DJ Mano Mix

Mano Mix participou ativamente de momentos importantes da trajetória do rap do DF. Tocou por quase uma década com GOG, além de ter acompanhado grupos como Viela 17 e Guindart 121.

Nessa conversa, falamos sobre gangsta rap; dias de luta e de glória na caminhada; e sobre transformações da profissão de DJ ao longo do tempo.

Entrevista por Thiago Flores, por email em 14 de junho de 2021.


Você nasceu no DF? Em quais lugares já morou por aqui?

Sim, nasci no Gama. Morei lá  e em Taguatinga, Ceilândia e Samambaia

Como começou sua relação com música? Fala um pouco sobre sua vivência com som, na sua infância, na sua vida familiar. Quando o rap entrou na sua vida? Você se lembra do primeiro contato?

Tudo começou aos 10 anos, quando eu saía com meus primos pras festinhas em casa de amigos. Logo montei um sonzinho e comecei a fazer festinhas. 

Fui DJ de algumas equipes de som na época e conheci o rap através do BSB Boys, na época formado pelo Kabala (hoje Rivas), DJ Jamaika e Kalaco. Me identifiquei com o som, com a ideia das letras, a rima,enfim..

Me envolvi, participei de quase todos os campeonatos de rap em Brasília e hoje tô aqui fazendo e contando história.

E o toca-discos? Quando e como aprendeu tocar?

Cara, nas festinhas, eu fica sempre perto do DJ, então, fui fazendo amizade.

Comecei a tocar de ouvido. Lembro que eu ouvia o Celsão tocando o MixMania e eu ia treinando pra tentar fazer parecido. Scratch comecei vendo o DJ Jamaika, depois o DJ Hum e logo veio KL Jay revolucionando.

Daí, fui no ritmo dos riscos (risos). Sou grato a esses professores de inspiração. 

Hoje, a profissão DJ está popularizada, disseminada em todo mundo. É mais fácil comprar equipamentos ,discos, aprender a tocar, ganhar dinheiro. Mas nem sempre foi assim. Como era a correria para conseguir as coisas, pesquisar discos? Como foi a reação da sua família quando você decidiu virar profissional?

Na verdade, meu irmão, equipamentos bons nunca foram de fácil acesso. Sempre foram muito caros e até hoje é assim. Estamos na era da controladora, mas as controladoras tops são 6, 7, 8 mil. Um par de toca-discos varia entre 7 a 10 mil. A galera não tem essa grana.

Não é fácil ser DJ. Embora a profissão tenha se popularizado, são pouquíssimos os que vivem da arte. 

O que facilitou nos dias atuais foi o transporte de equipamentos e a aquisição de músicas. Mas, a pesquisa por música boa continua. Não é porque está mais fácil acessar as músicas que está mais fácil de fazer música boa.

Em relação à aceitação da família, no princípio, foi como na maioria das famílias, né, teve uma rejeição.  Mas, depois, veio a aceitação (risos).

Como você conheceu o GOG e quando começaram a trabalhar juntos?

Mano, GOG foi um divisor de águas pra mim. Aprendi muito com ele. Poucos sabem, mas eu fui o primeiro DJ do GOG. 

Lembro que ele gravou um disco (Peso Pesado) e o produtor Leandronik nos apresentou.

 Viajamos juntos para abrir caminho para o rap de Brasília, depois cada um foi pro seu lado. No auge do disco Dia-a-Dia da Periferia voltamos a trabalhar juntos de novo. Daí, foram 10 bons anos de história. 

GOG foi um dos artistas que botou o nome do DF no mapa do rap nacional. Foi uma caminhada longa para construir essa relevância, principalmente em São Paulo. Fala um pouco dessa jornada, as dificuldades e os momentos mais marcantes desse período da sua carreira.

Acredito que a nossa entrada em São Paulo, juntamente com Câmbio Negro, fez com que as gravadoras abrissem os olhos para o rap de Brasília. Diga-se de passagem: o rap de Brasília é único, não tem igual.

Cara, eu costumo dizer que São Paulo te ensina a viver. Te abre os olhos para outra dimensão, saca?

Vou resumir minha experiência em São Paulo em duas situações opostas. A primeira: eu e GOG no trabalho do álbum Peso-Pesado encaramos uma chuva que inundou o lugar onde a gente estava.  A água batia na altura do joelho. A segunda: um show no Anhembi. 30mil pessoas cantando “É o terror, é o terror”. Fiquei paralisado quando vi aquilo.

Aonde eu quero chegar. São Paulo te ensina a viver tanto os momentos bons quanto os ruins.

Como você descreveria o estilo e a sonoridade do rap do DF nas décadas de 90 e no início dos anos 2000? Que tipos de influência musical você identifica nos sons daquela época?

Cirurgia Moral era um som bem gangsta. Câmbio Negro, um som com banda e guitarras, pra época foi um diferencial. GOG, um som mais politizado. DJ Jamaika, com uma linguagem bem específica da Ceilândia e com uns graves e samplers muito bem colocados. Baseado nas Ruas com um flow extraordinário. 

E tantos outros irmãos que fizeram diferença na cena:  DF Movimento, Inimigo Público, Circuito Fechado...

Como DJ e produtor musical, que diferenças você pode notar entre o som que era produzido no boom do rap do DF (90/2000) e o que é produzido agora? Que estilos/subgêneros musicais ganharam relevância e quais perderam?

Mano, tudo tem sua época. A música, no geral, passou por transformações. Com o rap, não seria diferente.

Vejo que os manos de hoje são mais organizados, mais empreendedores. Gosto muito das melodias atuais, das métricas nas levadas. O trap veio pra popularizar o rap. Não sou contra falar de amor, de ostentação, mas para a maioria essa realidade é fake news, mano.

Dizer que, na periferia, tá tudo bem, tudo numa boa, é falta de conhecimento, né? Na minha opinião, a periferia continua sofrendo, continua matando e morrendo.

Além do GOG, você já tocou e toca com muitos nomes do rap do DF. Quem foram/são os principais?

Mesmo na época do GOG, eu tinha um trabalho paralelo chamado MAFIA, formado por Nego Dé, WM, Dino Black, Dj Beetles.

Sou DJ do Pregadores da Paz e do Guindart 121. Mas tô sempre tocando com Dino Black , Ideologia e Tal, Rivas e Ravel e outros da cena..

Além dos grupos, você discoteca em festas. Como é o seu set hoje? Que tipo de som você tem curtido? Curte tocar coisas mais oldschool ou mais contemporâneas? Que artistas gringos e nacionais tem tocado recentemente?

Quem me chama para tocar já chama sabendo que vai ouvir um bom rap gangsta (risos). Partindo daí, vou migrando pra músicas atuais. Dependendo da casa, eu jogo no set umas versões remix que faço de músicas pouco ouvidas no cenário. 

Quais são as principais carências e deficiências do cenário daqui? Por que é tão difícil manter carreiras artísticas no Rap daqui?

Irmão,  infelizmente, o egoísmo é a maior carência do gênero rap. Os caras empreendem, chegam ao topo e não estendem a mão pros caras que são bons e ainda tão na correria, saca?

Tem muita gente pronta para acontecer, só esperando aquela janela abrir, mas os caras não abrem. Acho que é medo de perder um suposto destaque. Isso não é de hj, não. Nos anos 90, era do mesmo jeito, irmão.

Quem são os novos grupos ou MCs do DF com mais chance de se destacar local e nacionalmente? E DJs?

Cara, eu gosto muito do Froid. Acho ele muito bom. Tem o Dudu Man , tem o MB Sparro. São caras prontos, só esperando aquela janela ser aberta, entende?

DJs, eu gosto do Dj Brotha, gosto da Dj Ketlen. Acredito que vão voar como águia.

Na sua opinião, quem foram os nomes mais importantes desses quase 40 anos de rap do DF?

Mano, impossível não citar o Dj Raffa, o Gog, Dj Jamaika, Genivaldo da antiga Discovery, Marquinhos da Smurffs.

Caracas, irmão, tanta gente: Rei, Celsão, Daher, Toninho Pop lá atrás no começo, Bira da CdBox  e mais uma galera.

Top 5 do DJ MANO MIX- 5 músicas ou 5 álbuns mais especiais do rap do DF. Não precisa ranquear.

Vou de músicas.

GOG- É o Terror
Hungria – Um Pedido
Guindart 121- Um Bom Malandro
Tribo da Periferia – Valores
Pregadores da Paz – Canto da Sereia