Markão Aborígene
Colamos em um banco no Setor Comercial Sul e trocamos idéia com um dos rappers mais engajados socialmente no DF. Artistas, escritor, assistente social, Markão Aborígene conversou com PESO sobre influências musicais, transformação social, rap e política e promessas da cena do DF.
Entrevista e foto por Thiago Flores em 28 de maio de 2019
Você nasceu no DF? Foi criado aqui? Onde você mora atualmente?
Eu sou filho de nordestinos. Nasci aqui em Brasília, mas passei meus primeiros momentos na Paraíba. Com quatro anos de idade, vim morar na Ceilândia até minha família conquistar o direito a moradia e fui para Samambaia. Morei lá até o fim de 2017.
Hoje, eu sou morador do Riacho Fundo 2.
Como era o consumo de música no seu ambiente doméstico durante a sua infância e adolescência? Quando o rap começou a entrar na sua vida?
Minha família consumia muita música romântica brasileira. Tinha muito vinil de Fernando Mendes, Evaldo Braga, Carlos Alexandre. Então, minha primeira infância foi ouvindo muito isso.
Eu morava na 14 do P Sul, bem próximo à Casa do Cantador. Então, minhas primeiras lembranças de shows ou encontros de música foi ver cantoria e ouvir repentistas lá. Tempos depois, eu descobri que meu avô era cordelista e repentista na juventude, mas não seguiu a vocação por conta da sua dezena de filhos e filhas né? Foi algo que me marcou muito: ouvir os repentes, participar dos festivais na Casa do Cantador.
Após esse tempo, mudando para Samambaia, já numa vida escolar, eu comecei a consumir meus primeiros raps. Naquela época, havia um ônibus tunado que fazia transporte pirata. Era uma febre em 1994-1995.
Era uma grande febre do rap com grave, o bass aqui em Brasília. Eu comecei a ouvir e consumir muito rap por conta desse transporte. Meu irmão já dançava também, já tinha um grupo de freestyle, já ouvia muito rap. Ele era fã de Câmbio Negro, fã de GOG.
Então eu comecei, principalmente a ouvir Câmbio Negro, precisamente o Diário de um Feto. Eu copiava a capa do disco, nem sabia o que era grafite. Quem fez aquela capa foi o Snupi, que é um grande amigo, um grande referencial de luta, de arte, de tudo.
Então, cara, acredito que minhas primeiras lembranças com a música foram essas: música romântica brasileira, repente e depois o rap.
E nessa época que o rap começou a fazer a sua cabeça, quem foram os artistas ou as obras do DF que mais te influenciaram?
É uma resposta plural.
Eu tenho um afeto muito grande pelo Câmbio Negro e pelo álbum Diário de um Feto. Marcou minha vida, principalmente, Ceilândia Revanche no Gueto, quando eu era criança, pré-adolescente.
As referências desse CD eram algo absurdo. Ele misturava banda de rap com capoeira. Falava muito de skatistas, de bikers, de movimentos de rua, que, à época, eu não tinha noção do que eram. Pra mim, foi algo incrível.
Perto desse período, eu comecei a escrever minhas primeiras letras de rap. Então, conheci um CD do DJ Raffa, um álbum de base, de produções que ele tinha feito para o GOG, pra Câmbio Negro, para Código Penal. Eu comecei a escrever meus primeiros raps em cima desse CD que eu roubei do Carrefour. Foi demais pra mim.
Mas, quando eu ouvi Assassinos Sociais, do GOG, eu falei: “opa, que mundo é esse que eu não percebo?”
Essa santíssima trindade (Câmbio Negro, Raffa Santoro e GOG) foi algo que me marcou profundamente aqui no rap em Brasília.
Foi também nesse período que eu passei conhecer o Mix Mania, do DJ Celsão e a ouvir as rádios comunitárias também. A voz do DJ Celsão, pra mim, foi algo histórico, marcado mesmo na memória.
Nos anos 90, o rap do DF ganhou grande projeção no cenário nacional com características bem marcantes. Você enxerga elementos comuns nas obras daquele período? Como você caracterizaria essa identidade?
Eu acho que o que marcou o rap do Distrito Federal foi não só essa cultura do bass, mas o discurso né. Então, a gente passa a expor as nossas violências, e não só do povo contra o povo, mas a violência do Estado contra o povo, de forma mais crua, de forma mais dura, de forma mais ríspida, por conta desse instrumental.
Então, acho que foi essa característica que o rap do Distrito Federal ganhou naquela época. Há seus pontos positivos e negativos, mas foi algo que mostrou que o rap do DF é aquilo. Tem um diferencial do rap feito em qualquer outro estado brasileiro.
Esse período também foi marcado por inúmeras tretas, rupturas e descontinuidade entre os principais artistas de rap de Brasília. Quais os impactos desses desentendimentos para a cena local, no curto e no longo prazo?
Era uma época em que a gente estava em ascendência. A gente tinha a maior gravadora de rap do país. A gente tinha grandes festivais de rap, como o Abril Pro Rap, que revelou vários artistas, nacionalmente conhecidos. Por isso, o impacto dessas tretas foi negativo, mano.
Talvez, se não houvesse essa divisão, por conta daquela treta, entre Álibi, Câmbio Negro e Cirurgia Moral e GOG, a gente tinha ocupado outro espaço no rap brasileiro, entende, irmão.
À época, festas foram canceladas, contratos foram rasgados, outras pessoas, de outros estados, compraram as dores pra A ou pra B e passaram a não contratar mais determinado rapper. A gente freou ali em 97-98 e demorou a voltar, enquanto, isso grupos de outros estados inflamaram o país.
Seu rap sempre foi carregado de crítica social e sua carreira sempre teve uma atuação prática muito consistente. Quando e como você decidiu aplicar na realidade aquilo que você já colocava nas letras?
O que, de fato, mudou minha vida no rap, mudou minha vida no hip-hop, foi, em 2003 ou 2004, ter sido presente do grêmio estudantil da minha escola. Eu pude perceber que tudo que eu cantava poderia ser colocado em prática, entende? Aquilo mexeu muito comigo.
Abriu um leque absurdo para mim: sentar na mesma mesa de Senador e disputar narrativa, pautar a vida escolar na periferia, fazer mutirão para fazer rampa para amigo cadeirante. Foi algo mágico pra mim. Não de mudança de narrativa, mas, de praticar, de fazer revolução.
Para quem não conhece o rap e o hip-hop, como você explicaria os potenciais de transformações sociais dessa cultura?
Primeiro, resgatar história, certo? O rap, é tradição oral. Por mais que a gente escreva, a gente age na oralidade. Historicamente, nossa ancestralidade se moveu na oralidade, os griôs, os africanos e pá.
A gente canta realidade e amplia vozes das nossas comunidades. O potencial pedagógico do rap está justamente nisso: aproximar as pessoas, a partir das realidades compartilhadas. Isso é muito Paulo Freire, inclusive.
A gente está próximo, a gente vivencia as mesmas tretas, os mesmo problemas das juventudes, dos adolescentes, da nação.
As pessoas tem um certo problema de dizer que rap é música pra bandido, que é música pra marginal. É música para bandido, sim! Nós somos o único estilo musical que lembra dos bandidos, nós somos o único estilo musical que lembra dos marginais. Então nós vamos continuar fazendo rap pra eles sim, para que um dia eles se empoderem e saiam dessa condição. Eu acho que é muito isso, mano.
O Brasil acabou de eleger Jair Bolsonaro como presidente, um candidato representante da extrema-direita. Como você avalia a participação do movimento hip-hop e do rap nesse processo eleitoral? E quais as suas previsões desse governo em relação a nossa cultura?
Eu acho que a nossa participação foi ridícula. Em todos os pontos, dos dois lados.
Os rappers de direita ou artistas do hip-hop que votaram em Bolsonaro. Eles não carregam maturidade política para discernir pra além da esquerda e da direita. As pessoas não entendem os malefícios de uma candidatura com viés fascista, racista, lgbtfóbico e misógino. Ele sempre foi esse cara e, por conta de uma religiosidade, por conta de uma placa de uma igreja, a gente abraçar isso, sabe. Sem aprofundar, sabe.
Do lado de cá, pensando nas pessoas que votaram em Haddad, eu acho que a gente se afastou da base, se afastou da comunidade. Ficamos preocupados com essa cultura das novas narrativas no rap, e, politicamente, a gente se afastou, mano.
Hoje, aqui no DF, quantos coletivos de rap, quantos coletivos de hip-hop, orgânicos, existem? Que fazem atividades sistêmicas? Que fazem trabalho de formação na base? Mano, dá para conta em uma mão. E olha lá.
É o que sempre se fala pra esquerda partidária: pra fazer uma autocrítica. Eu espero que a gente, enquanto hip-hop, enquanto classe pobre, trabalhadoras e trabalhadores, faça essa autocrítica também.
E volte nossas músicas para a base, porque mano, foram muito frágeis as nossas conquistas. E esse governo está para criminalizar e marginalizar muito mais a nossa cultura. A política dele é neoliberal, a política atende ao mercado econômico tanto que é um sujeito que sempre votou contra os direitos dos trabalhadores e das trabalhadoras.
É um governo que abre a nossa economia ao imperialismo. Então, eu acho que o caminho que a gente tem é para criminalizar muito mais nossas comunidades, tanto é o pacote anticrime, do ministro da Justiça, né, que dá carta branca para o assassinato de pessoas.
Na sua opinião, quem foram os principais personagens desses quase 40 anos de rap do DF?
Cara, eu destaco o DJ Chokolaty. Foi responsável pelas primeiras festas e gravações do rap no DF. É um cara que mantém vivo o audiovisual no Distrito Federal, tem um programa e tá caminhando para ter um canal de TV. Por tudo que ele fez, por tudo que ele é, por toda humildade e sabedoria que ele expressa. Pelo excelente DJ que é. Infelizmente, não é lembrado na maioria das vezes.
O DJ Raffa, um dos maiores produtores de rap do Brasil. Os adjetivos para ele são os mesmos: é professor, é um cara super carinhoso, super atencioso. Nos momento de fraqueza minha, sempre me acolheu. Se hoje eu sou conhecido, eu devo muito a ele.
A partir do momento que eu fui chamado para ser apresentador do Hip-Hop do Cerrado, eu passei a ser conhecido pelas pessoas aqui no Distrito Federal. Fazia rap, fazia militância, mas ser apresentador de festivais de rap de Brasília foi muito importante.
Não é do rap, mas vale ressaltar: o grupo BSB Girls, o maior grupo feminino de break da América Latina. O trabalho que essas manas desenvolvem, que também inclui rap, nos projetos, seja de DJ, seja de Break, é algo incrível e que a gente precisa se aproximar e fomentar, certo.
Quem são as suas apostas dessa nova geração de rap de Brasília?
Cara, tem o Hate, um MC do Recanto das Emas, quem vem das batalhas. Ele é muito sagaz, muito inteligente, muito próximo a comunidade e muito respeitoso a essa historicidade do rap, sabe.
Uma outra pessoa que faz rap, é cantora e faz outros baratos, faz R&B, é a Taliz, moradora de Samambaia. Escreve muito, canta muito. Eu acho que ela vai despontar para além do rap. Ela é uma mana cabulosa. O mesmo eu posso dizer da Rebeca Realleza, que é uma mana que ta aí, tá pronta, monstra.
Destaco também o Amaro, que é um rapper também de Samambaia,artista plástico, desenhista cabuloso e rapper LGBT, que tá em ascendência. Tem muito moleque aí.
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