JAPÃO

Japão é o artista do DF com quem mais trampei junto. Desde 2013, fizemos: um DVD pelo Fundo de Apoio à Cultura, desenvolvemos um projeto de identidade visual e um planejamento de carreira pro pro Viela; e, mais recentemente, aprovamos a turnê Viela 17 Convida, também pelo FAC.

Nessa entrevista, realizada no ponto mais alto de Taguatinga e com vista surreal para a Cei, Japão fala sobre o DF dos anos 90, o início da cena rap e os altos e baixos de uma carreira de quase 30 anos.

Entrevista por Thiago Flores em 14 de julho de 2018; foto por Ivan Lacombe

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Você defende e valoriza a Ceilândia e o ceilandense em tudo que você faz. Isso criou uma identificação muito forte com a cidade. Como começou essa história? Você é nascido aqui? Criado aqui? 

Essa minha identificação acontece porque eu nasci em 1971, no ano de criação da cidade. Não nasci, literalmente, na Ceilândia, porque não tinha hospital nesse tempo. Nasci no  Hospital de Pronto Atendimento Psiquiátrico, conhecido como São Vicente de Paula, em Taguatinga, onde nasciam todas as pessoas que moravam na Ceilândia.

Viela 17 faz referência a um lugar onde você morou ou mora?

Na verdade, eu sou nascido e criado na QNM 26 da Ceilândia Norte. Em 1981 ou 82,  meus pais se separaram e eu fui morar no Setor O minha mãe, lá na 6.

Em 1985, fomos para a expansão do Setor O. Primeiramente, nós invadimos um terreno na QNO 16. Depois, o pessoal queria levar a gente pro albergue. Mas conseguimos uma casa para morar provisoriamente na QNO 18. 

Enfim, ganhamos um lote na QNO 17, que era uma viela. Viela 17 veio justamente desse local que a gente foi morar e que, até hoje, minha mãe mora. Era para ser o nome do meu disco solo, após eu ter saído do GOG. Acabou virando o nome do meu grupo.

Hoje, a Ceilândia é maior cidade do DF, tem quase 600 mil habitantes.  Como era a Ceilândia da sua infância? Naquela época, como era a questão de infraestrutura? De violência, de opções culturais?

Eu sou de um tempo da Ceilândia que não tinha asfalto, não tinha esgoto, não tinha água. Só tinha energia elétrica, porque é mais fácil matar de choque do que afogado. 

A cidade sempre foi muito maltratada pelo poder público. Quando você não investe na educação, não investe na infraestrutura, você está patrocinando a violência. Então, a Ceilândia sempre teve esse karma, sempre foi muito violenta por isso: porque nunca se teve esse respeito, nunca se teve essa atitude de cuidado com a cidade. 

O rock de Brasília apresentou o Plano Piloto para o país. Mas você, X, GOG, Jamaika e outros dessa geração colocaram o DF como um todo no mapa da música brasileira. Vocês tinham noção que estavam representando uma parcela da população que nunca tinha tido voz na mídia? Como foi esse processo de reconhecimento?

Quando o Legião Urbana cantava no Faroeste Caboclo que o encontro do cara [do personagem João de Santo Cristo com o traficante Jeremias] era na 3 da Ceilândia [em frente ao lote 14] e papapá, o Brasil todo aplaudiu. Só que nós nos fudemos. 

A polícia chegava lá dizendo “Aqui é a 3? Porrada! Aqui só tem bandido! Aqui não é o Faroeste Caboclo?”. Era muito fácil você denegrir a cidade estando distante dela. Mas era ruim para quem estava aqui dentro

Eu lembro que eu morava na expansão do Setor O, em 1985. As pessoas iam para as festas no Plano Piloto e falavam: ”Tu mora aonde?” “Eu moro em Taguatinga” ou “ Moro no centro da Ceilândia”, mas ninguém falava que morava na Expansão, porque tinha vergonha. O apelido da Expansão era Vida na Miséria. 

As pessoas tinham vergonha, até que surgiu o Câmbio Negro. Quando o X falou “Sou negão careca da Ceilândia mesmo, e daí?” [na faixa Careca Sim e Daí, do álbum Sub Raça, 1993], que ele bateu no peito... As pessoas não tem noção do que foi o baque disso. 

Imagina você na Ceilândia, um lugar que sempre foi levado ao pior patamar que se pode ter de uma cidade... Imagina você ver um cara bater no peito e falar: “eu tenho orgulho de ser daqui.” Mano, botamos fogo no bagulho. Aí começamos. Escrevemos muita música sobre a Ceilândia.

Muita gente conheceu e falou sobre a Ceilândia também.  Racionais falaram na música Capítulo 4 Versículo 3 “Para os manos da Baixada Fluminense à Ceilândia, eu sei: as ruas não são como a Disneylândia”. Em Periferia é Periferia, eles pegaram  um trecho da nossa música. O Brown chegava e falava “Quero conhecer a Ceilândia, irmão”. Quando o Racionais veio pela primeira vez para Brasília, veio foi para Expansão do Setor.

A trajetória do rap no DF foi marcada por muitas tretas, muitos desentendimentos entre os grupos, entre pessoas, produtores. De que maneira você acha que esses conflitos atrapalharam essa caminhada? 

Tivemos várias etapas em SP. De 1990 a 94, DJ Raffa estava bombando lá: DF em Movimento. Depois veio o ciclo: Câmbio Negro e GOG, Cirurgia Moral, Jamaika. 

São Paulo abraçou o GOG. Então, nós ficamos muito tempo lá, fazendo muita coisa. Isso despertou um pouco de mágoa, um pouco de desconfiança. Um pouco de treta, de confusão, enfim. E aconteceu tudo que tinha que acontecer. 

Quem perdeu foi o rap de Brasília. Porque ninguém foi mais pra SP [na década de 90 e início dos anos 2000]. Nós continuamos lá. Mas a galera não foi mais.

Entendia-se que, se nos EUA, a treta do lado leste com o lado oeste funcionou para expandir o mercado do rap, aqui ia funcionar. Foi o contrário. Perdemos muito com isso. Perdemos muito tempo.

O único lado bom disso tudo é que adquirimos experiência. Não deveríamos ter feito isso. 

Quando você analisa as letras dos raps dos anos 90 e as de agora, é possível notar um distanciamento do protesto social por uma boa parte dos artistas contemporâneos. Como você enxerga essa mudança? 

O rap começou com uma causa. E essa causa era urgente, era gritante. Mas, o rap de protesto do final dos anos 80 até o anos 90 não tem que se repetir no século 21. A mesma receita que valeu para mim não vale para o Duck Jay. O Duck Jay criou a própria receita dele. O Hungria, a dele. O Heitor Valente tem a dele. 

Se você pegar 10 bandas do Distrito Federal, cada uma tem um discurso diferente. Tem rap pra quem gosta de fumar maconha, rap pra que gosta de namorar, rap pra quem gosta de passear, rap pra quem fala merda, rap pra quem fala de política, rap pra quem fala de amor. Você tem uma diversidade, isso é legal. 

Não é que não exista rap de protesto atualmente, existe sim. Mas é o seguinte: o rap de protesto não coloca comida na sua mesa.

Tu pega o Hungria. Há muitos anos atrás, todo mundo metia o pau: “fala merda, não sabe cantar, não saber rimar.” O moleque foi lá e agradou todo mundo. Hoje, está viajando o país todo, criando a família com dignidade, realizando seus sonhos. E tem uma porrada de cara que ainda diz “ Não, não é assim.”

Por que não é assim? O Hip Hop é muito cheio de dono. A gente passou o século 20 todo falando do capitão do mato. Hoje, muitos caras das antigas querem ser capitão do mato. Querem chegar no cara e dizer “ah, mas você não pode fazer isso. No Hip Hop, não pode fazer isso.”

Você tem a cartilha? Foi você que montou isso aí? O Hip Hop é a única cultura do mundo que te faz pensar e te faz ser livre. Se ela não fosse assim, nem nela eu estaria.

Já ouvi de mais de uma pessoa que o rap é universo ingrato.  Eu queria entender como essa ingratidão se manifesta.

O brasileiro, por si só, é ingrato. Brasileiro tem vergonha da sua história. Hoje, eu vejo uma porrada de pessoas que estão fazendo rap, fazendo dinheiro. É ótimo. Merecido, parabéns.

Mas, quando eu vejo a raiz, quem estava lá atrás e foi esquecido, eu fico muito chateado. Gente que deu a vida, deixou filho de lado, proposta de emprego, largou tudo pra viver o Hip Hop; hoje, não tem carro, não se alimenta de forma adequada,não tem casa onde morar, irmão. 

Tu passou 35 anos da tua vida dedicada ao rap e, hoje, você não tem um teto?!  Eu acho muito foda isso.

Um garoto, poucos dias atrás, chegou em mim e falou: “eu não entro num estúdio e pago dois mil reais pra um produtor, se eu posso comprar um beat na internet por 200.”

Ele esquece quem está fazendo essa música, a parte humana. Eu acredito no produtor.  Não é como fazer rap hoje em dia, que você vai ali, compra uma batida e faz uma rima em cima. Minha escola foi assim: o artista cantava alguma coisa e o produtor: “Ah, esse é o sample, vamos viver essa parada.” 

Hoje, essa ingratidão tomou uma forma tão grande que eu falo que, com poucas exceções, as pessoas que construíram o Hip Hop desse país, as pessoas que fizeram a raiz do rap, em pouco mais de 10 anos, serão velhos, idosos e dependentes. E esquecidos.

Você falou que o rap não te deu dinheiro. O que ele te deu de mais importante?

Me deu uma coisa que dinheiro nenhum no mundo vai pagar: em qualquer lugar do Brasil que eu chegar, eu vou ser considerado pela música que eu fiz. Vou ter uma cama para dormir e comida. Isso eu consegui através do rap, sacou?

E me proporcionou vivências e memórias que nunca serão esquecidas. O período que eu passei em São Paulo foi um tempo muito intenso da minha vida. Foram oito anos que jamais serão apagados.

Pra tu ter ideia, quando eu recebi o primeiro cachê de verdade de um show, eu fiquei maluco. Falei pra mim mesmo: “Caralho, eu trabalhei minha vida toda e não recebi essa grana.” 

Fiz uma promessa: “eu vou gastar tudo. Enquanto eu estiver com o GOG, eu gasto tudo.”

Velho, eu gastei dinheiro demais. Eu já fechei cabaré, em São Paulo. Passava uma semana… Era tudo novo pra mim, véi. Eu voltava e contava tudo para minha mãe.  “Mas tu gastou o dinheiro todo?” Eu falava “mãe... porra, andei de lancha! Nunca andei de lancha na minha vida.” Eu não queria nem saber.

Algum momento específico que você tenha um carinho especial?

Teve um prêmio na MTV, em que a gente estava concorrendo ao prêmio de melhor videoclipe de rap [Video Music Brasil 1997, com Periferia Segue Sangrando, dirigido por Juarez Pretrillo, pai do DJ Alok].

Chegamos. Vários artistas, aqueles que você só via na televisão. Pensamos “vamos sentar aqui no fundo mesmo.” Sentamos e ficamos lá. De repente, chegou uma mulher da produção falando: “Que isso?! Você estão concorrendo, vamos sentar ali.”

Fomos seguindo a mulher, descendo o auditório e vários artistas pica ficando para trás. Passamos o Jô Soares. Eu pensei:  “tá errado, vai levar para o matadouro.” 

Daqui a pouco, a mulher fala: “vocês vão sentar aqui, de frente para o palco”   Eu, porra, na maior felicidade, me sentindo um puta artista. Os caras que eu admirava estão lá para trás e eu estou sentado aqui na linha de frente. 

Eu olho e quem está do meu lado? Paula Toller, do Kid Abelha.  Você não tem noção. Eu era apaixonado por essa mulher. Comecei a contar pra ela que eu indicava as músicas dela pras minhas namoradas. Ela falava ”Que massa, você vai me contar essas histórias.” Contei histórias de tudo, de moleque, de quarentão, de namorada... Ela dava risada,véi.

Daqui a pouco, quando eu fui ver, tava todo mundo no sofá, tomando uísque... Eu nunca tinha tomado uísque na minha vida. Na festa, tinha umas meninas de patins, com uma mochila, que serviam uma pinga de coco para você. Nesse dia, eu fiquei muito ruim...[risos] No cenário da festa, rolavam umas árvores com uns frutos, que eu não sabia o que era. Eram sanduíches, véi. Você tirava o sanduíche e comia.

Sei que, no outro dia, nós chegamos na casa do X e tinha pra lá de 50 sanduíches, pegamos tudo. Falamos “Véi, amanhã a gente coloca tudo no micro-ondas e comemos essa porra toda!” Levamos garrafa de uísque, tinha mais de 50 cds do Jota Quest, que fez o show principal da noite.

Então, o rap proporcionou esses momentos, entendeu? 

Quais as maiores deficiência que você vê na cena local? Por que o DF, embora tenha um público gigante de rap, talvez não tenha um mercado que consiga sustentar artistas, produtores, realmente um circuito mais bem formado de rap?

Santo de casa não faz milagres. Brasília sempre teve esse problema. Legião Urbana, Capital e Plebe Rude estouraram lá fora para depois fazer sucesso aqui. Raimundos e Natiruts tiveram que sair de Brasília e ir para SP para fazer nome. E não é diferente com o rap. 

Eu sinto falta do rap de rua. Aquele rap rimado, de rua mesmo. Hoje, parece que, se não tiver um incentivo do Governo, acabou o rap. E não é bem assim. “Ah, se acabou o aparelho do Governo, não tem mais break. ” É necessário política pública, sim, só que não somente isso. 

Os caras se acomodaram. Uma certa parcela se apoia no incentivo governamental para tentar fazer o seu trampo,  o que, de certa forma, não é errado, mas é insuficiente. 

Se você pegar o que nós produzimos de rap entre 94 e 2000, a garotada não conseguiu produzir de 2000 até hoje. Ninguém tá produzindo nada, ninguém tá lançando nada. 

E tem o ego da galera das antigas. As pessoas tem um defeito muito grande: de quererem ser  donos da verdade. E achar que a sua verdade tem que ser imposta. No Hip Hop, não tem isso, irmão, não tem regra. Ninguém é dono do Hip Hop. 

Quem são os artistas locais novos que mais te chamam a atenção?

A banca do Alto Kalibre, com certeza... Porra, tem o Diogo Loko, parceiro de canção também, tem o Heitor também lá, tem uma galera aqui na Cei fazendo um trampo legal.

Na sua opinião, nesses quase 40 anos de caminhada, quais personagens mais contribuíram para a trajetória do rap do DF?

DJ Raffa, sem dúvida

E o Top 5- álbuns ou faixas do Japão?

Câmbio Negro – Subraça
GOG – Dia a Dia da Periferia
Código Penal – Vivemos como o Diabo Gosta
Tribo da Periferia – 3º Último
Viela 17 – Alheio Chora Seu Dono


Referências

[ GOG- Periferia Segue Sangrando- Direção: Juarez Petrilho- indicado ao prêmio de melhor videoclipe de rap no Video Music Brasil 1997 ]

[ Racionais MC’s- Capítulo 4 Versículo 3- faixa do álbum Sobrevivendo no Inferno, 1997 ]

[ Racionais MC’s- Periferia é Periferia- faixa do álbum Sobrevivendo no Inferno, 1997]

[ Tribo da Periferia- Terceiro Último, lançado em 2014]

[ GOG- Dia-a-Dia da Periferia, lançado em 1994]

[ Viela 17- O Alheio Chora seu Dono, lançado em 2005]