Professor Francisco Celso

Conversei com o diretor do Projeto R.A.P (Ressocialização, Autonomia e Protagonismo) sobre cultura prisional, potencial pedagógico do rap, reconhecimento e desafios
para à socioeducação.

Entrevista realizada via WhatsApp em 11 de junho de 2021


Você se lembra quando conheceu o rap do DF?
Consegue dizer quais foram as primeiras músicas e
os primeiros artistas que ouviu? 

Meu primeiro contato com o rap não foi com os rappers
do DF. Com 12 anos de idade, eu era DJ. Morava no Guará
e tocava em algumas festinhas. Sempre que eu tocava,
tinha gente que pedia os pesos, que era como se
chamavam os raps na época. Pediam muito Ndee
Naldinho e Racionais MC’s.

Os primeiros rap do DF que conheci foram GOG, Câmbio Negro e Cirurgia Moral. Esses foram os primeiros artistas que eu conheci da cena do rap do DF.

Quando você começou a utilizar o rap
em processos pedagógicos?

A partir de 2008, quando eu comecei a atuar no magistério público do Distrito Federal. Sempre atuei em regiões periféricas, onde o rap é muito presente.

Eu já tinha virado fã do rap do DF, principalmente do trabalho do GOG, que tem umas letras que trabalham muito as questões sociais. Quando eu ia abordar temáticas relacionadas, por exemplo, à questão racial, aos direitos humanos, eu recorria às letras do GOG, do MV Bil e de vários outros artistas.

Fala um pouco sobre a trajetória do projeto RAP. Como, quando e onde ele surgiu? Como se deu o início da aplicação e a reação do público alvo?  Quem já foi atendido pelo projeto?

O Projeto R.A.P (Ressocialização,Autonomia e Protagonismo) faz alusão ao gênero musical e surgiu no ano de 2015, quando fui atuar no sistema socioeducativo.

No sistema sócio educativo, 80% do socioeducandos se declaram negros e negras. 100% deles são das regiões periféricas do DF e do Entorno, onde não só o rap, mas a cultura hip hop é muito presente. Então, nas minhas aulas de história, eles não se identificavam com as histórias contadas nos livros didáticos, mas  se viam nas histórias narradas nas letras de rap.

Eu costumo dizer que não fui eu quem escolhi o rap
como ferramenta pedagógica, mas foram meus alunos
que escolheram. Eu, de repente, fui o camarada que teve
a sensibilidade de, como diz o Paulo Freire, perceber que eles não são copos vazios, mas, indivíduos que carregam letramentos que, muitas vezes, nós educadores
não carregamos. 

E eles carregavam essa potência com eles: o rap.
Eles carregavam esse letramento. O que eu fiz foi só amplificar esse conhecimento que eles já tinham com eles.

A gente atende, em média, 150 adolescentes por ano certo.
É muito rotativo, claro, tá sempre entrando e saindo adolescentes e isso dentro da unidade de internação de Santa Maria, mas o projeto hoje conta com várias ações. 

A gente faz também um trabalho preventivo nas escolas regulares. Então, por exemplo, antes da pandemia, no ano de 2019, eu visitei mais de 70 escolas. 50 delas em Ceilândia e mais 25 espalhadas por outras RAs, sempre locais de muita vulnerabilidade, de muita precariedade, de muita ausência do Estado: Fercal, Planaltina, Recanto, enfim.

E a gente faz também o trabalho de acompanhamento de egressos, então, quando eles terminam de cumprir a medida socioeducativa, a gente continua acompanhando. 

Que tipo de resistência você enfrentou ou enfrenta para usar
o rap como ferramenta educacional? Quem foram ou são os principais opositores dessa metodologia? Institucionalmente, ainda é difícil aplicar essa “filosofia de trabalho”?

Cara, as resistências foram enormes, porque o rap ainda é visto como som de bandido no imaginário social. Imagina trabalhar com isso dentro de um contexto de privação de liberdade, onde existem uma cultura prisional e uma cultura de punição muito fortes? 

Então, a gente sofreu desde boicote até perseguição mesmo. Quando a gente começou o projeto, eu fui o mentor intelectual, mas teve vários coautores, como Heitor Valente, a professora Nina Pedra e a Luana Euzébia. 

A professora Nina Pedra, por exemplo, foi bastante perseguida por ser, talvez, o lado mais frágil. Ela tinha
um contrato temporário, é uma mulher numa sociedade machista também. Então, ela foi acusada de uma pá de coisa sem fundamento nenhum,sabe? Com o passar do tempo, quase tudo foi resolvido. O projeto foi ganhando notoriedade e nada do que acusaram ela foi comprovado. 

A gente passou por vários boicotes. Às vezes, a gente planejava uma atividade, um sarau. Estava tudo pronto
e os agentes não retiravam os adolescentes para participar da atividade. A gente fez um trabalho de formiguinha,
de conquista, trazendo as pessoas para o nosso lado.

A gente sofreu resistência até do próprio grupo de professores. É importante dizer que a nossa educação ainda é muito conservadora e isso reflete no grupo de professores também. Tem muitos professores que olham torto para quem é adepto das metodologias ativas. Então, teve resistência
de tudo que é lado, na verdade.

O projeto foi ganhando notoriedade, visibilidade, foi ganhando reconhecimento. Então, até as pessoas que torciam o nariz antes, hoje, já tem um olhar diferente
para o projeto.

A ressocialização de jovens em conflito com a lei depende
de inúmeros fatores para ter sucesso. Quais são as maiores dificuldades nessa atividade? Quais as principais carências desse sistema? 

Existem vários problemas no sistema socioeducativo.
A estrutura física mais parece um presídio e não deveria ser assim.  A questão da cultura que, ao invés de ser um espaço socioeducativo, como diz o nome, ainda carrega muita cultura prisional.

Mas, eu acredito que o maior dos problemas do sistema socioeducativo hoje é a falta de uma política pública
eficaz de acompanhamento de egressos. 

Enquanto eles estão lá dentro, a gente consegue pesar
na mente deles, utilizando a linguagem até dos próprios meninos [mantê-los afastados do crime]. Mas, quando eles saem, eles voltam para o mesmo ciclo de negação e de violação de direitos que eles estavam anteriormente.
E ainda voltam rotulados para a sociedade. Esse é um
ciclo muito difícil de romper.

Não existe nenhuma política pública eficaz, né. Eles voltam pra mesma quebrada, com o mesmo ciclo de violência. É como se eles fossem invisíveis para o Estado antes de entrar pro ciclo infracional. O estado os enxerga quando eles erram. E enxerga só para punir. Quando eles saem, ele voltam a ser invisíveis para o Estado novamente. 

Você e o projeto têm conquistado reconhecimento do
público, das instituições especializadas e do próprio Estado. Quais foram as premiações/menções/indicações mais importantes, na sua opinião? 

Primeiro, a gente recebeu o prêmio Itaú Unicef, em 2017, a etapa local. No ano seguinte, a gente recebeu o mesmo prêmio nas etapas regional e nacional.

 Em 2019, a gente teve o videoclipe 18 Razões pelo Não Maioridade, exibido no 52º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. Nós participamos do documentário chamado Egressos. Fizemos uma campanha nacional para o Conselho Nacional de Química, chamado Rímica, Rima com Quimica, em homenagem aos 150 anos da tabela periódica. 

No ano de 2020, a gente recebeu o Prêmio de Práticas Inovadoras na Educação Pública do Distrito Federal. Recebemos também o prêmio Brasília Cultura 60. Eu fiquei entre os 50 melhores professores do Mundo pelo Global Teacher Prize, que é considerado o Nobel da Educação. Recebemos também, por conta do curta metragem Sobrevivendo no Inferno, um prêmio na Rússia, chamado The Ring of Peace.

Em 2021, a gente recebeu o prêmio BSB 2060, com a música Fora do Eixo.

Existe um mito, presente até hoje, que diz que determinados raps ou funks fazem apologia ao crime. Você acredita nisso? A vida pode imitar a arte, nesse sentido? Ou a arte imita a vida?

Infelizmente, eu acredito que, em alguns casos, sim. Como foi noticiado recentemente, dois jovens lá de Sobradinho estavam vivendo da economia do tráfico e faziam rap para, digamos assim, alavancar seu negócio. 

Infelizmente, existem sim, essas exceções. Mas a gente não pode colocar isso como regra.  Eu, sinceramente, nem chamo isso de rap.  Porque o camarada que faz isso, com certeza, não conhece a história do rap, não conhece a história do movimento hip-hop. 

Se você pegar as origens, o rap e do hip-hop surgiram
como forma de denunciar a dificuldade da vida na pobreza,
a violência, policial, o racismo. Claro que, nas letras, aparece a droga, a arma, o crime, mas como denúncias, não como formas de incentivo, como apologia. 

Se você pegar as letras dos Racionais, do Eduardo Taddeo
ou dos chamados gangsta rap, você vai ver que é isso: 
eles cantam a realidade. Se na periferia não tem saúde, educação, emprego, moradia, mas tem arma e droga,
eles vão cantar a realidade

Quem são os seus artistas preferidos do rap do DF?

Eu tenho o privilégio de falar meus artistas preferidos da cena do rap do DF  são meus amigos hoje. Posso citar o GOG, o Japão, do Viela 17, a Vera Verônika, Heitor Valente, nosso querido Sandroxx, que nos deixou recentemente, Markão Aborígene, Quadrilha Intelectual.

Enfim, essas são minhas principais referências aqui na cena do rap do DF.

TOP 5 Faixas ou álbuns de Rap do DF - Basta indicar 5 que sejam especiais para você. Não precisa ranquear.

Câmbio Negro – Subraça
GOG – Carta à Mãe África
Heitor Valente – Contra fluxo
Sandroxx – Risos e Lágrimas
Viela 17 ft Look e Vadioslocos – Só Curto O Que é Boom