IURI RIO BRANCO

Iuri Rio Branco é um baterista e produtor musical de Brasília, radicado em São Paulo desde 2017. Versátil, produziu álbuns dos brasilienses Flora Mattos e Jean Tassy, trabalhou em série para HBO com Daniel Ganjaman, desenvolveu projetos para Budweiser e criou trilhas publicitárias.

Em 2021, produziu o aclamado De Primeira, da cantora mineira Marina Sena. Nessa entrevista, Iuri fala sobre processo criativo, evolução do rap e sobre a diversidade de trabalhos que tem produzido.

Entrevista por Thiago Flores em março de 2019, por email, complementada por Whatsapp em agosto/19 e novembro de 2021.

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De Primeira, da Mariana Sena, está voando. Como foi a produção desse álbum? Como você conheceu a Marina e como foi o trabalho até chegar a esse resultado final?

O disco está indo super bem mesmo. O processo de produção da obra foi remoto, online. A gente se conheceu a partir de uma amiga em comum, que apresentou o meu trabalho para a Marina e o trabalho dela para mim.

A Marina estava nesse período de levantar quem iria produzir as música solo dela. A gente partiu de 10 canções que ela me enviou com violão e voz e eu produzi em cima, remotamente.

Foi tudo correndo muito na boa. Tudo se encaixando. Na hora de gravar a voz dela pro disco, a gente se encontrou e montou um estúdio numa chácara, perto de Belo Horizonte.

Levei os equipamentos, a gente passou uma semana e gravou todas as vozes do disco lá, salvo Voltei pra Mim, que ela compôs e mandou depois de tudo pronto. Uma música que a gente fez no período da gravação na chácara foi Me Toca. A gente fez no dia que a gente se conheceu pessoalmente.

O trabalho foi feito de forma muito íntima. Poucas pessoas participaram do processo além de mim e da Marina. Isso tá no disco, tá impresso nas músicas.

O público e a crítica tem recebido o álbum muito bem. Como tem sido a oferta de oportunidades, convites, parcerias? E prêmios, o que tem surgido de indicação?

Muita agenda de shows, muita proposta de todas as naturezas, para todo tipo de coisa. Não saíram todos os prêmios do ano ainda, mas a Marina foi indicada em 04 categorias no Prêmio Multishow: álbum do ano, canção do ano, revelação do ano e Experimente.

Acho que, passando o tempo, vai surgir mais coisa. Está sendo bacana o reconhecimento tanto popular quanto da crítica.

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Você produziu a trilogia de EPs do Jean Tassy (Anteontém(2018), Ontem(2018) e Hoje(2020)) e o álbum Amanhã(2021).  Como foi o processo de pré-produção desses trabalhos? Que tipo de sonoridade vocês buscaram ou inspiraram as batidas dessas obras?

O que me inspira são os próprios artistas. Se o artista escolheu trabalhar comigo, foi, com certeza, por admirar o meu trabalho. E, se eu aceitei trabalhar com ele, foi pelo mesmo motivo.

Acredito que eu e os artistas aprendemos muito um com o outro durante esse processo. E nos inspiramos em nós mesmos. 

No caso do Ontem, fizemos tudo do zero, em sete dias. Eu fazia o beat tocando uma harmonia no piano e ele criava uma melodia. Enquanto eu transformava aquilo em batida, ele letrava a melodia. Gravávamos o esboço e, a partir daí, criávamos o restante. E gravávamos sucessivamente. Em alguns casos, eu criava o refrão tocando no piano e, daí, surgia o resto da letra. 

Tem diferença produzir um cara como o Tassy, que canta e é bem melódico, do que produzir um rapper tradicional, por assim dizer?

Tem, sim, uma enorme diferença gravar quem canta melodicamente bem. Musicalmente, é mais ampla a gama de possibilidades melódicas. Para determinados estilos, isso é fundamental. 

Mas cada artista tem sua riqueza e sua identidade. Uma não diminui a outra.

Você também produziu o disco da Flora Mattos, Electrocardiograma (2017). Fala um pouco como foi a gravação desse álbum.

Meu processo é basicamente: primeiro, a escolha de repertório: ouvir coisas, aprender coisas e escolher o caminho.

Eu costumo me inspirar no próprio artista com o qual estou trabalhando. No caso, a Flora. Ouvir tudo que ela tem a dizer, entender que fase ela está vivendo e tentar trazer da maneira mais natural para a gravação. 

Extrair o máximo de sentimento da voz do artista: isso me inspira e direciona pra fazer o que é preciso.

A Flora costuma se envolver em algumas polêmicas, principalmente nas redes sociais.  Algumas delas com nomes importantes do rap nacional. Isso chegou a influenciar na produção e divulgação do disco? Você acha que isso afeta positiva ou negativamente a carreira dela? 

Como disse acima, tudo que ela está vivendo e a personalidade dela vão ser gravadas em forma de letra e música. Então, influencia sim. 

Música é sentimento. Caso contrário, seria mentira tudo que está no disco. Se não houver sentimento verdadeiro, não tem como ninguém se tocar com o que está ali.

Sobre a divulgação, não posso falar a respeito, pois trabalho com a produção musical e não com a executiva. Sobre como isso vai afetar a carreira dela, deixo para ela mesma responder, pois quem sofre as consequências dos atos dela é ela própria.

Na sua visão de músico e produtor, que características tinha o estilo de rap do DF nos anos 90? Como você descreveria o som que botou o DF no mapa? 

O rap DF sempre foi num estilo mais WEST COAST, usando pouco sample e com elementos mais tocados (synths e batidas programadas). O que pôs no mapa, creio, foi o lance das letras e o jeito de cantar.

Além disso, o jeito de se produzir e o número grande de grupos de rap fizeram com que o DF, naturalmente, conquistasse um espaço grande no cenário nacional.

Apesar de terem sido importantes para o surgimento e consolidação do rap do DF, muitos dos artistas dessa época perderam espaço atualmente. Muitos sofrem com a instabilidade financeira e falta de novas oportunidades. Na sua opinião, quais as razões dessa circunstância?

Acredito que pela não renovação. Até um tempo atrás, o rap era um gênero pouco musical, tecnicamente falando. O lance é: os artistas novos estão mais musicais. Digo, os bons. Talvez, por isso, consigam navegar melhor entre os estilos e, consequentemente, acabam trabalhando mais. Acho que é tudo uma coisa ligada a se renovar, se reciclar, se reinventar...

Que tipo de transformações você enxerga nas sonoridades produzidas nos anos 90/2000 e atualmente? E no mercado?

De lá pra cá, quebraram-se muitas barreiras musicais e ideológicas. 

Fora isso, tudo evolui. Acho que isso aconteceu com o rap e vai acontecer com tudo que é tipo de arte. O mercado mudou muito por conta da internet. Hoje, usa-se a internet para tudo. Antes, não era assim, era tudo muito mais restrito. Hoje, o moleque faz o som sem sair de casa, posta na internet e se bombar, virou. 

Ficou mais fácil ser visto e mais difícil ser notado. Muita concorrência. Muita coisa inútil tirando sua atenção. A maneira de se distribuir música mudou e o público também. Mudou o jeito de ouvir as músicas. 

Quem não se adapta não sobrevive.

Você é um profissional bastante versátil. Na sua opinião, que qualidades/habilidades você possui que te permitem essa diversidade de trampos?

Acho que consigo fazer isso por estar envolvido com música desde criança. Sempre foi meu maior interesse. Tenho uma relação muito próxima, muito natural com a música.

Nunca estudei, não, mas, de alguma maneira, eu interpretei música de uma forma muito natural, muito humanizada. Eu respiro música, eu ando, eu falo, eu sinto cheiro de música.

Então, a assimilação dos mais diversos ritmos e gêneros que eu tive contato possibilitou a versatilidade de fazer um monte de coisa diferente. Eu fiquei muito tempo interessado, prestando atenção em cada tipo de som que eu escutava.

Música foi a coisa que mais prestei atenção na vida.

Quais são os trabalhos mais recentes e os que ainda estão pra sair?

Desde 2019, produzi: o disco Ritual(2019), do Davi, ex banda Uó; fiz parte da trilha da série Pico da Neblina, da HBO, com direção musical do Daniel Ganjaman e direção de cena de Fernando Meirelles;  participei de um projeto da Budweiser, o Colla-B, no B-Side Studio, com o produtor e compositor Emcee Lê e a cantora Regiane Cordeiro; lancei os álbuns do Jean Tassy, da Mc Souto (Ritual, lançado depois da realização dessa entrevista), da Marina Sena.

Devem ter trampos com Tássia Reix, Elo da Corrente, Pedro Alex e outros artistas de diferentes estilos.

O que precisa ser desenvolvido na cena do Rap do DF?

Profissionalização artística/musical. Locais para fomentação e apresentação dos grupos e artistas da cena local.

Na sua opinião, quais os personagens mais importantes do rap do DF? 

GOG, X (Cambio Negro), Dj Jamaika , Tribo da Periferia, Flora Matos.

Qual o seu álbum preferido dos artistas do DF?

O primeiro do Câmbio Negro.

Top 3 – Faixas ou Músicas do Iuri Rio Branco

Câmbio Negro – Careca Sim e Daí?
Álibi – Dois Malucos num Opala 71
GOG- Matemática na Prática

Referências

[ De Primeira - primeiro álbum solo da cantora mineira Marina Sena, lançado em 2021]

[ Jean Tassy- artista do Distrito Federal, ex-integrante do grupo The Gust Mc’s]

[ Ritual- álbum do cantor Davi Sabbag, ex-integrante da Banda Uó, lançado em 2018]

[Pico da Neblina- série dramática lançada pela HBO em 2019, com direção de cena de Fernando Meirelles e direção musical de Daniel Ganjaman]

[Colla-b- #BSideStudio - projeto desenvolvido pela Budweiser de experimentação para a produção de diversos tipos de conteúdo. Entre as propostas, estão apresentações solos, sessões ao vivo, parcerias musicais, talks, podcasts e a criação de singles inéditos]

[Ritual- álbum da paulistana Souto MC, lançado em 2o18]