MARKÃO (BASEADO NAS RUAS)

PESO foi até o Guará II para encontrar com uma figura fundamental para o rap do DF. Integrante dos grupos Magrellos e Baseado nas Ruas, Markão é conhecido por um dos flows mais criativos da primeira geração de rappers brasilienses.

Conversamos longamente sobre Ruas do Lazer, influências musicais, speed flow e momentos de fama e dificuldade na carreira artística.

Entrevista e foto por Thiago Flores em 24 de novembro de 2021


Onde você nasceu, Markão?

Não, eu sou goiano. Eu nasci em Anápolis.

E quando veio para Brasília? Veio direto para o Guará?

Eu vim pra cá com seis anos. Meus pais já estavam aqui.

Eles tinham conseguido comprar um lote no Lago Norte. Tinha parte do Lago, nessa época, que eles davam o terreno, mas ninguém queria. Era só mato mesmo. Meus pais até se arrependeram de não terem comprado mais lotes, porque foi muito baratinho.

Meu pai comprou esse terreno, fez um barraco para eles morarem e começou a construir uma casa. Aí, me buscaram em Anápolis, entendeu?

Depois disso, eles venderam o lote e o dinheiro deu pra comprar uma casa aqui no Guará. Eu moro aqui desde 1976. A gente veio morar morava lá na QE 26.

Como era o contato com música na sua infância? E quando a música negra e o rap entraram na sua vida?

Minha mãe sempre foi evangélica, desde o começo dos anos 70. Ainda lá no Lago Norte, meu pai tinha comprado um toca-discos à pilha e ela ficava o dia inteiro ouvindo uns quatro ou cinco discos evangélicos que ela tinha.

Eu comecei a ouvir música negra depois que eu mudei para o Guará, mais ou menos em 1979, 80, por aí.

Como você conheceu o break e o hip-hop?

Na 26 do Guará II, morava eu, o GOG, o irmão dele e outros amigos. O grupo Magrellos foi formado lá, era um grupo de dança.

Lá pra 80, 81, tinha uma gíria para festa que era ‘som’. A gente saía do colégio na sexta e já perguntava “onde vai ter som amanhã?” O som era em casa mesmo, o cara pegava um 3x1, ligava e começava a tocar os funkzão, na garagem mesmo.

Tinham vários pelo Guará. Nessa época aí, eu tinha só uns 15 anos. As festas pagas e bailes em boate começaram um pouco mais pra frente e nem todo mundo tinha grana para ir.

O que rolava muito, não só no Guará, era o Lazer, nas pracinhas. Tinha no DF todo, porque eu já cheguei a ir em Lazer em Brazlândia. O dia todo, uma equipe de som grandona, aquele paredão de caixa, o pessoal se divertindo, jogando futebol e tênis de mesa.

E quando o Magrellos deixou de ser uma crew de dança para se tornar um grupo de rap?

A gente começou dançando funk mesmo, aquele funk swingado. Depois foi entrando uma música mais rápida. E aí, a gente começou a ouvir rap, principalmente, o Rapper's Delight, o Melo do Tagarela.

O Freire, do Magrellos, foi atrás do Raffa, na cara dura mesmo. O DJ Raffa viajava, tinha discos importados. Ele[Freire] telefonou pro Raffa e falou: “Pô, bicho, eu fiquei sabendo que tu tem uns discos importados. Queria saber se tu não gravava umas músicas pra mim.”

O Raffa respondeu: “Bicho, vem aqui em casa”. E o Freire foi lá. O Raffa mostrou algumas coisas que ele fazia com bateria eletrônica, coisas bem simplórias mesmo. Aí, eles começaram a fazer umas paradas juntos, brincando.

O Freire me falou: “A casa do Raffa é como se você estivesse chegando em Nova Iorque. O apartamento do cara é imenso, grandão. Pô, o cara tem tanto disco importado, tanta música legal, vou te levar lá um dia.“

A gente marcou um dia e eu fui conhecer o Raffa. O Raffa já estava trabalhando com o Freire, aí apareceram o Rossi e eu. O Freire escrevia as letras e dividia pra gente. Começou dessa forma, meio que na brincadeira.

Até que o Raffa falou: “Vamos fazer uma demo e tentar gravar alguma coisa.”

Nessa época aí, vocês já tinham o nome de Dj Raffa e os Magrelos? O GOG já tinha saído do grupo?

Isso. O GOG participou com a gente só na época da dança. Quando a gente começou a rimar lá com o Raffa, ele já estava fazendo outra parada.

Como foi o processo de produção dessa demo, de lançar e botar na rua até ela virar o disco, um dos primeiros álbuns de rap do Brasil?

A gente fez essa demo num estúdio em que o Raffa trabalhava, como técnico de som, acho que fazendo vinheta pra rádio. Ele aproveitava os horários vagos, final de semana, pra fazer as coisas dele. À noite, a gente ia para lá.

O Raffa trouxe o Thaíde e DJ Hum para Brasília pela primeira vez, para um show na Fonte do Bom Paladar.

Nisso, o Raffa comentou com o empresário deles, Douglas Ortis, que a gente estava fazendo uma demo. O cara falou: “Deixa essa demo comigo e eu apresento em algumas gravadora de São Paulo.” Gravadoras pequenas, independentes.

Ele apresentou pro Carlinhos da Kaskata’s. O cara gostou e resolveu fazer. Inclusive, ele que colocou o título: A Ousadia do Rap de Brasília.

Foi o primeiro disco que a gente fez, o primeiro de rap do DF. Nessa época, eu não escrevia, só interpretava.

Você começou a escrever suas rimas para a gravação do disco com a Sony? Como vocês chegaram a essa major?

O Freire tava com uns problemas pessoais, tinha terminado com a namorada e saiu do grupo. A gente não ficou sem ninguém para escrever as letras. Aí, eu tentei a sorte.

Comecei a escrever e foi saindo. Eu ouvia música internacional, fui vendo como os caras cantavam e comecei a fazer as letras naquelas levadas. Levei pro Raffa. Ele ficou doido, começou a fazer as bases e gravamos essa outra demo.

O Raffa e o Tubarão gravaram várias fitas cassetes e foram pra São Paulo levar pras gravadoras. Tentararam em vários lugares, mas não deu em nada, cara.

Depois disso, eles foram para o Rio de Janeiro ficar na casa de uma tia do Raffa, para curtir, ir para praia e passear. Parece que, no aeroporto, encontraram o DJ Marlboro, que acabou indicando um contato dentro da Sony para o Raffa.

Foram os dois lá na Sony Music. Eles contam que chegaram na sala do cara e tinha uma pilha de fita demo que nego deixava lá pra ver se conseguia um contrato. O cara da Sony recebeu a fita e falou: “Beleza, eu vou dar uma escutada e ligo pra vocês.”. Pegou a demo do Raffa e botou lá naquele mundo de fitas.

Para nossa surpresa, no outro dia, o cara ligou. O Raffa ficou sem acreditar. O cara: “venham aqui de novo, pô, me amarrei no som de vocês”.

Depois desse contato, o Raffa ligou pra mim e pro Rossi, que estavámos em Brasília: “vocês tem que vir pra cá, conseguimos um contrato com a Sony. “

Na verdade, os caras queriam que a gente fizesse uma demo num puta de um estúdio pra mostrar pro diretor da Sony. Capamos o gato pra lá. Fomos de avião, chegamos no aeroporto, tinha uma vanzona esperando pra ir pro hotel.

Fizemos essa demo, gravada lá na Som Livre. Fiquei tenso pra caramba, não conseguia nem cantar porque ficava olhando aquele rolão de fita rodando. Som Livre, cara, um sonho.

Gravamos, o cara apresentou lá pro diretor da Sony e aprovou. Aí fechou o contrato. Fechou o contrato de um disco.

E como foi a caminhada na SONY? Rendeu oportunidades para vocês?

No meio das gravações, o Raffa brincou com alguém no estúdio que uma das músicas ficaria boa se tivesse a voz da Rosana. Aí o cara da Sony: “isso é mole”. Ligou pra não sei quem, que ligou pra não sei quem. Pô, a mulher aceitou, veio e fez os vocais lá.

O Raffa gravou as vozes dela. Depois ele tocou no teclado pedaços da voz, não sei, técnica dele. Foi feita a música Mexa-se e foi essa a faixa que a Sony usou pra trabalhar a gente.

A gente achou que não tinha muito a ver. A gente queria um rap mesmo. Nos programas de televisão, eles não chamavam Os Magrelos, eles chamavam: “Agora, com vocês, Rosana e Os Magrelos.”

Então, são coisas que eu acho que foram queimando a caminhada da gente nessa Sony. Mas foi uma época boa. A gente ficava em hotel, era um tratamento vip mesmo. Cara, a gente comia do bom e do melhor, garçom pra todo lado, piscina.

Financeiramente, deu pra mudar sua vida na época, a vida da família?

Não deu, cara. Cada integrante pegou mil dólares.

Quando eu assinei esse contrato, eu era taifeiro do Exército. Cheguei para o general e pedi a baixa e eu lembro até hoje do que ele falou: “Rapaz, e se não der certo?” Aí eu falei: “Não, general, já deu certo.”

Eu estava muito confiante: “agora, estou numa multinacional, vou ficar rico. A gente vai estourar, vai ser aquela coisa toda.” Infelizmente, financeiramente, o retorno que me rendeu foi só esses mil dólares e alguns showzinhos aqui e ali.

A Sony não chegava nas galerias de São Paulo para vender o disco dos Magrelos. Eles só vendiam, no mínimo 100 peças, por exemplo. E as lojas eram pequenas, independes, queriam só umas 5 ou 10 cada. Teve essa dificuldade.

O disco era vendido em outras lojas, que nego do rap nem sabia que existam ou que não iam.

Mas foi uma experiência válida. A gente foi o primeiro grupo rap, pelo menos que eu saiba, a gravar por uma multinacional, a gravar em CD, o primeiro a fazer um clipe na qualidade cinema pra MTV.

Esse contrato durou um ano. Rolou uma crise financeira e a empresa estava uma confusão danada. Me lembro até hoje, em uma das reuniões, o executivo deles falou: “bicho, agora parou tudo. Nós vamos trabalhar só Roberto Carlos e Michael Jackson.” Ou seja, estava todo mundo de escanteio.

O Baseado nas Ruas surgiu depois do fim desse contrato?

Sim, meio que emendou. A gente ainda ficou no Rio, uns dois ou três meses, tentando fazer o esquema do Magrellos virar, mas nada. Voltamos para Brasília. O Hebert e o Rossi se afastaram e ficamos só eu e o Raffa.

Eu comecei a escrever algumas coisinhas e falei com o Raffa para gente mudar de nome. Me veio essa coisa de Baseado nas Rua, se basear no que acontece nas ruas. O Raffa curtiu e firmamos esse nome.

De novo, fizemos uma demo, como uma proposta diferente. Apenas eu cantando, não tinha outras pessoas. O Raffa tinha um contato com o DJ Hum que ficou de apresentar o trabalho para o Donizete, da TNT.

Ele curtiu e lançamos Bagulho na Sequência pelo selo dele.

Você é conhecido por ter um flow diferenciado, criativo e fora das estruturas convencionais. Sempre foi assim? Como você chegou nesse estilo? Que influências você buscou?

O jeito dos caras cantar é sempre assim: 8x8 e rima no final. Eu não. Não sei se propositalmente ou até por ignorância, eu fazia diferente, umas levada tudo louca. Rima aqui e rima de novo.

Era difícil, porque eu não finalizava certo com o compasso. O Raffa dava o jeitinho dele lá pra coisa acontecer. Era por falta de conhecimento mesmo.

Até hoje, eu faço assim. Mesmo sabendo que tem o 4x4 ou 8x8, eu acabo fechando meio que errado e dando trabalho pra quem está fazendo a base.

Nessa época aí, vocês já tinham o nome de Dj Raffa e os Magrelos? O GOG já tinha saído do grupo?

Isso. O GOG participou com a gente só na época da dança. Quando a gente começou a rimar lá com o Raffa, ele já estava fazendo outra parada.

E o speed flow? De onde veio?

Eu ouvia muita música americana e tem um cara que canta até hoje: o Twista. O Raffa me deu uma ou duas fitas cassetes dele e eu ficava em casa, treinando e tentando cantar rápido igual ele.

Nos Magrelos, tem uma música: Doidão. Tem uma levada do speedflow, e pelo que me consta, parece que eu fui o primeiro a fazer esse tipo de levada no país. Ninguém tinha feito até nessa época esse tipo de levada.

Nos anos 90, o rap do DF conquistou um lugar de muita relevância no cenário nacional, com uma sonoridade bem particular. Você identifica pontos em comuns nas produções daquele período? Acha que existe uma identidade do rap daqui?

O jeito que os caras falam. O pessoal de Brasília tem as gírias específicas daqui, principalmente, o véi, que hoje, todo mundo fala. Mas, naquela época, ninguém conhecia fora daqui.

Nos instrumentais, cara, eu vejo umas especificações. O pessoal gosta muito de um pianinho, bem agudo assim, bem na cara, que chama bem atenção. O bumbão e a caixa também bem na cara, dá uma diferenciada. Eu acho que eles usaram uns timbres de Miami Bass.

Essa trajetória foi marcada por desentendimentos profundos entre alguns grupos, alguns artistas e produtoras. Na sua visão, quais os impactos dessas tretas para a cena do rap Brasília como todo?

Eu acho que teve ponto positivo e ponto negativo.

Ponto negativo: um desentendimento nunca é bom. Graças a Deus, não gerou morte, mas chegou perto. Pode chegar às vias de fato e morrer alguém, igual ocorre nos Estados Unidos, a gente volta e meia vê.

O ponto positivo foi a mídia. Queira ou não queira, fez alguém estar mais conhecido, ficar mais famoso, das pessoas quererem saber o que está acontecendo.

Até eu mesmo tive umas tretas com o GOG. Fiz até uma letra pra ele na época do Magrelos, chamando ele de falso amigo. Depois me arrependi pra caramba. O cara é amigo meu de infância. Nossa amizade nem teve nada a ver com o rap. A gente é, praticamente, irmão.

Depois eu pedi desculpa e a gente fez uma música chamada Tríplice Aliança, com a participação do X. Eu faço a mesma levada de Falso Amigo, só que inverti tudo. Foi uma forma de pedir desculpa pra ele. Eu acho que errei feio.

Se você pudesse mencionar um ou dois dos momentos mais especiais da sua trajetória, quais seriam?

Eu estava gravando o CD do Reflexão. Minha avó havia falecido tinha um ano e pouco e eu fiz uma letra pra ela: Vó Ana. Quando o Raffa terminou a mix, concluiu e me mostrou, eu chorei. Fiquei extremamente emocionado. Aquilo foi muito marcante pra mim.

Na sua opinião, quem são os personagens mais relevantes desses quase quarenta anos de rap no DF? Quem você apontaria?

Não tem como não apontar o Câmbio Negro. O primeiro disco do Câmbio Negro é de foder, é uma porrada.

O GOG.

Eu considero o Baseado nas Ruas, deu uma grande abertura para outros grupos em São Paulo. Código Penal. A Discovery foi um puta selo aqui em Brasília, gravou muita gente.

Então, o que eu acho mais relevante foram esses caras aí, deram uma alavancada no rap do DF.

TOP 5 do Markão - Álbuns ou faixas do Rap do DF
especiais para você

Câmbio Negro - Sub-Raça
Álibi - Pague para Entrar Reze para Sair
GOG - Vamos apagá-los com Nosso Raciocínio
Código Penal - Vivemos como o Diabo Gosta e Ninguém se Liga
Viela 17- O Alheio Chora Seu Dono