NENZIN
Rimador, apresentador, professor. Nenzin é um personagem muito presente na cena do rap brasiliense. Conversamos sobre influências musicais, A Arte de Rimar, potências da batalha de rima e saúde mental.
Entrevista por email feita por Thiago Flores em 14 de janeiro de 2022
Você nasceu no DF? Cresceu aqui? Em qual ou quais quebradas?
Sou nascido e criado em Ceilândia Norte.
Como foi sua relação com a música na infância e adolescência? Se lembra quando o rap chegou?
A música sempre esteve presente na minha vida, de forma direta e indireta. Minha avó tinha um bar aqui mesmo em Ceilândia e eu sempre observava e curtia o que rolava de som por lá. Uma das minhas maiores influências na música vem de um artista que sempre tocava no bar, o Adoniram Barbosa.
Além disso, meu pai, com quem tenho pouco contato, é cantor de forró. De certa forma, tenho a música no sangue.
Comecei com a música cedo, por influência de um primo. Aos 5 anos, já tínhamos um grupo de funk, o que me levou a fazer shows em trios elétricos, casa de shows e outros picos.
No rap, eu comecei no ano de 2010, com o grupo Surgindo do Gueto, a convite de um amigo. Desde o começo, eu sabia o quanto aquilo era importante pra mim! Gravamos 3 CDs em 2 anos.
E as batalhas de rima? Quando e como entraram na sua vida?
As batalhas de MCs foram um marco muito importante na minha vida, em todos os sentidos possíveis! Me formaram como artista e como pessoa. Me ensinaram muito sobre respeito e educação, além de terem me dado a oportunidade de viajar para outros estados representando o DF.
No ano de 2012, eu conheci as batalhas de MCs, através da batalha “Calango Pensante”, que acontecia de forma mensal no América Rock Club, em Taguatinga. Em 2013, tive a oportunidade de representar Brasília no Desafio BH x DF, uma das batalhas mais importantes da época, quando eu me apresentei pro cenário nacional.
A rima me levou a lugares inimagináveis, mas, sem dúvida, o mais inusitado foi a um jogo de Copa do Mundo, no ano de 2014.
Fala um pouco sobre a cena das batalhas de MC no DF. De quando são os primeiros registros de batalhas? Quais são as mais importantes e quem são os personagens mais relevantes dessa caminhada?
A cena das Batalhas de MCs em Brasília tem registros desde 2010, com o evento Microfonia. Acontecia sempre no Parque da Cidade e os mc’s se reuniam pra fazer freestyle.
Acho que a batalha mais importante para Brasília foi a do Calango Pensante, em abril de 2010. A batalha teve um impacto gigante, porque mostrou a necessidade de fazermos mais batalhas. No dia, se inscreveram 32 MCs para 16 vagas. Fui um dos que não teve a oportunidade de rimar no dia.
Semanas depois, o MC Zen teve a iniciativa de criar a Batalha do Museu, no mesmo local onde rolou o Calango Pensante.
A cena da capital tem muitos nomes importantíssimos ao longo dessa caminhada, alguns deles são: Ahoto, Biro Biro, Nauí, Mocotó, DJ Liso, Hugo Drop, DJ Jean, Dejah, entre outros. As batalhas mais relevantes hoje são: Batalha do Museu & Batalha do Relógio.
O vocabulário é essencial para o freestyle. O que você consome para enriquecer seu repertório? Que tipo de literatura você curte, que obras te marcaram?
Sempre tive a leitura como uma aliada para o crescimento do meu vocabulário. O livro mais marcante pra mim foi Os Miseráveis, de Victor Hugo. Me marcou muito pelo fato de ter sido o primeiro que li na infância.
Para enriquecer o vocabulário, a leitura é muito importante, em todos os sentidos: desde jornais, livros a até mesmo placas de publicidade. A leitura é um universo enriquecedor, te traz palavras que você nem imaginava que existiam. E essa palavra sempre vai rimar com alguma outra, eu acho isso incrível!
E influências musicais? Em relação à sonoridades e em relação a sua performance? Quem você apontaria como inspiração?
Os artistas que me influenciaram vieram de outros ritmos. Sempre fui um amante de música e isso me levou a conhecer todo o universo musical. Com isso minhas inspirações fazem uma viagem por ritmos e uma viagem ao tempo.
Alguns dos artistas que sou fã são Adoniran Barbosa, MC Guimê, Bad Bunny (porto riquenho que se destaca tanto com o reggaeton quanto com o trap), o canadense Drake e, por último, mas não menos importante, o artista Criolo.
Assisti a vários episódios do projeto A Arte de Rimar. Como foi a concepção dessa iniciativa? Como chegaram aos temas e aos convidados?
Esse projeto nasceu em 2013, com um convite para uma aula de rima na escola em que eu estudava no dia da consciência negra. Naquele momento, vi que rima era mais que um talento, era algo que poderia ser ensinado. A partir disso, fui aprendendo mais e me especializando na arte da rima, até chegar no resultado do projeto.
A Arte de Rimar já me trouxe frutos incríveis como uma turma na Universidade de Brasília (UnB), me levou a escolas de Belo Horizonte, me levou para um festival em São Paulo e até a sede oficial da Red Bull.
Os temas das aulas foram divididos em pontos que eram mais importantes na parte teórica, pra facilitar o momento da prática. Se você conhece sobre o que se está falando, o seu raciocínio lógico funciona de forma mais rápida e inteligente. Foram cerca de três anos praticando até chegar numa sequência certa dos temas.
Como rapper, como você descreveria a sonoridade do rap produzido no DF entre 1990 e 2000, que colocou Brasília na cena nacional? Você acha que as obras de GOG, Jamaika, Alibi, Cirurgia etc tem alguma coisa em comum?
O diferencial é uma identidade sonora que só existe no Rap DF: o verdadeiro grave! Os olhos do Brasil se voltaram para a cena do DF por esse diferencial. As letras do Rap sempre foram impactantes e as vozes marcantes. Isso que tornou o RAP DF gigante!
Quais as principais transformações entre o rap que era produzido nos anos 90/00 e o que é produzido atualmente?
Musicalmente, Brasília sempre teve um forte impacto tanto em rappers, quanto em produtores. Um exemplo de produtor é o DJ Raffa, que marcou gerações e fez escola para novos produtores que nasceram na cena do Rap DF.
Todo o mercado musical evoluiu. O rap foi um ritmo que abriu espaço para outras vertentes dentro do próprio gênero. Hoje vemos muito Trap, Drill, Crunk e diversos outros estilos.
Dá pra construir uma carreira sustentável sendo um mc de batalha ou somente raras exceções conseguem?
Hoje, as batalhas são uma das maiores vitrines para alcançar um patamar mais alto. A visibilidade das batalhas de mcs chegam a números incríveis na internet. Os MCs que saem da batalha hoje tem uma carreira musical sólida.
Um exemplo atual é o rapper Xamã, número 1 das paradas musicais do Brasil, desbancando até mesmo o sertanejo. Xamã é um mc que veio das batalhas de mcs e dos Slams de poesia.
Como o universo da batalha e o universo do estúdio influenciam na sua carreira? Existem facilidades ou dificuldades que você leva de uma vivência para outra?
Os dois caminhos se encontram. O fato de fazer freestyle é um dos pontos positivos na hora de gravar no estúdio. A criação de letras, a variedade de flows, a técnica, o tempo do beat, são coisas que as batalhas acabam fazendo você exercer sempre e isso te dá uma facilidade no estúdio.
Neve é um doc musical bem sensível. Você teve a idéia da temática? Qual foi a motivação para abordar esses assuntos? Como foi o feedback das pessoas que assistiram?
Neve é o ponto mais alto da minha carreira. Tive sensibilidade após um momento no qual adoeci e tive depressão. Quando me recuperei, vi o quanto é difícil e doloroso passar por isso. Queria ajudar as pessoas à minha volta a sair dessa situação.
E nada que seja mais eu do que a música. A forma de me comunicar com os meus é a música. Neve é um desabafo do meu momento. No documentário, quis trazer outros personagens que tiveram um momento de dificuldade, passaram pela depressão, mas conseguiram dar a volta por cima.
O feedback foi o mais incrível possível. Muitas pessoas vieram conversar comigo sobre o quanto o filme foi importante pra elas e o quanto as ajudou a se abrir com alguém, procurar ajuda profissional. Isso foi algo satisfatório como artista e mais satisfatório ainda como uma pessoa que passou pelo mesmo!
Através do Neve, recebi um convite para uma campanha chamada “O Silêncio Mata”, campanha que dava assistência psicológica para as pessoas que acompanharam o documentário!
Quem são os novos artistas do DF que você acha que irão despontar local e nacionalmente?
Rach, Fugazzi, Gomes, Dandara, Gabiru, Taliz, Hate, Bless 97, Israel Paixão.
Na sua opinião, quem são os personagens mais importantes desses quase 40 anos de rap no DF?
Japão Viela 17, Ahoto, Max Maciel, Antonio de Padua, Gog, Natalia Botelho.
Top 5 Nenzin- faixas ou álbuns do rap do DF especiais para você. Não precisa ranquear.
Viela 17 ft. Look e Vadioslokos - Só curto o que é bom
Tribo da Periferia - Marciano
Rafael Pereira - Amores e Crenças
GOG - Quando o pai se vai
Atitude Feminina - Rosas
Referências
[ Calango Pensante- Uma das primeiras batalhas de rap do Distrito Federal, teve sua primeira edição em 2010. Realizada inicialmente no Conic, com produção do Coletivo Espírito Urbano de Samambaia e apresentada por MC Ahoto. Contribuiu para popularizar e incentivar o freestyle local e deu origem a diversas outras iniciativas.]
[ Desafio Brasília x BH- Evento inaugurado em 2012, com batalhas entre mcs da capital federal e da capital mineira. ]