PV - Paulo Cavalcante
Quem vê o progresso das carreiras de Murica e Puro Suco talvez não repare no trabalho de PV. Paulo Cavalcante é o homem dos bastidores: planeja, vende shows, organiza os trabalhos, divulga, negocia. Nessa conversa, PESO abordou o início da carreira, as habilidades necessárias a um produtor, planejamentos e a situação da cadeia produtiva no DF.
Entrevista por Thiago Flores via Whatsapp em 24 de outubro de 2020
Atualmente, você tem um trabalho importante de produção artística e executiva para dois artistas em ascensão, Puro Suco e Murica. Mas como você começou nesse segmento? Quais foram as suas primeiras experiências na área?
Comecei me envolvendo sem nenhum tipo de afinidade com música. Vou ser bem sincero, eu nem sabia que existia essa área de produção executiva, sacou?
Em 2016, eu fazia faculdade de administração e estava precisando de grana. Um brother me chamou para ser comissário de evento, ou seja, vender ingresso.
Fui lá e vendi. No segundo evento que ele me chamou, eu fiz um intensivão e vendi ingresso pra caralho. No dia do show, eu passei o dia inteiro vendendo ingresso.
Esse mano me falou depois que as minhas vendas evitaram um prejuízo de, pelo menos, 10 mil reais. Então, eu ganhei muito conceito com os caras. No próximo evento que teve, eles me chamaram para coordenar os comissários.
Acabou que eu nem coordenei tanto os vendedores, mas me envolvi com a parte da produção, ajudando nos corres. Foi aí que eu conheci essa área, tá ligado?
No ano seguinte, esse cara dos eventos e uns amigos dele abriram uma gravadora aqui em Brasília e me chamaram pra fazer parte, como assistente de produtor. Aí, eu fui pegando o feeling das paradas, vendo algumas demandas, entendendo como as coisas funcionavam.
Em 2018, eu saí dessa gravadora e comecei a trabalhar solo, com o Portela e o Mate, do Semblunt MCs. O Murica chegou a ser dessa gravadora também por um curto período, a gente se conheceu lá.
Foi assim que eu me inseri, mano. Desde então, tenho feito sozinho, tentando me profissionalizar, estudar. Vou me formar em Publicidade, ano que vem. Então, grande parte de tudo que aconteceu, é embasado na academia também.
Para uma pessoa leiga, mas interessada em trabalhar com produção de um artista, como você descreveria suas atividades profissionais?
Meu trabalho atualmente é de produção executiva e agenciamento artístico.
A produção executiva diz respeito às coisas mais cotidianas da carreira do artista. As coisas precisam ser feitas. Se não consigo resolver, eu tenho que arrumar quem faça. Essa é a função do produtor né.
Você precisa chegar de A até B, achar um jeito para fazer isso. Se você não sabe, arruma parceiros. Aí entra o networking, que as pessoas tanto falam da importância para essa função. Nessas horas que você precisa de braços pra fazer as coisas acontecerem.
A parte de empresariamento artístico diz respeito à gestão de carreira. Um olhar mais amplo: estratégias de lançamento, estratégias de carreira a longo prazo e uma outra parte fora do artístico, a questão do gerenciamento da empresa.
Sou eu quem gerencio o Murica e o Puro Suco enquanto empresas. Todas as demandas: gestão financeira, jurídica, estratégica; relacionamento com marcas, tour manager. Tudo.
Nessa parte da execução das demandas cotidianas, quais são os principais desafios para você que lida com artistas crescendo, mas em início de carreira?
Eu acho que o nosso maior problema agora é devido ao momento de carreira que a gente se encontra.
A gente entende o quão caro é o serviço de certos profissionais e quão bem eles deveriam ser remunerados. É foda pra gente que trabalha com arte, que ama a parada, chamar esses profissionais para trabalhar no amor, porquue a gente não tem o suficiente para remunerá-los. Mesmo sabendo que o trampo deles é foda, que eles precisam. Se é foda pra gente, pro cara deve ser mais ainda, sacou.
É complicado não ter tanto recurso no começo, mas algumas barreiras estão se quebrando. Os trabalhos estão prosperando cada vez mais, novos contatos, novas possibilidades. Às vezes, não na velocidade que a gente gostaria né, mas estão acontecendo.
Eu acredito que as dificuldades que nós enfrentamos hoje sejam naturais do processo. Daqui um tempo, vão ser outros problemas.
Que tipo de capacidades, habilidades ou conhecimentos um bom produtor precisa ter?
Antes das habilidades, eu falaria de disposição. Você tem que ser uma pessoa muito disposta a querer resolver as coisas. Você tem que ser uma das pessoas mais interessadas no resultado, precisa estar interessado na qualidade final daquele processo. Essa proatividade do produtor mantem o ecossistema funcionando.
Você tem que ser um ótimo comunicador, porque você depende de pessoas, você precisa saber se comunicar com elas. Você precisa ser um bom negociador.
Às vezes, as coisas são planejadas de uma forma e, do nada, a situação toda muda. Você não pode parar, não pode simplesmente mandar todo mundo para casa. Vai ter que fazer a parada acontecer.
Tem que ser criativo para enxergar, saber lidar. Seja num show, num clipe, fazer com o que você tem. Por isso, eu destaco a criatividade.
É muito importante um conhecimento de mercado, de marketing, se manter atento no que está acontecendo no mundo. Você precisa ter a visão de que o artista é uma empresa, é uma marca.
As carreiras do Murica e do Puro Suco tem progredido de uma forma bem interessante. A que você deve esses resultados?
É, mano. As coisas tem acontecido de uma forma rápida, até assustadora. Acho que a nossa maior diferença são a versatilidade e a bandeira que a gente carrega.
A versatilidade é compor em diversos gêneros. Isso faz com que a vida útil deles enquanto artistas dure mais. É algo mais eterno, porque a gente não está preso só na bolha do rap. A gente vai lançar um EP do Puro Suco que vai ter blues, jazz, rock, reggae. O Murica compôs blues já.
Essa diversidade mantem a gente vivo por muito tempo e abre a possibilidade da gente conquistar públicos muito grandes. A gente sabe dialogar com a galera da periferia e com a galera do Lago Sul, Lago Norte, sabe
As bandeiras que a gente carrega também são de suma importância no momento político que a gente vive. O Murica e o Puro Suco levantam os lados bons de ser brasileiro, exaltam referências que são importantes, que devem ser reverenciadas. Então, eu acho que esses são os principais pontos.
Como funciona o planejamentos desses trabalhos? Como é a equipe que trampa junto com vocês?
A gente tem tentado impor cada vez mais processos para as coisas saírem mais redondas. Alguns deles, a gente vai implementando no meio do caminho. Outros, eu consegui aprender, através de cursos, ouvindo os outros.
Existe um planejamento. De curto a médio prazo. A gente tem material programado, os principais passos desenhados até junho do ano que vem. Então, álbum, EP, essas produções maiores tem os processos mais controlados.
Hoje, a nossa equipe sou eu como empresário produtor, Murica e Peres como compositores e intérpretes, o MK como produtor musical. A gente tem o apoio da BC Music, que é onde a gente capta os nossos sons. A gente tem um time de designer, que entra eu também e o Raul. Tem a Bel Gandolffo, que é a nossa fotógrafa.
Tem várias coisas legais acontecendo. Durante a quarentena, o D2 ouviu o Murica na live dele. Isso possibilitou algumas coisas, abriu algumas portas pra gente, né.
Quais as maiores deficiências do mercado de produção cultural em Brasília?
Um dos principais desafios é a formação de uma rede de profissionais. Aqui é Brasília, a gente não tem presenças muito fortes, em diversas áreas necessárias para fomentar a Cultura. Em outras capitais, a gente tem isso claramente, tá ligado.
Por não ser uma cidade tão grande quanto São Paulo ou Rio, demograficamente, a falta dessas grandes empresas, faz falta exatamente nesse momento. Isso torna um pouco mais complicado, mano, se estabelecer e crescer aqui.
Chega um momento que você não tem aquela conexão maior pra você trabalhar aqui. Hoje eu entendo a necessidade de alguns artistas irem para São Paulo. Inclusive faz parte de nossos planos.
Outras coisas: por ser uma cidade planejada, tem diversos problemas com lugar para fazer evento. Os grandes eventos não são acessíveis para toda a população. Tem uma parte daqui do Distrito Federal não tem acesso a essas coisas, sabe. Essa galera também merece um evento de qualidade, também merece umas coisas grandes.
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Não vou puxar sardinha e colocar meus artistas não, mas vagabundo escreve bem demais