Max Maciel
Em uma entrevista à distância, no auge da pandemia, PESO conversou com Max Maciel, pedagogo, ativista e, atualmente, deputado distrital pelo PSol, sobre Ceilândia, transformações na relação entre o rap e a sociedade, fragilidades da esquerda e dos movimentos sociais, e sobre o poder transformador da cultura hip-hop.
Entrevista feita por Whatsapp em 13 de agosto de 2020
Você nasceu, foi criado e mora na Ceilândia. Que tipo de transformação você consegue enxergar entre a CEI da
sua infância e cidade hoje?
Sim, sempre de Ceilândia, nascido e criado. Acho que essas relações são um processo histórico. Nasci na década de 1980. Então, até 2003, Ceilândia viveu um processo de cidade dormitório. Alta visibilidade negativa pela imprensa, majoritariamente. Problemas estruturais como toda periferia, falta de acessos.
Hoje, do ponto de vista estrutural, não tô falando nem do ponto de vista urbanização, mas de toda a lógica de cidade, muita coisa ainda continua igual desde o início de sua fundação, como, por exemplo, a falta de acesso à questão da cultura. A gente até hoje não tem um teatro, não tem um cinema. A gente só tem um ginásio poliesportivo pra uma cidade de 600 mil habitantes.
Então, continuamos com problemas periféricos, mas com um olhar mais desenvolvido, a partir das práticas que a cidade foi evoluindo. Inclusive, com seus filhos que saíram, foram para a Universidade e conseguiram mudar um pouco essa lógica.
Você tem uma relação muito forte com o rap e com a cultura hip-hop. Como você conheceu a cultura e como construiu esse relacionamento?
O rap sempre foi uma linguagem própria do território. Linguagem em todos os sentidos, né. Aproxima pelos versos, mas também aproxima também pela identidade visual, estética.
Eu conheci mesmo essa cultura ainda em 1995. Então, ali já tinha Câmbio Negro estourando. Tinha os raps também que chamavam Rap Brasil, mas na verdade eram os funks cariocas, que vinham embolado também nessa sequência.
É engraçado, não tinha rádio comercial que tocava esses sons. Então, a gente conhecia esse som pelo underground mesmo. Imagina uma era que não tinha internet, não tocava na rádio, não tava na TV, mas a gente estava ali, conectado o tempo todo.
Isso, por si só, demonstra o quanto essa cultura é forte e resiste a tudo. Meu relacionamento se deu porque era uma forma de expressão. Eu me via nessa forma de expressão. Tentei cantar, não deu muito certo, mas eu ainda cantei.
Mas eu sempre olhei o movimento como algo que reunisse a juventude pra mostrar, não só sua indignação, mas também as suas oportunidades, os seus talentos.
Ao longo de quase 40 anos, o rap mudou muito, em todos os sentidos: sonoridades, letras, tecnologia, aceitação popular, mentalidades. Que transformações você enxerga como mais relevantes em relação ao gênero musical e sua comunidade?
Existe uma coisa permanente nisso tudo: o preconceito com a comunidade negra periférica. Tudo que ela produz, tudo que ela apresenta como narrativa, vai ser objeto massivo de preconceito. Foi assim com o samba, na década 1930; com o hip-hop no início de 1980-1990; com o funk hoje.
Eu divido as mentalidades do rap ou fãs em dois períodos: de 2003 pra trás e de 2003 pra cá.
2003 pra trás por quê? Até esse ponto, a gente tinha um rap que sempre foi combativo, um rap de causa sociais. Era um rap que tinha feito um voto de pobreza, na minha leitura. Eram artistas que não pensavam em negócio, não pensavam em vender disco, não pensavam em vender show, em fazer videoclipes. Faziam tudo isso, mas não era o foco. O foco era fazer som, tocar a revolta.
De 2003 pra cá, você percebe que os novos MCs continuam combativos, mas que ficou naturalizada a possibilidade das pessoas viverem de rap, de transformar isso em algo rentável mesmo. Em fazer isso um mercado cultural forte, presente.
Os fãs mudam muito, né. Eles vão muito do momento, sobretudo, influenciados pela internet. A internet trouxe uma velocidade, mas, ao mesmo tempo, os efeitos não permeiam o processo histórico. Então, uma música que estourou essa semana, possivelmente, não vai existir semana que vem, porque chegou uma nova.
O fã mais tradicional está sempre acompanhando, desde o início. Mas esse fã de streaming vai pelo momento que o streaming está dizendo pra ele ali. Não vou dizer que é ruim, só é líquido. Não fideliza, o que é diferente do que a gente acostumou e viu crescer.
Você acha que as grandes tretas do DF, ocorridas ao longo
dos anos 90 entre os principais artistas daqui, tiveram algum impacto no desenvolvimento da nossa cena? Quais foram? Você acha que essas tretas influenciaram alguma mentalidade de violência por aqui?
Minha leitura sobre essas chamadas tretas: só atrasou o movimento. Apesar de terem sido importantes pelo marco que se criou, na minha leitura, atrasou. Vários rappers com talento sem igual gastando tinta entre nós, sendo que a tinta maior que tinha que gastar era contra um sistema.Eu acho que, por conta dessas tretas, a gente não conseguiu fazer com que o movimento se desenvolvesse. Essa é a real.
Acho que essas brigas têm relação também com um processo de maturidade. Essa coisa da ju da treta para a juventude é muito presente, né. Essa coisa do revanchismo, da disputa.
Não acredito que isso influenciou mentalidade violenta, não. Diferentemente dos Estados Unidos, que eram músicos, a partir de guetos, a partir de grupos de gangues, gangues, no DF isso não se deu dessa forma.
A ressocialização de jovens em conflito com a lei depende
de inúmeros fatores para ter sucesso. Quais são as maiores dificuldades nessa atividade? Quais as principais carências desse sistema?
Existem vários problemas no sistema socioeducativo.
A estrutura física mais parece um presídio e não deveria ser assim. A questão da cultura que, ao invés de ser um espaço socioeducativo, como diz o nome, ainda carrega muita cultura prisional.
Mas, eu acredito que o maior dos problemas do sistema socioeducativo hoje é a falta de uma política pública
eficaz de acompanhamento de egressos.
Enquanto eles estão lá dentro, a gente consegue pesar
na mente deles, utilizando a linguagem até dos próprios meninos [mantê-los afastados do crime]. Mas, quando eles saem, eles voltam para o mesmo ciclo de negação e de violação de direitos que eles estavam anteriormente.
E ainda voltam rotulados para a sociedade. Esse é um
ciclo muito difícil de romper.
Não existe nenhuma política pública eficaz, né. Eles voltam pra mesma quebrada, com o mesmo ciclo de violência. É como se eles fossem invisíveis para o Estado antes de entrar pro ciclo infracional. O estado os enxerga quando eles erram. E enxerga só para punir. Quando eles saem, ele voltam a ser invisíveis para o Estado novamente.
Atualmente, um segmento de rap, mais ligado ao mainstream e ao mercado, deixa de lado o protesto e a crítica social e tem muito apelo junto ao público mais novo. Você vê problemas nisso? Acha necessário resgatar esse componente de protesto e revolução do rap nacional?
Então, na terceira pergunta, eu respondi um pouco disso.
Eu não sou um cara de ficar cagando regra. Eu acho que tudo muda, saca? Hoje, a molecada tem condições de produzir seu som dentro do seu quarto, autogestionado total. Naquela época não era assim, você não tinha acesso aos meios de produção e dependia de quem tinha estúdio pra gravar o nosso som.
Ou seja, quando é que você gravaria seu som? Muito difícil. Muitos artistas bons não gravaram sons profissionais porque não tinham dinheiro, não tinham estúdio, não tinham espaço. Hoje em dia está mais fácil. A internet tá ai: você não precisa de nada, não precisa gastar pra fazer a prensa de um cd. Você sobe no seu canal do Spotify, em qualquer plataforma digital, e está no mundo.
Nós temos que aprender com as mudanças. Tem muito som bom surgindo, mas é difícil fidelizar o público, como eu falei, pelo processo da própria internet. Temos talentos atualmente e é bom curtir também, né, mano. A gente não quer só sofrimento. A gente também quer ter momento de lazer. Que bom que tem rap sobre isso também.
Como e quando foi fundado o RUAS? Quais são os principais projetos geridos pela Rede?
É a Rede Urbana de Ações Socioculturais. Ela surge no início dos anos 2000 como parte desse processo todo, né. Tudo que os irmãos almejavam nas letras, a gente tentou buscou fazer isso no presencial, na ação prática.
Ela foi fundada por jovens da periferia, com esse objetivo: ocupar e transformar a rua num espaço saudável, democrático, de direito da periferia.
Os principais projetos são a gestão do projeto Jovem de Expressão, que é a nossa maior tecnologia social. Tem o Elemento em Movimento, o campeonato de skate, campeonato de basquete, projeto de saúde sexual reprodutiva, pesquisa sobre violências. Esses são os projetos que a gente tem gerido.
Qual a relevância do festival Elemento em Movimento para a cultura da Ceilândia?
O festival Elemento em Movimento é a síntese do que a gente não viveu na década de 1990. Não existia um espaço desse na década de 1990 e até o ano 2000, saca? A gente tinha lazer, tinha festival de rap, sim, mas nunca com essa característica com que a gente faz hoje o festival Elemento em Movimento.
Aquele processo que eu falei sobre acesso aos meios de produção é o que o festival Elemento concretiza na ponta pra molecada. A gente não quer só um palco, eu quero descobrir como ele é montado. Não quero só curtir um som, quero saber como monta aquele som, a técnica, como é que equaliza. Como é que a gente faz o cenário ser agradável.
É muito mais que um festival de música, porque ele tem oficina de formação para os jovens. Ele envolve a comunidade nos seu processo criativo. É um oásis dos nossos pensamentos. Sem contar que é um espaço para essa galera nova. Galera que, as vezes, acha ali um palco de oportunidade, a gente tem muito orgulho de fazê-lo.
Diante das respostas anteriores, pode ser uma pergunta clichê, mas, na sua opinião, quais os potenciais de transformação social do rap e da cultura hip-hop?
O hip-hop é identidade, ferramenta de diálogo com a parcela da população periférica urbana. Ele é multi-linguagem. É a nossa cultura, né: a Lei 10.639 na ponta, a lei da história afro-brasileira.
No hip-hop, ao realizá-lo como ação política e educacional, você aproxima, talvez, aqueles que estão afastados do processo formal. Eu vejo, por exemplo, nessa linha que a gente pode inserir estúdios públicos na quebrada, salas de dança, grafite para trabalhar a arte gráfica e desenho para a galera.
Não quer dizer que isso vai formar grandes artistas, vai fazer com que a pessoa comece a discutir a sua cidade, discutir sua vida, discutir sua relação, sua alimentação. Sua relação interpessoal com sua companheira, seu companheiro.
O hip-hop é linguagem, é meio desse processo, não é o fim. A gente pode destacar nesse âmbito o que o Markão Aborígene fez com a Arte Sam, em Samambaia, é o que Neemias faz no Novo Gama, rodas as escolas, passa os ensinamentos.
E quais os maiores desafios para o cenário de rap no DF, em relação á cadeia produtiva da cultura?
O desafio é que não tem política pública para o cenário de rap. Você não tem festivais, não tem casa de espetáculos para a molecada se apresentar. Você não tem incentivo pro cara gravar um som e fazer um audiovisual, rodar e ganhar prêmios.
Brasília é pequena e tem limites. Se você conta na mão quantos eventos de rap tem, então, se o cara cantou nesses todos, zerou.
Então, o grande desafio é a própria forma como o DF trabalha, não só o hip-hop, mas a cultura como um todo, mano. A cultura está elitizada, os equipamentos culturais estão num lugar só da cidade, não estão espalhados. Não tem incentivo, não tem valorização nenhuma. Então, os sonhos e talentos acabam indo para outros segmentos profissionais para tentar sobreviver.
Na sua opinião, quais são os personagens mais relevantes desses quase 40 anos de história do rap no DF?
Não tem como falar do rap do DF sem falar de Câmbio Negro. Sofreu preconceito dentro da própria cena, botando banda. Saiu de Brasília, meteu uma mochila nas costas e, porra, foi levar o nome da cena pro mundo. Hoje, se você chegar em qualquer quebrada do Brasil e falar que mora na Ceilândia, os bichos respeitam essa história.
GOG, mano. GOG, Japão, Dino Black, Mano Mix foram outros caras que colocaram a mochila nas costas e foram rodar o Brasil. Ensinaram a gente a ler, né, mano. Quando você escuta o GOG, você tem que ler, mano, porque ele fala da leitura, ele fala de personagens históricos.
DJ Raffa, o cara que gravou todo mundo, praticamente, naquela época. Tribo da Periferia. O Duckjay é um cara criativo, mano. Saiu lá de Planaltina, onde todo mundo falava que não ia dar nada, e fez o seu mercado. Tá aí dominando os streaming, dominando o público. Soube inovar com seu público. Soube aprender com esse público novo da internet.
O próprio DF Zulu Breakers com a questão do grafite e do break, os próprios grafiteiros, o Turko né, os Tres Esses, não tem como não falar dos Três Esses.
Então, muito talento mano, muito caminhada. Markão Aborigene, Vera Verônika, primeira mulher a cantar no DF nesse segmento. Vera tá aí, lançando DVD na estrada. Muito referência.
TOP 5 do Max Maciel. Faixas ou álbuns do rap do DF especiais para você.
Vamos de músicas, então.
GOG - Brasília Periferia.
Sem igual, trouxe pra nós autoestima. Você ouvir sua música, sua quebrada sendo relatada na letra, é foda.Markão Aborígene - O azul de uma caneta
Porra, muito foda.Japão ft Look e Vadioslocos - Só curto o que é boom
Marcou uma fase importante.
Câmbio Negro - Ceilândia Revanche do Gueto
De álbuns.
GOG - Das Trevas à Luz
Código Penal – Vivemos Como o Diabo Gosta e Ninguém Liga
Uma galera mais nova.
Vixx Russel - EP - Bebe
Murica - Fome
O CD solo do Murica é um boom-bap sujão, daquele pra tu ficar ouvindo no repeat, sem igual né.