RAFINHA BRAVOZ
Desenvolvo trabalhos ocasionais com o Rafinha há quase 10 anos. Em 2012, Bravoz ministrou uma oficina de rima em um das edições do projeto Estação Central, do qual fui produtor executivo. Em 2015, atuamos juntos em uma iniciativa do Ministério da Cultura de formação de agentes culturais.
Para além dessa entrevista, o mano se tornou parceiro dessa pesquisa: indica entrevistados, faz contatos e serve de cobaia para gravações e ensaios fotográficos.
Nessa conversa, realizada no CONIC, no extinto submundo do Galeria, falamos sobre os primórdios da sua trajetória, a caminhada com Rapadura, os potenciais dos Saraus e alguns conflitos internos da cena do rap nacional.
Entrevista por Thiago Flores em 17 de abril de 2018, no CONIC; foto por Ivan Lacombe.
Como começou o seu envolvimento com o hip-hop e o rap?
Meu primeiro envolvimento prático foi dentro da escola, num projeto social- o Se Liga, Galera!- que dava oficina dos quatro elementos do hip-hop. Tem um fato engraçado de como eu conheci esse projeto.
Eu estudava de tarde e tinha pulado o muro do colégio com uns amigos para assistir o intervalo do turno matutino. A diretora viu e começou a correr atrás da gente. Entramos numa sala e, lá dentro, estava acontecendo uma oficina de RAP. Quem era o professor? O Marquinho, do Tropa de Elite. Ele falou “se você não quiser que eu te cagoete, você vai ter que participar da minha oficina”. Eu fiquei.
Esse professor levava para a oficina, uma vez por semana, uma galera do RAP já conhecida. Num dia, ele levou a Mércia, uma mina da minha quebrada de quem eu era muito fã. Era muito difícil a gente ver mulheres no hip-hop e ela era do PR 15, um grupo que tá na ativa até hoje e que eu gosto muito.
Nesse dia era aula prática: você rimava o que você tinha escrito, em cima da batida, na frente de todo mundo. Eu lembro que o Marquinhos falou: “Agora é a sua vez, Rafinha. Um, dois, três, quatro(marcando o tempo)” e eu entrava depois[do tempo]. “Um, dois, três...” E eu entrava antes, tá ligado?
Aí, na frente da convidada, ele falou: “Pô, moleque, boto fé de tu fazer outra oficina, de break ou de grafite, porque rap não é pra tu, tá ligado” [risos] Foi foda, véi! Eu lembro que eu saí chorando da oficina!
Eu tinha uma dificuldade com ritmo, nas entradas com a caixa e o bumbo. Mas eu treinei muito, com ajuda do W e do Barrista. Fiquei quase um ano ensaiando até acertar.
Depois de um tempão, eles foram convidados para tocar. Daí e falaram: “Prepara aí, que hoje vocês vai tocar.” Isso foi minha alegria. Foi foda, um show para seis, sete mil pessoas, na feira da Ceilândia. Sempre que tinha show ali, a galera lotava o estacionamento da Drogamed.
Eu lembro que, nesse dia, o Marquinhos estava lá embaixo e falou, justamente, para o Bairrista: “Caralho, esses moleques são fodas!” O Bairrista falou para ele: “Mas pô, foi o moleque que tu expulsou da tua oficina.” Daí, ele olhou para mim e riu!
E foi aí mesmo, a partir de 2001 que eu comecei a fazer música, num esquema mais sério.
De onde vem o BRAVOZ do seu nome?
O Bravoz era o nome de uma banca, um coletivo de MC’s, das antigas: Brasileiros Revolucionários Atacam com a Voz.
Com o passar do tempo, a banca foi se desfazendo, mas, onde eu ia, o pessoa falava: “olha o Rafinha Bravoz, o Rafinha do Bravoz, o Rafinha que fundou o Bravoz.”
Nessa época, eu tinha um grupo chamado Seguidores da Paz e a gente não estava muito feliz com esse nome. Trocamos por Bravoz. Um tempo passou, outros integrantes saíram até que um dia ficou só eu, tá ligado ?!
A galera foi falando Bravoz, Bravoz, Bravoz…Tinha gente que me chamava de Rafinha. Foi juntando até que um dia todo mundo falou Rafinha Bravoz.
Você trabalhou muitos anos com o Rapadura. Como começou essa história e quais os momentos mais marcantes dessa caminhada?
Conheci o Rapa nesse show que eu contei a história do Marquinhos em 2001... Mas foi em 2003 que a gente se conheceu de verdade, depois que ele me viu num concurso do Abril Pro Rap. A gente passou a passou a colar e trabalhar junto.
De 2010 para 2011, foi um momento marcante da minha vida. O Rapadura tinha lançado o disco Fita Embolada do Engenho, que começou a estourar. Ele falou: “Rafinha, agora eu preciso de você em tempo integral”
Eu tive que fazer uma escolha. Eu tenho um filho, sempre trabalhei, tinha um trampo estável. Ficar com a estabilidade ou arriscar num sonho? Eu arrisquei. Foi bem árdua essa luta. A gente só veio colher os frutos a partir de 2012 e está colhendo até hoje.
Minha jornada com o RAPadura trouxe várias momentos bons, véi. Meu sonho era conhecer meus ídolos. Fomos para São Paulo para ficar umas temporadas. Lembro que, no primeiro show que fizemos, estavam RZO, SPFUNK, Z’África Brasil. A galera cumprimentou e eu ali na minha, pagando de artista, mas dentro de mim tava batendo palma, pulando.
Além das viagens que a gente fez, as turnês pela Europa, durante três anos seguidos, a gravação do DVD com o Rappa, de quem eu sempre fui fã desde criança.
Quais as características mais marcantes do rap que surgiu no DF no início da década de 90?
Várias pessoas vieram do Brasil todo e se criou uma identidade, uma linguagem dentro do RAP, que se tornou única: agressividade. Um jeito único de falar dentro de uma rima e em cima de uma batida muito forte. Pra mim, é essa singularidade que o RAP do DF sempre teve.
O diferencial é essa linha gangsta. Não é só uma história, uma rima... No DF, a pessoa fala na letra o que realmente ela é, tá ligado? Não sei se isso foi uma coisa boa ou ruim, tá ligado? Na época, deveria ser ruim, pois os cara viviam em treta, de guerra mesmo, de gangue... Querendo ou não, foi uma forma de levar o Rap de Brasília para o Brasil todo.
Qual foi o impacto das grandes tretas do rap do DF nessa época?
Minha interpretação dessas tretas mudou ao longo do tempo.
Quando eu era pivete e não conhecia o rap, eu achava que essas tretas tinham levado meu irmão para o crime. A guerra retratada nas letras tinha influenciado a vida dele.
Quando eu era pivete e já conhecia o rap, eu achava as tretas muito massa. Eu queria ser o rei do rap, o gângster da quebrada, ter prestígio. Eu reproduzia aquele discurso das tretas.
E tem um terceiro momento, quando eu amadureci. Eu acho que essas tretas influenciaram bastante nossa trajetória. Eu posso dizer que o RAP do Distrito Federal está pagando até hoje por conta dessas brigas.
Mas, os caras, hoje, são mais velhos, fizeram uma carreira no rap dentro do Distrito Federal e no Brasil. E estão se entendendo. Isso é uma parada muito forte: um aperto de mão deles influencia toda uma nova geração, que já não vai mais tretar.
Que diferenças você enxerga no rap que era produzido na década de 90 para o que é produzido atualmente? Você pode falar de letras, de sonoridades, de mercado...
O RAP mudou bastante. E eu vejo a mudança de uma forma boa. Acho que, nesses últimos anos, de uma forma ou de outra, o rap foi agregando vozes de minorias: as feministas, os homossexuais, o movimento negro, indígenas, de gente que não é das quebradas.
Hoje, para se integrar ao RAP em si, à música, está bem mais fácil. Nesse processo, chega um momento em que a sua classe, a sua cor, de onde você vem, pouco importa.
Quando você tem confiança, vivência, quando você é verdadeiro e quer realmente buscar aquela causa, você vai ser aceito em qualquer movimento. O conhecimento é o que vai prevalecee. Em algum âmbito, as diferenças deixam de importar a partir do conhecimento.
O rap junta dois elementos da cultura hip-hop: o MC e o DJ. Muita coisa pode mudar: a sonoridade, as letras, quem tá fazendo, mas nunca vão poder tirar o DJ e o MC do rap.
Por isso, vejo as mudanças de forma otimista.
O que falta para o crescimento da cena do rap do DF? Quais os principais desafios para que os artistas cheguem ao mainstream?
A maior dificuldade sempre foi encontrar espaços para mostrar nosso trabalho. Sempre foi difícil criar essa oportunidade. Não basta não existirem casas de shows, centros culturais etc, ainda existe a limitação de você criar o seu espaço.
De uma forma geral, falta investimento. Dinheiro mesmo. Não tem como eu concorrer com uma pessoa que está trabalhando 24 horas por dia e eu tô trabalhando 12,tá ligado?!
A gente vê que o jogo está nivelado no Brasil todo, mas Brasília precisa injetar dinheiro, investir nas plataformas digitais, em audiovisual, em show. Tudo isso, querendo ou não, gira em torno de apoio, de patrocínio.
Brasília nunca se fixou no centro do RAP nacional por conta de dinheiro. Porque, aqui, historicamente, sempre teve mais produtor com dinheiro, do que grupo de RAP com dinheiro. Discovery, G1, a Só Balanço... Onde estão essas produtoras hoje?
No DF, criou-se uma cultura empresarial diferente de São Paulo. Em São Paulo, os empresários sabiam que existia uma porrada de grupos bons e investiam em fazer show desses grupos. Esses grupos lotavam as casas.
Aqui no DF, não. O empresário sempre preferiu trazer um cara de fora que iria encher a casa, ao invés de trazer um grupo de RAP do DF, que está aqui do lado e correr o risco de não dar público.
Produtores de festas sempre tiveram a grana, então, eles é que decidiam que iam tocar.
Atualmente, os saraus tem uma relação bem próxima com o movimento hip-hop. Você é bem ativo nesse rolê. Como começou essa história?
Desde 2004, eu dou oficinas, palestras, trabalho como mediador de conflito. Isso me ajudou a formar uma rede de contatos e ter reconhecimento nesse trabalho social. Quando fui morar em São Paulo com o Rapadura, eu comecei a percorrer as quebradas de lá para ver qual era o projeto com melhores resultados. Quando fui ver, eram os saraus.
Voltei para Brasília e comecei a fazer os saraus e descobri que tinham outras pessoas fazendo também.
O nosso sarau, Sarau-Vá, foi diferenciado porque era semanal. Foi uma luta. Hoje, vão fazer 8 anos da iniciativa e temos um reconhecimento nacional.
Qual o potencial sociocultural dos saraus, na sua opinião?
Vejo a possibilidade de ocupação de espaço público de forma simples, sem tanto barulho, mas que dá espaço para as pessoas que precisam.
Dá oportunidade para novatos, para MC’s, B Boy’s, que podem se apresentar 15, 20 ou 2 mil pessoas. Tem MC’s de Freestyle que não faziam batalha e começaram nos saraus, como o Biro, o Nenzinho...
Além disso, é um incentivo foda para a literatura marginal. O sarau mostra que meu livro pode ser do jeito que eu falo. O sarau quebra as fronteiras da academia, porque não vai para a biblioteca, vai pra dentro de um bar, de uma praça...
Quais são seus trampos atuais e quais os planos para um futuro próximo?
To trampando com o Véi Oeste, com a Alto Kalibre, encabeçando Sarau-vá e trabalhando no projeto Rapensando nas Escolas, que combate o uso de drogas lícitas e ilícitas. Além disso, sou assistente de produção do projeto CUFA Empreenda e estou ingressando na faculdade no curso de Serviço Social.
Para um futuro próximo, estamos finalizando o álbum do Véi Oeste, com participações de GOG, Movni, Nego Dé, Thabata Lorena, Japão, Markão Aborígene, Camisa 10, Sombra(SNJ) e Salomão Gomes.
Estou fazendo um EP solo, em homenagem ao samba, e estamos desenvolvendo o merch da Alto Kalibre.
Quais artistas você acha que vão despontar no cenário do DF?
Eu aposto muito no Thegust MC’s, no DNA RAP. O Jiló está com um trampo muito bacana. Eu gosto do Cleiton MC, o Camisa 10. Tem outros que eu tô esquecendo...
Na sua opinião, quais os personagens principais desses quase 40 anos de rap no DF?
X e GOG botaram o RAP do DF no jogo. O próprio RAPadura, Tribo da Periferia, tá ligado?
Atualmente, eu vejo que o RAP do Distrito Federal está estourando muito por conta dessa molecada do freestyle que está trabalhando duro, ocupando os espaços públicos, algo que eu acho muito importante.
E o TOP 5 - Música ou Álbuns do Rafinha Bravoz?
Álbuns:
GOG- CPI da Favela
GOG- Tarja Preta
Código Penal- Vivemos como o Diabo Gosta e Ninguém se Liga
DJ Jamaika- Utopia
Álibi- Pague para Entrar e Reze para Sair
Referências
[ Rapadura- Fita Embolada do Engenho- álbum, lançado em 2010]
[ O Rappa- Acústico Oficina Francisco Brennan Ao Vivo- álbum e DVD lançados em 2016]
[Sarau-Vá- Voz e Alma - um dos saraus mais importantes do Distrito Federal. Acontece na Ceilândia, na Praça da Bíblia, todas as terças-feiras, desde 2013]
[ Discovery, G1 e Só Balanço- Principais gravadoras de rap do Distrito Federal entre 1990 e 2000]
[Projeto Rapensando nas Escolas- acontece há mais 10 anos em escolas públicas do DF, aproximando alunos em situação de vulnerabilidade aos potenciais artísticos e sociais do movimento hip-hop]