MENESTREL
Conversei com Menestrel por Whatsapp em dois momentos diferentes. O primeiro em outubro de 2019 e o segundo em julho de 2020, pouco tempo depois do lançamento do álbum Relicário Vol.2.
Falamos sobre maturidade, sobreviver ao hype, mercado, as influências do DF no som produzido atualmente e as participações no novo disco.
Entrevista por Thiago Flores em 13/10/2019 e 27/07 /2020, por Whatsapp. Foto: @jclaudeoficial
Em agosto de 2020, você lançou seu segundo álbum: Relicário Vol.2. Quais as maiores diferenças entre essa obra e Relicário vol.1? Que mudanças você enxerga na música e na pessoa do Menestrel/ Ian nesses dois períodos?
A maior diferença é a maturidade. Escrevi o Relicário 1 com 17 anos. Agora, com 21, eu já consigo ter um norte do que eu quero fazer: das palavras que eu quero usar, como eu quero me expressar, o que é certo e o que é errado.
Musicalmente, também. Foram longos anos estudando música, estudando o cenário, vivendo de música todos os dias. Quando eu escrevi o Relicário 1, eu só tinha dois anos de carreira, no máximo.
Dá para sentir uma maturidade muito maior nesse disco. Nas entranhas dos instrumentais, você sente que tem música, que tem instrumentos, não só lives, 808s e sintetizadores. Você sente o peso dos instrumentos sendo tocados.
É realmente um novo universo. Eu acho que não dá para botar em comparação os dois álbuns. O primeiro disco eu fiz sem entender praticamente nada de música. E o Relicário 2 já é fruto de um conhecimento absurdo, que eu vim tomando durante toda minha caminhada de vida.
E como é o álbum? Qual a pegada, quem são as participações?
O álbum está muito legal, muito diversificado. Nós temos músicas de todos os estilos: jazz, boom bap, um trap somente, tem rock, tem surf music, tem r&b.
Cada faixa ali representa uma partezinha do meu universo, da minha cabeça e eu fiz com muito carinho.
As participações do álbum são: Rashid; Kyan; Margaridas, que são as artistas que eu assessoro aqui de Brasília; o Duzão, do Grupo Menos é Mais; o Chris MC, da gravadora Pinneapple; o grupo Di Propósito; e minha irmãzassa de vida Cinthya Luz.
Digamos que a pegada da obra é algo meio inexplicável, por enquanto. Acho que só as pessoas ouvindo para entender. Mas, eu acho que a diversificação musical que rolou no álbum, com até uma música gospel, seja a característica chave do projeto.
Com 16 anos, você apareceu no primeiro episódio do Poetas no Topo 1 com uma rima muito bem desenvolvida. Você sempre escreveu?
Sim, eu já escrevia antes de rimar. Escrevia poesias. Desde os oito anos ou menos, eu tento expor o que está se passando em cada fase da minha vida por meio da escrita. Sempre foi uma coisa cotidiana para mim, mesmo antes de fazer música. Não imaginei que isso ia se tornar música, inclusive.
E como você conheceu o pessoal da Brainstorm e da Pinneapple, produtores do Poetas no Topo e do Poesia Acústica?
O Froid estava no Rio de Janeiro. Eu e um brother decidimos fazer uma visita surpresa para ele. Quando a gente chegou no Rio, a gente descobriu que ele [Froid] estava indo para BH, pra fazer um show com o 3030.
Pensei: “até ele voltar, a gente vai ter que ficar em algum lugar, fazendo alguma coisa.” Aí, nessa, esse nosso brother falou com o Paulo [Alvarez, CEO e fundador da Pinneapple] e a gente acabou ficando na casa do Malak [produtor e dono do estúdio Brainstorm].
O santo bateu com o Malak de primeira: “Pô mano, neguinho já se conhece de outras vidas, a gente é realmente muito irmão”. Nisso, mantivemos contato cabuloso.
Foi bem no início da correria da Brainstorm, ele tinha acabado de abrir o estúdio. Era tudo muito novo e ele me chamou para ficar lá um tempo para construir um projeto. Foi nisso que eu passei seis meses no RJ e a gente construiu Relicário, Candelabro, entre várias outras músicas.
Poetas no Topo com 16 anos, primeiro álbum com 17. Com 21, você já lançou DVD, outro álbum, gravou clipe na Europa. Ganhou dinheiro e fama. Quais as maiores lições sobre a indústria do rap que você tirou nesses anos de carreira? É difícil manter o pé no chão?
Mano, é difícil botar o pé no chão num primeiro momento. É difícil você ser sobrevivente do seu primeiro hype. Essa é a parada. Porque o primeiro momento, a hora que todo mundo vira o olho para você, é muito fácil, as coisas fluem naturalmente. Você vai fazer muitos fios, você vai fazer dinheiro, você vai fazer muitos shows. O problema é se manter nisso, porque música não te garante aposentadoria, né, irmão.
Eu aprendi muito sobre a indústria, porque eu quis aprender, quis estudar, diferente de 90% dos artistas que estão no mercado hoje. E como diria Muricy Ramalho, ou qualquer outro desses técnicos de futebol: “A bola pune.” É igual no rap.
O rap pune se você não souber se posicionar, se você não entender sua fan base. Se você não souber fazer o cálculo de cada dinheiro que entra, cada dinheiro que sai e se posicionar, você vai passar. Você não vai ser sobrevivente do primeiro hype.
E qual foi o momento que você pensou “Tô vivendo de rap mesmo”? Quando você percebeu que o trampo tinha virado?
Eu posso dizer que o momento em que eu bati no peito e falei “Caralho, realmente, eu tô vivendo meu sonho e o bagulho tá acontecendo”... Foi no momento que eu consegui botar mais de uma pessoa em um avião. Quando eu cheguei no lugar, tinha uma van, diária de alimentação para todo mundo, hotel e quarto para as pessoas dormirem. Um cachê no meu bolso. E, à noite, a gente fez um show para 4 mil pessoas.
Quando eu subi no palco... eu lembro até hoje. Quando estouraram as pirotecnias de palco, estavam 04 mil pessoas com os flash dos celulares ligados, filmando, cantando e gritando a música ensurdecedoramente -não sei nem se existe essa palavra.
Quando eu vi isso, eu fiquei em choque. Olhei para trás pro meu DJ, o Pepê, ele olhou pra mim e a gente só abriu o braço e falou: “mano, o que está acontecendo?!”
Nessa hora, passou na minha cabeça: “mano, puta que pariu, eu tô vivendo realmente de rap, eu vivo de rap, eu sou um Rapper.”
O que você curte de Rap do DF? Curte a geração dos anos 90, que colocou o DF no cenário do rap nacional?
Irmão, eu sou um fã assíduo do rap de Brasília. Eu gosto muito do som do Viela, desde moleque. Eu sou realmente fissuradão pelo som da Tribo e pelo som do Hungria. Foram as primeiras músicas que eu aprendi a ouvir mesmo, no geral, de rap.
Tem a geração mais antiga: Guindart 121, eu gosto pra caralho também. O GOG eu gosto. O DJ Jamaika acho da hora também.
Existe alguma influência dessa geração ou do tipo de sonoridade que marcou o DF nessa época na música que você produz?
Cara, com certeza. Tudo é influência, tudo é referência. Então, tudo o que eu faço hoje, eu trago uma carga do que eu ouço, do que eu admiro. Com certeza, não seria diferente com a sonoridade destas pessoas, principalmente com a da Tribo. Porque eu gosto da postura, da personalidade, eu gosto da verve que tem o som. Então, talvez seja o que mais me inspira.
Li e assisti duas entrevistas suas: Trocando Ideia, do Rap Box e pro site Medium, pro Raul Moura. Apesar de um pouco antigas, as duas trazem alguns pontos em comum e que podem ser revistados nessa entrevista.
O primeiro tem relação com Brasília, o público e a cena local. Nas duas entrevistas, você afirma que sua cidade virou as costas pra você. Você não é o primeiro artista que eu vejo falar isso. Por que você acha que isso acontece aqui no DF? Que tipo de estrutura, de mentalidade e de história produz essa rejeição?
Te falar a verdade: esse bagulho acontece em todo lugar cara, tá ligado?! Eu cheguei a essa conclusão, hoje, mais velho . Nego vai virar as costas para você não é porque é Brasília ou porque é Belo Horizonte, ou porque é Porto Alegre.
Nego vai virar as costas para você porque esse mal está no brasileiro. O brasileiro é invejoso. O brasileiro não pode ver alguém dando certo que o brasileiro quer palpitar. Ele quer falar mal, ele quer achar o único defeito que vai fazer com que ele tenha motivo para desmerecer a correria de uma vida, tá ligado?!
Hoje, isso não me abala. Eu sou queridão na minha cidade, porque eu me fiz entender, irmão. Uma pequena parcela, que é o público chato do trap, a criançada, a pirralhada, essas pessoas não gostam de mim, mas isso não muda nada na minha vida, tá ligado?!
O segundo ponto que me chamou atenção nas duas entrevistas foram suas análises sobre o público de rap atual. Jovem, consumidor e altamente conectado nas redes sociais. O público de rap pode ser mesmo chato? Por quê?
Irmão, o público do rap é chato, porque naturalmente quer opinar. Porque o rap é uma musica que vem de opinião. O problema é que o público hoje é muito jovem. Hoje, o rap é o pop teen dos anos 2000. Então, realmente, a nossa fan base é muito conectada com o público mais jovem. A galera mais jovem não tem peso nas palavras, não entende o que está acontecendo: que são pessoas que estão trabalhando.
Esse público teve acesso à informação muito cedo. Ao mesmo tempo em que isso foi bom, isso também foi ruim, porque botou na cabeça de crianças de 15/16 anos que elas podem sair falando qualquer coisa na internet e que isso não vai dar em nada.
Mas, também, hoje em dia, eu já não estou nem aí pra isso. Vão falar e tudo mais, mas faz parte do processo, faz parte do processo de envelhecimento da cultura.
Qual a maior fraqueza da cena de rap do Distrito Federal? E o maior potencial?
Enquanto cultura, não posso falar que Brasília tem uma fraqueza. A gente tem ótimas batalhas de MC’s, eventos gratuitos de rap na Ceilândia. A gente tem a Ceilândia aqui, só isso já é uma coisa grandiosa. Porque é um lugar onde produz rap, tá ligado. Provê rap diariamente pra molecada consumir, tá ligado.
Naturalmente, a gente é muito talentoso. A gente sempre tem uma melodia bem mais foda que nos outros lugares. Então, eu acho que, de talentos, Brasília tá bem recheada.
Já enquanto indústria, a maior fraqueza é falta de profissionalização, a falta de profissionais capacitados na área para fazer as coisas e falta de casa de show para rap. Porque não tem lugar para fazer rap acessivelmente aqui é Brasília.
Quais as suas maiores referências e inspirações no mundo da arte? No geral, dentro e fora da música e do rap?
Eu tenho bastante referências. Eu posso falar que, na música, minhas maiores inspirações são o Nafe Smallz e o Dennys Lloyd. Atualmente, porque pode ser que isso mude.
No mundo artístico, tem gente que me chama atenção não só pela arte, mas pela postura, como a pessoa conduz a sua própria empresa. O Matuê é um ótimo exemplo disso. Artisticamente, é um cara que me soa interessante, porque ele é um ótimo empresário, além dele ser uma personalidade, tem uma parada com a moda. Ele é um compacto, um compacto de artista e gerente.
Quais artistas de rap de Brasília devem despontar no cenário nacional nos próximos anos?
Eu acredito muito no potencial do Jamelão, do Murica e da NovinMob, no cenário do trap.
Mas, correndo por fora, já em outras paradas, em outra visão, eu acho que o Bonde do Quadradinho, o grupo de dança, é minha maior aposta aqui em Brasília. A rapaziada é firmeza, é uma parada totalmente bem construída, totalmente conceitual, totalmente brasileira. Então, é minha maior aposta no futuro próximo.
Quem são os artistas de rap do DF mais importantes desde o surgimento da cena?
Com certeza, Froid, Duckjay e o Japão. Porque cada um movimentou a sua geração, tá ligado?! O Duckjay movimentou as paradas dos carros de som. O Froid movimentou o under e o Japão movimentou o gangster, tá ligado?! Então, são as três vertentes de rap, visionárias.
Brasília tem uns nomes importantes, tá ligado, como Nauí, como o Biro Biro, o Mocotó, tá ligado, o Arroto. Essas pessoas que estavam na batalha de MCs, lá no início, lá no Calango Pensante, tá ligado, são muito importante e não podem ser esquecidas.
Top 5 DF do Menestrel ( 05 músicas ou álbuns mais marcantes)
Porra então, meu top 5:
Referências
[Menestrel - Relicário - álbum lançado em 2017]
[Menestrel- Relicário Vol.II - álbum lançado em 2020]
[Kyan- artista de Praia Grande, SP, integrante do selo Ceia Ent]
[Rashid- rapper de São Paulo]
[Margaridas- Sabrina e Maria Paula, artistas de Brasília]
[Grupo Menos é Mais - banda de pagode de Brasília]
[Chris MC- rapper mineiro, integrante da Pinneaple Storm Records]
[Di Propósito- banda de pagode de Brasília]
[Cinthya Luz- artista de São Paulo, linha de frente do selo Alaska, junto com o rapper Froid]
[Poetas no Topo 1 - Makalister, BK, Menestrel, Djonga, Sant, Jxnvs, Slim- primeiro cypher da série produzida pela união Pinneapple Suply e Brainstrom Estúdio, lançado em 2016]
[Pinneaple Supply- empresa carioca originada de uma marca de roupas, tornou-se uma das principais gravadoras e produtoras de conteúdo do rap nacional, dirigida por Paulo Alvarez]
[Brainstorm Estúdio- conduzido pelos produtores Lucas Malak e Slim Beats, realiza a direção musical da gravadora Pinneaple Storm Records]
[Viela 17- grupo fundado e liderado pelo rapper Japão, depois do fim da parceria com GOG, no início dos anos 2000]
[Guindart 121 - grupo de rap surgido no início dos anos 90 em Planaltina, DF]
[Nafe Smallz- rapper, cantor e compositor britânico de Luton, Bedfordshire]
[Dennis Lloyd- músico, produtor, cantor, compositor e multi-instrumentista israelense]
[Matuê- trapper cearense, um dos principais nomes do rap nacional]
[Thiago Jamelão- cantor, compositor e guitarrista nascido em Goiânia e figura carimbada do rap do DF]
[Murica- rapper do DF, citado como revelação destaque por diferentes entrevistados]
[Novim Mob- grupo de trap do DF]
[Bonde do Quadradinho- grupo de dança do DF, formado por João Sampaio, Ianca Oliveira, Jéssica Sampaio e Tifane]
[Tribo da Periferia- My house(Artigo 12)- faixa do álbum 1º Último, lançado em 2011]
[Guindart 121- O malandro, faixa do álbum Até a Alma, lançado em 2003]
[Um Barril de Rap- Nada Consta, faixa do álbum 2ª Via, lançado em 2015]
[DJ Jamaika- Tô só observando, faixa do álbum Utopia, lançado em 1998]
[Menestre- Relicário, faixa do álbum Relicário Vol.1, lançado em 2017]