MURICA
Colei duas vezes na casa de um dos nomes mais promissores do rap do DF. Conversamos sobre paternidade, sensibilidade no rap, boombap, Caetano Veloso, a parceira com MK, novos caminhos do rap do Distrito Federal e estratégias de carreira para o futuro.
Entrevistas em 12 de fevereiro de 2020 e 27 de outubro de 2021
Você é pai de um menino de 2 anos e pouco. Como a paternidade influenciou a sua arte?
Eu enxergo a minha produção artística como um quadro quase sem diferença da minha vivência, da minha pessoa. Eu procuro não separar muito. Pelo contrário, eu procuro aproximar cada vez mais esse dois: o Murilo e o Murica, né.
Então, assim como a paternidade transformou minha vida, inevitavelmente, transformou minha arte. O filho mudou minha consciência, mudou a minha emoção em relação a muita coisa.
A gente começa a olhar para os nossos pais diferente. A gente começa a olhar para o filho dos outros diferente. Você lembra que todo mundo é filho de alguém. Então, muda sua relação com todo mundo.
O sacrifício por um filho é absurdo, é uma parcela muito grande de você. Esse sacrifício é no sentido de depositar seu tempo, seu coração, sua atenção onde vai edificar. Cuidar de um filho é deixar um ser humano melhor para a posteridade aqui nesse mundo que a gente vive.
Então, meu rap ganhou outro teor, com certeza. Minhas ambições dobraram de tamanho: minha gana, minha vontade de trabalhar, de ir para o estúdio, de fazer alguma coisa que dê um sustento pro meu filho, mas que dê um sustento para a alma mesmo. Que ele possa olhar e falar: “olha o que meu pai fez, olha o que ele conseguiu produzir.”
Eu acho que é isso: eu procuro em cada disco, em cada rap, deixar uma coisa como se meu filho fosse abrir aquele bauzinho do tesouro e ver. Eu me preocupo muito com a opinião futura dele. Que eu nem sei qual vai ser ainda, mas tem essa preocupação.
Seu filho se chama Caetano e você já fez diversas referências ao artista baiano no seu trampo. Qual é a importância do Caetano Veloso na sua vida?
Então, eu conheci mais a fundo o Caetano Veloso no meu Ensino Médio, quando eu fui estudar pro vestibular e fiz o PAS. Aí, eu conheci as obras. Pá: Tropicália. Eu falei: “Para tudo, caramba. Olha isso. Olha o som desse cara. Olha o que ele está falando, olha quantas coisas
A importância da música do Caetano na minha vida foi a seguinte: está tudo bem em ser sensível, tudo bem falar de poesia, tudo bem falar das cores.
As coisas que eu passei na minha infância e na minha pré-adolescência, o próprio rap que é a linguagem, muitas vezes, da revolta, da rebeldia, da contestação, da crítica, da cara de mal, me fizeram ir por outro caminho. E o som do Caetano, a MPB e a música brasileira me fizeram resgatar essa sensibilidade, talvez.
O Caetano Veloso me mostra o lado poético da vida. Não que no rap, nem em tudo isso que eu falei não tenha poesia. Caetano me apresentou um Brasil, a história da Bahia, referências que hoje em dia eu procuro mais e mais, tá ligado?
Depois que eu colei na Bahia, eu entendi o Dorival Caymmi, o Jorge Amado, os Capitães de Areia. Você sente, como é louco véi, como Salvador é uma cidade espiritual. É a cidade mais preta fora da África. É muito louco isso. Um sincretismo absurdo.
Você tocou num ponto importante e pouco debatido no rap: a sensibilidade. Como o universo do rap reage a essa sua sensibilidade poética?
Eu sinto o seguinte: quem ainda não entendeu qual é a do rap tem essa resistência contra a sensibilidade, contra as coisas mais doces, vamos dizer assim. Mas é aquela que o Mano Brown fala: “diz que homem não chora,tá bom, falou. Jesus Chorou”
O Mano Brown foi um cara sensível quando ele falou disso. Eu não sinto nenhum constrangimento, porque tem que ser muito forte pra mostrar a fraqueza sem nenhum problema, pra demostrar sensibilidade.
A Clarice Lispector fala uma frase: “eu choro e respeito muito homem que chora”. O Neto Síntese também disse isso: “Onde escorrem lágrimas, existe vida” .
É isso, véi, poder colocar as coisas do coração no rap. Eu acho que a arte, como um todo, não só o rap, evoluiu pras questões da alma mesmo, do psicológico, do mundo de dentro, tá ligado? Eu acho que tem esse movimento de olhar pra dentro e eu só sigo o fluxo.
Pra mim, é natural falar de vida, falar de amor, falar das coisas da vida que são emoções, são sentimentos. Tem que ser muito hipócrita pra fingir que não chora. Pra fingir que não ama. Pra não se apaixonar, pra não mostrar humanidade.
Como começou o seu envolvimento com rap? Quando começou a fazer rima?
Quando chegou o Youtube na minha casa, eu vi um vídeo do Caju e Castanha fazendo um repente. Eu pensei: “que absurdo, os caras estão rimando na hora, com um pandeiro, legal.” Depois disso, eu vi um vídeo do Emicida batalhando. Um monstro. Falou mais comigo.
Então, a partir disso, nossa, o rap. Meu pai me apresentou, na mesma época, o Racionais, o Planet Hemp, o Rappa. Então, eu fui cada vez mais tendendo pro rap mesmo.
Eu comecei a escrever. Na escola eu já fazia rima com os moleques, com os amiguinhos no intervalo, não sei o que. Aí, surgiu um trabalho de história que era para falar sobre Revolução Francesa. A professora falou: “vocês podem fazer o que quiser, podem fazer um cartaz, uma apresentação, um slide, um vídeo, um filme.” Aí, eu fiz um rap, entendeu? Fiz uma letra. Isso na quinta série, na sexta, não sei.
Mostrei pro meu pai e ele falou: “porra moleque, tu é bom nessa parada. Que massa, não para, não. Continua.” Aí eu fui persistindo, fui escrevendo, aprimorando. Fui ouvindo o rap cada vez mais. Fui escrevendo cada vez mais.
Meu pai me levou para minha primeira sessão de estúdio, num estúdio de um amigo dele, chamado Jordan, que é lá de Brazlândia. Esse Jordan, inclusive, é o dono do Opala Azul, do som Opala 71 Azul. Eu senti que estava vivendo uma parada muito especial nessa primeira gravação.
A vontade de buscar a parada me fez conhecer mais pessoas que fazia rap também. Um dia, meu primo falou: “tá rolando uma batalha no Relógio.” Daí, eu colei, batalhei. Antes disso, eu tinha batalhado em Brazlândia que é a batalha do Cinzeiro, menor.
Então, essa paixão foi só crescendo e a trajetória foi essa. A escrita primeiro, depois as batalhas. Depois, eu fui amadurecendo minha música, minhas idéias, encontrando minha identidade, o timbre. Fui sentindo o que tinha a ver comigo.
Fiz o primeiro álbum, Fome. Aí fiz o segundo, Sede. Lancei o EP, O que Restou da Marginália. Ano que vou lançar outro álbum, chamado Maracutaia. E aí já é.
Você lançou Fome, em 2019, e Sede, em 2020. Existe alguma relação conceitual entre os dois álbuns? Quais as maiores diferenças entre as duas obras?
Fome foi aquele instinto primário, aquela parada visceral. A fome te leva a caça né. A fome vira um incômodo, daqui a pouco, a barriga começa a doer. Eu tenho que levantar e fazer alguma coisa.
Foi isso: esse primeiro levante, fome de fazer o primeiro disco, fome de fazer o show do primeiro disco. Fome de colocar minhas ideias, apresentar minhas ideias. O primeiro disco é muito important e diz muito da caminhada do músico.
Então, Fome foi esse instinto primário e tal. Fiz o primeiro álbum, saciei minha fome. Eu precisava dar meu segundo passo e precisava ser tão bom quanto o primeiro. E eu quis bater nessa tecla de novo, da vontade de busca. Na minha cabeça, o álbum Sede soa mais como um mantra de prosperidade. Por isso eu coloquei um amarelo na capa, uma cor dourada, uma coisa de ouro mesmo, de riqueza. Não só material, mas uma riqueza de espírito. Uma generosidade, uma abundância, tá ligado? Em tudo, em todos os aspectos da vida.
A sede é uma vontade mais sofisticada, de tudo mesmo. De vestir roupas melhores, de comer pratos melhores, de estar com as pessoas que eu amo à minha volta. De estar bem mentalmente, psicologicamente, fisicamente, com a saúde boa.
A gente merece, sim, viver o melhor dessa vida. A gente merece estar bem, ser feliz, morar numa casa que a gente sempre sonhou. Só quem teve tudo negado, só pra quem faltou esse tipo de coisa, sabe o valor que tem isso, sabe o tanto que isso mexe com a gente.
Dinheiro é o exemplo mais material, mais fácil que eu posso te dar aqui, né velho. Dinheiro é uma porta de acesso. Então, é sobre dinheiro, sobre lugares, sobre coisas.
O mundo tá aí, foi negado pra gente, mas a gente pode acessar. O rap, a música, a arte vai fazer a gente chegar até o que nos foi negado.
Você desenvolve uma parceria muito consistente com o MK. Qual a relevância dele para o seu trampo e para sua vida pessoal?
Quando eu conheci o MK, eu estava me aproximando muito da música brasileira, estudando o samba, o reggae, a bossa nova. Ouvindo esse tipo de coisa.
O MK vem da raiz do hip-hop. Ele é b-boy desde criança, viajou com o break, participou de inúmeros campeonatos. Então, teve essa vivência. com a crio dele muito forte. E o break é o aquilo, né: aqueles beats, que a gente chama de breakbeat, com muita bateria, com muito ritmo;
Ele viveu muito o hip-hop. Ele sabe muito de rap, do rap norte-americano, as diversas escolas. Então, ele me apresentou muita coisa. Me ensinou muita coisa sobre o movimento. Ele trouxe esse conhecimento pra mim, mais profundo.
Isso acabou trazendo essa influência do boombap muito forte. Eu já ouvia, já consumia, mas ele me trouxe essa profundidade. Isso se reflete na música. O boom-bap é onde eu consigo colocar melhor minhas ideias. É o ritmo que pulsa nosso coração mesmo.
Foi a pessoa que fechou comigo e falou: “mano, nós vamos fazer. Nós vamos fazer o álbum, vamos tocar num evento. Nós vamos dar um jeito, nós vamos conseguir. “
Além dessa influência musical, tem a parada da pessoa dele ser muito ativa, muito inspiradora. Sabe, o cara é atividade. Ele é animado, ele é organizado, ele é vital. Então, ele traz essa parada pra mim.
O MK é pai também, desde os 16 anos. Ele tem um filho de 9 e foi pai de novo agora, do Marlon, que tem um ano e pouco. EU cresci só com meu coroa e meu irmão. Meu pai foi exemplar, sensacional.
Eu me identifiquei assim que eu vi o MK criando o filho dele: fazendo o trampo do rap, sobrevivendo da cultura, sobrevivendo da arte e criando o filho. Aquilo ali pra mim foi uma inspiração, do tipo: é possível. Na época, eu não tinha meu filho ainda.
Daí a gente fez o álbum, eu tive meu filho agora e a parada só se confirma.
Além do MK, você trabalha sempre com uma equipe diversificada de profissionais. Como funciona esse corre e qual o impacto disso para sua carreira?
Quando você começa a fazer música, tem essa fome de querer fazer tudo. Quer fazer o beat, quer gravar, quer vender o show, quer ser fotógrafo. Quer ser tudo, quer fazer o corre independente.
Aí, a gente vai amadurecendo e percebe que ninguém vence sozinho, que ninguém anda sozinho. Então, foi agregando. Eu conheci o Peres e a gente fez o Puro Suco. Daqui a pouco, a gente conheceu o MK.
O Raul é um amigo que foi meu primeiro produtor. Ele é publicitário, fotógrafo, videomaker. No começo, ele fazia essa direção artística e também os corres de produção. Então, sobrecarregava ele um pouco.
O PV chegou e assumiu essa parte executiva, estratégica, técnica. É o cara que resolve nossa loja das blusas, é o cara que vende meu show. É o cara que fala com o contratante, é o cara pra ver se está tudo certo no palco antes de eu entrar. É o cara que lembrou de pegar a toalha, pra secar o rosto no show, lembrou de pegar a água. É o cara que está falando agora com inúmeras produtoras de São Paulo pra ver se abre uma porta. É o cara da diplomacia, da negociação.
É muito importante, porque isso deu uma estrutura pra mim e pro MK. Deu uma tranquilidade da gente se preocupar com a música, com a arte, com as ideias.
A gente chama de equipe porque é o termo técnico, mas são meus irmãos, mesmo. É quem acredita, é quem gosta de ouvir meu som. É quem entende, quem me compreende como pessoal, como artista, como pai, como amigo.
Hoje, eu ligo para o PV não só pra ver se tem show, mas pra dizer: “hoje,eu não estou bem e tal, vamos conversar”. Existe esse laço verdadeiro de afeto, de respeito, de carinho, de admiração mútua, tá ligado?
Então, eu sinto que esses lugares que a gente consegue chegar, esses resultados são reflexos dessa boa relação que a gente tem, dessa amizade, dessa parada de acreditar no sonho, tá ligado?
Você é apontado como uma promessa do rap do DF.
E você? Quem seria as suas apostas no cenário brasiliense?
Eu vejo muito futuro no SemBlunt MC’s, meninos lá de Sobradinho. Eu acho o rap deles bem louco, bem original, bem boom-bap, bem a linguagem que eu gosto.
Pô, o Jean, né? O Jean Tassy já tem uma projeção nacional. Mas, é, indiscutivelmente, um talento brabo. O PG 400, muito brabo.
A Letícia Fialho. Não é do rap, mas é muito talentosa, muito boa de escrita. Faz um som orgânico com instrumento, com violão, com guitarra, com trompete, com tudo. eu gosto muito, muito mesmo.
Tem também o Kirá e a Ribanceira, uma banda que mistura mais sons com vertentes nordestinas. Traz essa levada de coco, de embolada. Coisa bem louca, assim.
Na sua opinião, quem são os personagens mais importantes da história do rap do DF?
O Tribo da Periferia é muito relevante. Os caras são gigantescos. Os caras criaram uma nova roupagem, novos timbres, com uma nova geração. O Tribo inventou,né, fez brotar da seca, do nada, os timbres, as paradas.
Um Barril de Rap foi uma coisa muito importante pra minha geração, pra minha vertente de rap. que foi o boombap. O Froid, o Yank, o Sampa, foram os moleques que saíram da batalha e construíram uma caminhada sólida de rap, com bastante colagem de filme, com bastante sample de disco, com bastante boom-bap, com bastante timbres, elementos que rondam esse universo do rap underground, do rap lado B, do rap de maluco mesmo.
Eu acho até, meio, mais do mesmo falar dos antigos, porque a importância dos primeiros é indiscutível, é bem óbvia. Câmbio Negro, o Viela 17, o GOG, o Heitor Valente, que faz um trabalho nas casas de detenção.
Acho que são esses que eu consigo pensar agora.
TOP 5 do Murica - Álbuns ou faixas do Rap do DF
especiais para você
SemBlunt MC’s - Underground por Escolha
Um Barril de Rap - Segunda Via
Tribo da Periferia
Não to me lembrando o nome, mas é um álbum que todas as faixas tiveram um clipe, velho.Natiruts.
É uma coisa muito importante pra cá também. O reggae conversa muito com o rap. Eu acho que tem a ver, pra caramba. A essência do reggae que o Natiruts buscou tem tudo a ver como DF.Heitor Valente - O Legado
Heitor também foi um professor, né, véi? Ensinou muita coisa pro Froid, pro Phyre. Então, o Heitor é bem importante pro rap DF.