Natália Botelho

Conheci a Natália pelo trabalho que ela desenvolve junto ao Jovem de Expressão e ao R.U.A.S, iniciativas pelas quais tenho imensa admiração. Aos poucos, fui descobrindo mais sobre a trajetória desta pedagoga e produtora cultural, com trabalhos consistentes com Tati BellaDona e Nenzin.

Nessa conversa, debatemos as relações de educação e cultura; efeitos do machismos; desafios da cadeia produtiva da Cultura em Brasília; e possibilidades profissionais no rap.

Entrevista por Thiago Flores, por email em 25 de março de 2021.

Foto: Rafael Barroso


Como você se tornou produtora cultural? Fala um pouco da sua jornada até seu momento profissional presente.

Em 2015, eu organizei um evento cultural na Santa Maria (DF) para a organização política da qual eu fazia parte. Nesse evento, teve uma participação da Batalha da Santinha e também shows de rappers da cidade, inclusive do GOG.

Em seguida, o organizador da Batalha me chamou para ajudá-lo a organizar as edições mensais do projeto. A partir daí, eu passei a colaborar com a organização da Batalha, desde as filmagens à captação de parceiros/patrocinadores.

Na mesma época, abriram as inscrições para a oficina de Produção de Eventos do festival Elemento em Movimento. Para aprimorar meus conhecimentos, me matriculei no curso que durou três meses. Em seguida, fui voluntária na equipe do Festival.

Quando finalizei o voluntariado no Elemento em Movimento, co-criei um coletivo de produção de eventos chamado “Pé de Ipê”. Junto às minhas colegas do curso de Produção de Eventos, nos propusemos a prestar serviços de produção executiva para eventos culturais. Por meio do coletivo Pé de Ipê, ainda no ano de 2015, participei do “Satélite 061”, “Festival Internacional de Danças Urbanas Batom Battle” e “Festival Brasília de Cultura Popular''.

Com a experiência na área de produção de eventos, tive a oportunidade de participar de novos projetos nos anos seguintes, tais como “Brasília Rock de Arena” (2016), “TEDx Brasília (2016)”, “Móveis Convida Edição PicNik” (2017), “Festival Taguatinga de Cinema” (2017) e “Festival Porão do Rock” (2017).

Em 2018, fui convidada a fazer a produção local do projeto “Festival Internacional Pequeno Cineasta” (RJ), e em seguida fui contratada para trabalhar na produtora Desvio Produções, com Teatro e Gestão de Projetos. Foi um ano e meio trabalhando nessa produtora até que, em Junho/2019, a RUAS me convidou para trabalhar na Rede como Produtora Executiva dos projetos da organização. Atualmente, continuo trabalhando na RUAS.

Em paralelo a todas essas prestações de serviço, venho elaborando e executando projetos próprios desde 2018. 

Como você aprendeu a realizar essas ocupações? Realizou algum curso ou foi na prática? Como foi seu processo de profissionalização?

Inicialmente, minha formação foi no programa Jovem de Expressão, a partir de lá conheci muitas produtoras que me possibilitaram formação continuada através da prática. Fui estagiária da produtora Marta Carvalho (Satélite 061), entre outras profissões de estágio e voluntariado na área. 

Mas busquei também formação complementar na área: Em 2017 fiz cursos na Vila de Produções (SP), muitos cursos ofertados pelos festivais do DF e em 2020 fiz dezenas de cursos online, focando especificamente em políticas públicas para cultura.

O machismo é um traço muito profundo e generalizado na nossa sociedade. Como ele se manifesta na sua área de atuação?

O machismo está muito presente no mercado de produção de eventos: desde o colega de trabalho ao artista que eu contrato.

Muitas vezes, vemos o tratamento diferente quando a produção é feita por uma mulher. Não aceitar posicionamentos firmes, por exemplo, é uma ação comum. Além do assédio moral e sexual, né?! Homens que acham que você está na função por outros motivos que não sejam a sua competência.

Uma forma de combater esse machismo é fortalecer as mulheres da cadeia profissional: contratar mulheres para cargos de chefia (em todas as áreas, incluindo as funções mais “físicas” como roudagem), valorizar o trabalho das mulheres, buscar artistas mulheres…

Que tipo de habilidades e conhecimentos são importantes para um produtor?

De início, acredito que vontade e paciência para aprender através da prática e observação são fundamentais. A partir disso, você vai desenvolvendo as habilidades necessárias para cada área que você pretende se especializar. 

No geral, proatividade e organização fazem com que você consiga se desenvolver bem no mercado de eventos. A tranquilidade em lidar com imprevistos é um diferencial.

A música negra, o rap e a cultura hip-hop são um foco da sua carreira? Sempre foi sua intenção trabalhar com essas vertentes?

Hoje, meu foco é trabalhar com políticas públicas de juventude nas periferias, então o hip-hop atravessa todo o meu trabalho, assim como a questão racial.

É, sim, uma área que pretendo continuar trabalhando, utilizando a cultura hip-hop como ferramenta para trabalhar com diversas linguagens artísticas além da música: as artes visuais, por exemplo está no meu radar para criar essas conexões por meio do hip hop.

Não planejei trabalhar com hip-hop. Acredito que foi um caminho natural, por conta da minha organização enquanto pessoa política.  E o RAP faz parte do cotidiano cultural do DF e Entorno, representa minha realidade e me reconheci nessa manifestação cultural.

Você acha que o mercado de eventos em Brasília é capaz de promover e sustentar carreiras artísticas, especificamente, de rappers/MC 's? Você acha que existe um circuito de rap no DF? 

Não, rappers e MC’s não conseguem se manter apenas com o mercado local. Temos algumas poucas exceções, mas podemos ver que o artista precisa circular em outras cidades e regiões  para firmar a carreira como é o exemplo de Tribo da Periferia, Froid, Hungria, Flora Matos… Ou trabalhar em projetos para além da sua própria música...

Quais as principais deficiências e qualidades do circuito cultural, mais especificamente de rap, do DF?

Como qualidade, acho que o DF produz uma música singular, que se destaca no Brasil todo. O “grave” é característico do RAP da geração ‘00 e antes disso o RAP de mensagem já fazia o diferencial na cena nacional. Hoje a gente tem uma cena underground muito bonita e com produções musicais elaboradíssimas, qualidade no trampo mesmo…

Como deficiência, sinto falta de selos e produtoras que tenham interesse em criar uma rede de suporte para os artistas daqui. Todo mundo trabalha de forma independente e isso dificulta a caminhada, mas vejo uma movimentação para criar esses selos a exemplo da “Madre Calle”… Aposto muito nessas redes para impulsionar o Rap DF.

Vi no Instagram que seu trabalho de conclusão de curso na UnB fala sobre as possibilidades de atuação de pedagogues em práticas culturais. Que tipo de relações você pode apontar entre Pedagogia e Produção Cultural e que considerações você poderia fazer sobre esse trabalho?

Na minha pesquisa, eu busquei demonstrar que pedagogues cabem em todas as áreas de conhecimento como mediadores de processos educativos. Na Produção Cultural, eu vejo pedagogues como profissionais qualificades para pensar programações, curadorias e aprimorar a comunicação de processos artísticos. Na minha concepção, projetos culturais, obras artísticas são formas de expressar visões de mundo, e a pedagogia, especialmente a que eu defendo que é uma Pedagogia Crítica e Libertadora de Freire, intervém para potencializar a ações culturais que são manifestações  identitárias e políticas das pessoas.

Quais foram os seus principais trabalhos com rap/hip-hop?

Acho que tenho grandes trabalhos por óticas diferentes no meu currículo.

Considero que meu projeto junto à artista BellaDona, o álbum e clipe Madame lançados em 2020, foi um marco na minha carreira. Foi o primeiro projeto em que fui responsável pela concepção e execução de todo o projeto. Projeto grandioso por ser de quem era: BellaDona, uma pioneira do RAP DF, tem uma trajetória incrível. 

Trabalhar com uma artista que tem seu público, seu mercado, era uma experiência que eu ainda não tinha vivido. Assim como realizar, também com a BellaDona, um show de RAP no Réveillon da Esplanada em 2019. Foi incrível fazer um show tão grande, no centro do Brasil, com um público tão receptivo.

Outro destaque que faço é o meu trabalho com o rapper Nenzin, a gente tá agora com a oficina A Arte de Rimar em formato online. É um projeto que está muito bonito tecnicamente falando, a produção audiovisual feita pelo Diego Sales ficou incrível, e por ser algo inovador a nível nacional no RAP Freestyle, acredito que deixará muitos frutos pro futuro.

Qual foi o seu envolvimento com a R.U.A.S / Jovem de Expressão? Qual a importância e os potenciais desse tipo de iniciativa para a juventude, principalmente periférica?

A RUAS é uma grande rede de ações, com muita gente trampando junto pra realizar…

Hoje estou como Produtora Executiva na RUAS, então colaboro com o funcionamento do Jovem de Expressão nas atividades cotidianas que a gente realiza: oficinas, eventos, campanhas… Bem como produzo os eventos e as outras frentes que a RUAS impulsiona: Festival Elemento em Movimento, RUAS Convida, Galeria Risofloras…

O trabalho que a RUAS faz é essencial na Ceilândia e DF. Falo isso como jovem que iniciou todo esse trabalho como aluna do Jovem de Expressão. O Jovem de Expressão é hoje o único espaço de juventude que fica aberto todos os dias da semana. Tem oferta de cursos, atividades culturais, espaços compartilhados, terapia comunitária, enfim, são muitas atividades propostas e acho que a singularidade está na representatividade e acessibilidade das atividades. 

Somos nós, jovens periféricos, quem tomamos a frente das ações, e em uma perspectiva não-utilitarista. Então, quem conhece o Jovem e as outras ações da RUAS sabe que não vai chegar lá e ter um monte de pré-requisitos para que você possa se integrar ao espaço. Sabe que se quiser ir pro Jovem ficar sem fazer nada, descansar, encontrar os amigos, nossas ações são espaços seguros para isso, sem moralismo ou proposta de "quem fica a toa é vagabundo". 

A ideia é ocupar e ressignificar a periferia como lugar afetivo e seguro para todes nós vivermos e sermos potência criativa e realizadora da nossa história.

Você curte o rap do DF? Conhece os artistas mais antigos, que colocaram o rap daqui no mapa, na década de 90?

Escuto muito RAP DF. Antes mesmo de entender o significado dessa cultura para a minha identidade, grupos como Pacificadores e Guindart 121 fizeram parte do meu cotidiano. Ser contemporânea de rappers como Vera Veronika, GOG, X Câmbio Negro e Japão é uma honra muito grande, sempre aprendendo muito com quem constrói essa história há muitos anos.

Assim como a nova geração é presente nas minhas playlists, sou fã dos meus amigos, graças às deusas.

Muitos dos artistas de rap do DF surgidos na década de 90 são pouco reconhecidos, passam por dificuldades financeiras e perderam relevância comercial atualmente. Na sua leitura, quais motivos construíram essa condição? Existem alternativas para alterar esse quadro?

Difícil fazer essa análise. Acho que cada história tem suas particularidades. É importante dizer que isso acontece em todo o Brasil: referências do HIP HOP muitas vezes estão fora do mercado comercial nacional.

Em âmbito distrital, cito novamente a questão de que a inexistência de produtoras e selos no DF acaba por  dificultar a carreira dos artistas. Correr independente a vida toda é foda. Ainda mais em tempo de tudo tão virtual e tecnológico: redes sociais, streaming. O artista se vê obrigado a ser multifuncional.

Acho que o RAP DF '90 não acompanhou algumas mudanças geracionais no mercado da música. Do CD físico para a importância de relevância nas redes sociais. Não acho que o problema seja ser RAP de mensagem como algumas pessoas apontam.

Você participou diretamente da concepção do projeto Arte de Rimar, do Nenzin. Como foi a elaboração dessa iniciativa? O que é exatamente o projeto e como está sendo a execução dele?

A Arte de Rimar é um projeto que foi criado a partir de um trabalho que o Nenzin já realizava, que era oficina de freestyle em escolas, faculdades, espaços de medidas socioeducativas. Em 2020, a gente reformulou para organizá-lo em um formato mais longo, porque antes era uma oficina de apenas um dia. Criamos novo nome, nova identidade, com projeto pedagógico e elaboramos para acontecer em um formato online a partir de episódios, e também em formato presencial, com duração de 8 aulas. 

O formato online estreou no início de março/21 e estamos lançando 2 episódios por semana. Estou muito satisfeita com o resultado. A gente teve uma equipe muito qualificada na produção que foi o Diego Sales, Mariana Gomes e Gabi Zoe. MC’s muito importantes pra história do freestyle do DF e do Brasil, roteiro escrito pelo Nenzin, e uma execução muito afetiva porque sem dúvidas foi feita entre amigos e parceiros de trabalho de longa data. 

Pra mim é “especialmente especial” esse projeto porque eu gosto muito de assistir batalhas de rima. Sou real fã dos MC’s que estão no projeto e quando eu assistia as batalhas de MC’s em 2015 eu não imaginava que em 2020 eu estaria trabalhando diretamente com a arte que tanto admiro.

Na sua visão, quem são os novos artistas de rap daqui com mais chances de despontar local e nacionalmente?

Tem muita gente boa trabalhando…

Realleza, Nenzin, Murica e Puro Suco, Biro Ribeiro, Talliz, Ediá… 

TOP 5 Músicas ou Álbuns da Natália- Não precisa ranquear. Basta citar 5 faixas ou discos do rap do DF que sejam especiais para vocês.

Froid e Cynthia Luz- Sol

BellaDona- Madame

Tribo da Periferia- 4º Último

GOG- Genival Oliveira Gonçalves

Murica- Fome

Referências

[R.U.A.S - Rede Urbana de Ações Socioculturais- conjunto de iniciativas de transformação social e comunitária do Distrito Federal, com atuação nos eixos de: esporte e cultura urbana, empreendedorismo juvenil, políticas públicas para juventude periférica, mobilidade urbana e direito à saúde, saúde e prevenção.]

[Jovem de Expressão- O programa promove oficinas culturais e de comunicação comunitária, construídas com base no empreendedorismo, realiza o Fala Jovem que é um espaço onde os jovens dividem seus receios, suas preocupações e suas propostas para uma convivência social melhor. O jovem de Expressão criou o Laboratório de Empreendimentos criativos e lançou o 1º edital de coletivos do DF]

[Festival Elemento em Movimento- um dos maiores festivais de música e cultura urbana do Distrito Federal. Com entrada gratuita, já recebeu grandes atrações nacionais, como Àttøøxxá, Baco Exu do Blues, Câmbio Negro, Ponto de Equilíbrio e Tássia Reis]

[Marta Carvalho- Negra e periférica, é uma das mulheres mais influentes na produção cultural do país. Curadora da Natura Musical 2020, palestrante do Womens Music Event, produziu projetos de grande expressão nas áreas de cinema, música, teatro, dança e formação de jovens. Idealizou o Festival Satélite061, o Conexões Urbanas Impressões Femininas na Cultura de Rua, e o Movimento Diversa]