RAVEL
Ravel tem o movimento hip-hop no DNA. É filho da b-girl e produtora cultura Jane Alves com o grafiteiro, b-boy e rapper Rivas e sobrinho de Dj Jamaika, pilar fundamental da cultura no DF. PESO conversou com o cantor, produtor musical e instrumentista sobre pressão familiar, responsabilidade, sonoridades do rap do DF e estilos de produção.
Entrevista por Thiago Flores via email em 21 de dezembro de 2021
Você vem de uma família profundamente envolvida com o movimento hip-hop no DF. Fala um pouco sobre a sua infância e as primeiras vivências com música e com a cultura.
Cara, na real, é até difícil responder essa pergunta, porque [meu envolvimento] realmente foi desde muito cedo. Eu sempre faltei muito na escola por conta do trampo de produção de evento e shows que minha família sempre teve e eu ajudava.
Nunca foi limitado ao rap. Meu pai faz um evento de break há 30 anos, todo primeiro sábado do mês, a gente tá lá. Então, eu já estava envolvido com uma galera muito sinistra desde cedo. Network muito brabo mesmo.
Você toca diferentes instrumentos, faz beats, rima, produz, mixa/masteriza. O que veio primeiro na sua caminhada? Coloca essas atividades um pouco em cronologia e fala um pouco de como você começou cada um desses rolês.
Eu comecei dançando com uns cinco anos. Depois, veio o graffiti. Depois, veio o violão, que foi onde eu me encontrei mesmo.
Eu sempre tive muita referência musical e gosto muito da parte técnica do esquema.
Depois do violão, eu comecei a tocar contra baixo e guitarra. Só depois que eu fui começar a cantar. Estava tentando correr disso, mas não teve jeito.
Sempre foi muita responsa cantar, sabe? Sinceramente era muito tenso pra mim, por motivos óbvios. Minha família fez muito pelo hip-hop e, principalmente, pelo rap. Então, era aquelas, né?
Nunca tive essa cobrança da minha família. Do meu pai, muito menos. A lombra era mais na minha cabeça mesmo. Mas aí, comecei a cantar com um amigo meu, acho que com uns 16 ou 17 anos. Depois disso, meu pai me deu o bote(risos) e me chamou pra cantar com ele. Hoje, a gente tem um trampo junto [ Rivas & Ravel], além dos nossos individuais.
Por último, eu comecei a produzir. Trampar com toda a parte da criação de um som, do arranjo até a finalização da obra e registro fonográfico.
Algum dia você pensou em fazer outra coisa que não fosse música? Sentiu alguma pressão do seu pai ou do seu tio para seguir ou não seguir a carreira artística?
Eu pensei, na real. Eu lembro de querer ser psicólogo.
Mas, independente disso, a questão musical é mais que um trampo. É terapia, é diversão, é aquela coisa que a gente ama fazer, sabe? Independente de ser o trampo principal ou não.
Zero pressão. Toda onda que eu inventei, meu pai apoiou. Ele nunca tinha falado sobre eu cantar. Só depois que eu comecei a fazer um som com meu parceiro que ele me chamou. Então, foi bem de boa!
Você se lembra do primeiro beat que você fez na vida? Como foi?
Claro que eu lembro.
Usei o Nexus, um plugin de timbre muito famoso. O tom era em Mi menor, que era o tom que eu gostava de solar. Ficou péssimo, mas com uma harmonia legal, certo? Não foi de todo ruim.
Quando você percebeu que fazer beats poderia virar uma profissão?
Sinceramente, acho que desde o início. Eu comecei a produzir em uma época que a produção deu um boom muito grande. Além disso, eu sempre estive inserido nesse meio de trabalho, sabe?
Eu sempre vi o produtor recebendo grana, o engenheiro de mixagem recebendo, o cantor. Então, eu já sabia que era possível.
Com quais artistas você já trabalhou? Trabalha com algum artista de maneira fixa?
Eu já fiz trampo com uma galera muito braba da Cei, saca: Gabiru, Vullto, Ediá. Ganhei um concurso de produção que o Japão do Viela 17 fez, em que eu cantei no som dele também.
Além da Saphira que é filha do meu tio Jamaika, trampei com o Rei do Cirurgia e com a Dree-K.
Quais são as suas maiores influências e inspirações para fazer música?
Eu tenho muitas referências, porque eu aprendi muito com mestres em alguns instrumentos, sabe? Eu escuto todo estilo musical e eu consigo realmente valorizar o som em vários aspectos. O rap não me aprisionou, sabe?
Minha família é uma influência muito grande. Tech N9ne, com certeza, é outra. Talvez, a maior. Ed Motta, Djavan, KRS-One, Run DMC, Timbaland, Pharrel Willians são pessoas que eu acompanho muito e tento extrair o máximo de coisa pra somar ao meu som
E produtores? Quem são os seus preferidos?
DJ Raffa Santoro, não tem nem como não falar do Raffa.
Timbaland, Scott Storch. O Marx é um mano de Taguatinga que tem um dos trampos mais originais atualmente. E o Duckjay sempre foi acima da média.
Como é o seu processo de criação musical? Qual programa você usa?
Depende muito, na real. Geralmente, eu crio a base primeiro e deixo a vibe do som decidir muito da fala. Mas já teve vez que eu queria falar sobre algo específico, então fiz a base girar em cima disso.
Hoje, eu trabalho com o FL Studio, o famoso Fruit Loops. E o Studio One.
Como é a sua pesquisa de samples? O que mais gosta de utilizar?
Eu uso muito sample.
Eu penso em três coisas quando vou criar algo usando um sample: 1) a pessoa precisa identificar o sample e gostar do som por isso; 2) usar um sample que o público provavelmente não vai conhecer e ter uma outra reação por isso; e 3) uma coisa totalmente criativa: eu altero o sample todo, com vários tipos de efeito e crio um som completamente novo a partir daquilo ali.
Minha pesquisa depende muito da intenção
Sobre o rap do DF surgido na década de 90: GOG, Câmbio Negro, Álibi, Jamaika, Cirurgia Moral. Como produtor musical, como você descreveria a sonoridade daquele tempo?
Uma sonoridade única, com certeza: tanto em questão de interpretação e timbre, quanto em produção.
Todos esses grupos foram produzidos pelo Raffa. Então, uma enorme parcela de tudo isso vem dele. Os famosos moogs que tinham no Álibi era ele que tocava. Quem mais naquela época tinha o equipamento e a musicalidade pra entregar tudo aquilo?
Imagina se não tivesse o Raffa pra entender as ideias de todo mundo naquela época?!
Em termos de sonoridade e produção musical, quais as principais diferenças entre o que era produzido nos anos 90 e o que se faz hoje? Quais influências e estilos ganharam importância, quais perderam?
Eu acho que a principal diferença é a quantidade de informação que as músicas tem. Tudo antes de 2000 era muito cheio, muito instrumento, porque eram usados samples de bandas de funk que tinham baixo, guitarra, batera, percussão, nipe de metal, back vocal, teclado, synth. Então as músicas eram cheias.
Hoje, são músicas bem mais simples, musicalmente falando. Tem até o estilo no melody que, como o nome sugere, não tem nem melodia, só bateria.
A base era muito importante antigamente, sabe? Hoje as bases se parecem muito, não tem tanta personalidade. A personalidade da música vem do cantor, na maioria dos casos.
A trajetória do rap no DF foi marcada por tretas longas e importantes entre os principais artistas que emergiram nos anos 90. Na sua opinião, quais os impactos dessas tretas no desenvolvimento do cenário rap do DF? No seu crescimento pessoal e profissional, essas tretas tiveram algum impacto
Eu acho que, quando estava todo mundo junto, saía muito som, obras únicas. Com as quebras que aconteceram, a gente deixou de escutar hinos que nunca foram criados.
O rap do DF nos anos 90 era muito forte, muito grande, e não parava de crescer. Até que parou. Na minha opinião, muito por causa dessas tretas.
Pessoalmente, não me influenciou em nada, sabe? Mas profissional, com certeza, pelas obras que não foram criadas.
Você trampa com seu pai, um dos nomes mais importantes para o rap do DF. Como tem sido essa experiência? Que tipo de ensinamento você tem tirado e que tipo de dificuldades vocês enfrentam por conta dessa proximidade familiar?
É muito louco trampar com o seu pai. Com seu pai sendo o Rivas, é mais ainda. Mas, real, a gente trampa muito bem junto. Por feeling, eu realmente conheço muito ele no palco, posicionamento, quando ele tá esquecendo alguma coisa, sabe? Flui muito bem.
A maior dificuldade é 100% minha, véi. Às vezes, me sinto muito pressionado por ele, sabe? Não como pai, como artista mesmo, entende? É meio complicado até de explicar, porque eu acho que é um sentimento muito singular.
Na sua opinião, quem são os novos artistas de rap do DF com mais chance de ter sucesso?
Ah, mano. Essa é uma pergunta complicada, porque o mainstream é cruel. Nem sempre o mais talentoso, o que produz melhor, o que canta melhor, o que performa melhor, se destaca.
Mas, pra mim, tem pessoas que são sinistras no que fazem! O Rach Memo é muito original, o Markx é muito original. Os dois são produtores e compositores. Tem a Dree-K!
São pessoas que eu curto muito o trampo.
Quem são os personagens mais importantes desses mais de 35 anos de rap do DF?
Nossa, são tantos. Imagina o que seria do hip-hop sem o Celsão, Junior Killa, Nelson Triunfo, Racionais, meu pai, meu tio, o Rei, o Ocimar DaBomb, o Sowtto, o Satão, o Thaíde, o Raffa, Atitude Feminina, Dina Di.
São tantos nomes essenciais que é muito difícil de pensar e selecionar poucas pessoas
Top 5 do Ravel- Cite 5 músicas ou álbuns do rap do DF especiais para você
Álibi- Abutre
Álibi- Pague pra Entrar e Reze Pra Sair
DJ Jamaika- Utopia
Câmbio Negro- Sub Raça
L.A.T.R.O- Terra de Gladiador
Hiperlinks
[ Álibi- Abutre ]