Itin do Brasil
Ítalo é DJ, produtor musical, produtor cultural e empresário. Nesta entrevista, PESO aborda diferenças entre festas no Plano e nas quebradas, a trajetória do Perde a Linha, desafios para empreender no setor cultural e potenciais da cena do DF.
Entrevista por Thiago Flores via email em 8 de março de 2021.
Quando e como começou seu envolvimento com música?
Eu sempre fui bastante eclético e escutei de tudo um pouco. Comecei tocando violão, na seqüência, fui pra guitarra. Toquei em várias bandas de hardcore, metal e indie rock. Na música eletrônica, comecei fazendo um curso de mixagem na antiga DJ Academy Brasil, onde toquei muito 4x4, house music e derivados, como DJ Ítalo Oliveira.
No Perde a Linha, das antigas, foi onde iniciei o formato DJ Itin do Brasil, no qual a mistura de ritmos é muito maior, do hip-hop ao samba, misturado com minhas produções de rap ao ragga, do trap ao funk carioca.
E os primeiros eventos que você produziu?
O primeiro evento que produzi foi o Open’n’Roll(2012), palco aberto para canjas de violão. A entrada custava dois reais, no espaço Galeria Olho de Águia, em Taguatinga Norte.
Na sequência, comecei a fazer shows e convidar bandas pra tocar, com eventos de nomes diversos, o que deu origem ao Isso Aqui é DF.
O Isso Aqui é DF é uma referência para a cultura underground na cidade. Fala um pouco sobre a trajetória dessa iniciativa e os maiores desafios de manter as atrações culturais da casa.
O Isso Aqui é DF Produtora é o que deu origem ao bar e ao festival. Surgiu com esse nome em 2013. O Isso Aqui é DF Cozinha BAR funciona desde 23 de Junho de 2016. Entre altos e baixos, seguimos resistindo!
Cara, é bem difícil organizar a agenda, na verdade! Em ‘tempos normais’, a procura dos artistas pra tocar por lá é bem boa! A gente foca em oferecer uma estrutura que o artista consiga tocar ao vivo com qualidade, fazer uma boa apresentação e mostrar sua obra.
O maior desafio para o formato apresentação no bar/rua é a captação de recursos para fazermos convites mais ousados.
Apesar de não ter sido um dos fundadores do Perde A Linha, você tem uma relação muito forte com esse coletivo/festa que impactou a noite do DF. O que era e o que aconteceu com esse rolê?
Durante muito tempo, fui público do Perde a Linha. Aqui em Taguatinga, não perdia um. O Perde a Linha já foi, sem dúvida, uma das melhores, se não a melhor festa do DF! Principalmente, quando o assunto era curadoria.
O Perde a Linha começou como festa sem local físico. Era realizado em diferentes lugares em Taguatinga. Foi no extinto América Rock Club onde a festa finalmente teve uma base e se firmou durante alguns anos.
Se não me engano, em 2013 ou 2014, foi feito o convite pela Clube 904 para gente levar a festa pra Asas Sul. O América não andava bem das pernas e o Perde a Linha não tinha outro lugar certo pra ir, então, o convite caiu como uma luva! Ali, conseguimos espaço e condições de dar alguns passos adiante.
Porém, uns 3 anos depois, saímos de lá e tivemos um prejuízo enorme com o Espaço Secreto. A partir daí, tivemos muita dificuldade em firmar um local. Como consequência das dívidas, o antigo dono da marca vendeu o Perde a Linha, que direcionou os eventos para o segmento do funk e seguiu com alguns shows importantes como MC Rebeca, MC Don Juan e outros.
No Perde a Linha, tive a oportunidade de produzir eventos importantes com a rapaziada, com artistas conceituados como KL Jay, DJ Cia, Soom T, MC Carol de Niterói, Heavy Baile, Dj Spin(Tek Life- EUA), Attoxxa, Sango, entre outros.
E quais as maiores diferenças entre fazer festa no Plano e fazer festa nas satélites?
Cara, se eu pudesse, eu não saia das satélites pra fazer rolê em lugar nenhum!
A desvantagem das festas no centro para quem é da periferia é que você vai gastar uma grana de Uber ou gasolina. Ou vai dormir na rodoviária, porque o transporte público aqui no DF tem hora pra fechar e fecha cedo. Lamentável.
Mas, falando como produtor, a nossa temporada no Clube 904 foi muito boa! Só ali, as contas começaram a fechar, entende? Começou a dar lucro, podíamos pensar em atrações melhores. Além disso, tínhamos uma estrutura excelente de som e infraestrutura que era disponibilizada pra gente.
Tenho uma percepção e queria saber o que você acha. Enxergar uma grande quantidade de festas de rap/hip-hop, principalmente no Plano, muitas delas extremamente cheias, mas com poucos rappers locais se apresentando. Isso ocorre mesmo? Acha que existem mais oportunidades para DJs do que para MCs? Seria uma mera questão de custo para o produtor? Ou existem outros fatores que influenciam isso?
A questão dos lines é com cada produtor mesmo!
Existe uma dificuldade em fazer shows de rap. A galera não quer pagar para ver o MC da nossa quebrada. Mas se vier o fulaninho de fora, o show enche, entende? O público tem um pouco de responsabilidade nisso também. Tem que apoiar mais os nossos!
Eu não acho que exista mais oportunidade pra DJs do que pra MCs. O que rola é: geralmente, os custos/logística do DJ facilitam as coisas. Mas isso é muito relativo. Por exemplo, existem cachês de R$ 10k pra DJs e existem de R$ 500 também. Para os MCs, é a mesma coisa.
Não é só dinheiro, existe uma negociação, também, sei lá. Eu acho que para achar o real motivo teríamos que ver quem ta fazendo cada role. O que o produtor quer com o evento? Quer conceito? Quer difundir cultura? Ou só fazer um troco?
Nos anos 90, o rap do DF ganhou muita projeção nacionalmente. Na sua visão como DJ e produtor musical, que sonoridade era essa? Você enxerga elementos comuns nas obras daquela época, uma identidade?
Foi ali que o DF se tornou um forte nome na cena. Ali começaram as produções mais ousadas que reverberam até hoje no que é produzido na cidade. Foi uma escola! Os 808 bem marcados, os synths simples e melódicos, isso que me vem à cabeça.
Que diferenças você enxerga no rap produzido nos anos 90/00 e nas sonoridades atuais?
A partir dos 2000, com avanço da tecnologia, o som cresceu, não tem como!
Os raps do início dos 90 eram um pouco mais orgânicos e com timbres mais crus. Eu não sou muito técnico pra falar certinho, mas é isso que sinto!
Os raps dos anos 2000, com o avanço da tecnologia e com a galera se especializando, vieram com outras variedades de timbres, muito 808. Alguns grupos, como Tribo da Periferia e Tropa de Elite dominaram por aqui no DF.
Cara, hoje, eu acho que a gente está no melhor momento nesse quesito. Os produtores estão conciliando muito bem o uso das baterias eletrônicas com sons orgânicos, samples e fazendo uma mistura que eu considero que seja o caminho.
A galera está enjoando de raps que só copiam os beat gringos. A gente tem muito para oferecer. O Brasil está num momento criativo bastante irado pro rap.
Quais novos artistas do DF você acha que podem despontar no cenário nacional?
Eu gosto muito do trampo que o MURICA e o Dj Kbça estão fazendo. Acho que eles tem todo o potencial!
Curto muito o trampo do Hate RCT, Nauí, MOVNI, Heitor Valente. Tem muita gente, esses foram os nomes que vieram na cabeça.
Quais foram os maiores ou mais importantes eventos que você produziu?
No perde a linha tive importantes eventos que tive a oportunidade de produzir junto com a rapaziada, com artistas conceituados como Kl Jay, DJ Cia, Soom T, MC Carol de Niterói, Heavy Baile, DJ Spin (Tek Life – EUA), Attoxxa, Sango, entre outros. No Isso Aqui é DF, sem dúvida o evento mais importante que produzi foi o nosso Festival Isso Aqui é DF, que caminha para a sua quarta edição, com 3 edições, totalmente independentes.
Na sua opinião, quem são os personagens mais importantes desses quase 40 anos de rap do DF?
GOG, X e Japão não podem ficar de fora dessa lista, claro. Duckjay.
Mas, real, para todos que são de verdade e vivem o hip-hop a mili anos: meu total respeito e admiração.
TOP 5 DF do Itin do Brasil- faixas ou álbuns do rap do DF especiais para você.
GOG - É o Terror
Viela 17 ft. Look e Vadioslocos - Só Curto O que é Boom
Tropa de Elite - Seis Bocão (Opala 71 Azul)
Realleza - Lua da Night
Murica - Esquina Paranóia Delirante.