música e Viela 17- Lá no Morro