HATE RCT

Hate RCT é um dos nomes mais destacados da nova sofra do rap do Distrito Federal. Cria do Recanto das Emas, desenvolve trabalhos em batalhas de rima e no estúdio.

Conversamos sobre trap, drill e grime; racismo e representatividade; e novos talentos da cena brasiliense.

Entrevista por Thiago Flores em 8 de fevereiro de 2022


Onde você nasceu? Onde morou e onde você mora atualmente?

Nasci aqui no DF. Desde quando nasci, moro no Recanto Das Emas.

Sua carreira teve início nas batalhas de rima, certo? Fala um pouco sobre sua trajetória. Quando começou e quais os momentos mais importantes dessa caminhada?

Eu sou cria das batalhas. Antes, eu só escrevia. A batalha me deu coragem pra segurar um microfone e perder a vergonha de se apresentar. Me fez trabalhar a minha voz também, ajuda muito nisso.

Comecei em 2016 a batalhar, antes somente assistia. Tentei a seletiva nacional em 2018 e não classifiquei. Em 2019, depois de um processo de estudo e evolução, acabei sendo campeão estadual, vice campeão do centro-oeste e terceiro lugar no Duelo Nacional de MCs.

Tive batalhas importantes no Rio Grande do Sul, em uma época que morei por lá, em 2018 se não me engano, em Goiânia também. E muitos momentos importantes no DF, como o título no Brasília Tattoo festival…

Já tinha a intenção de virar um artista de estúdio? Como o mundo das batalhas e o mundo do estúdio se influenciam na sua carreira?

Eu já escrevia umas músicas antes de batalhar, mas só tive vontade de gravar uma música depois de um tempo batalhando. Mas, a partir da primeira faixa, fui me especializando, estudando mais, trabalhando minha voz para fazer músicas melhores.

Quanto melhor as músicas vão ficando, mais dá vontade de fazer. Quanto mais você descobre, mais vontade de fazer música.

Você já iniciou sua carreira lançando faixas de trap, drill, grime e outros subgêneros mais modernos. Quando você conheceu essas levadas? Quem são as suas referências nesses estilos?

Em relação ao trap, os artistas daqui do DF já conhecem e fazem sons assim há muito tempo. O drill e o grime eu conheci pelo artista Vandal, lá de Salvador-BA, e pelo mestre OG L, um dos melhores produtores do DF, com quem estou tendo a oportunidade de trabalhar junto. Ele me ensinou bastante.

Tenho muitas referências nesses estilos. No trap, gosto do Quavo, Lil Baby, Gunna, 21 Savage, 2chainz, Kodak Black. No Brasil Mc Igu, Jé Santiago, Yunk Vino, Yung Buda, Borges, Jovem Dex.

No drill e no grime, tem o Vandal, Febem, Harlem Spartans, Millionz, geral do Covil da Bruxa, Headie One, os de Portugal Xrootz, Carlito.

O protesto e os ativismos racial e social são relevantes na sua obra. Dá pra notar também um senso de responsabilidade apurado nas letras, a ideia de ser um exemplo pros seus. Como é a sua preparação para colocar essas ideias no papel?  Você só deixa fluir ou você gosta de estudar mais a fundo os temas que você aborda?

Eu gosto de deixar fluir, mas também tento estudar mais a fundo o assunto, pra ter uma letra mais consistente e o domínio sobre o que eu tô escrevendo. Vou escrevendo o que estou sentindo, de acordo com cada batida e gênero.

A responsabilidade é mais uma autocobrança. Ser artista é isso: alguém pode tá te vendo como exemplo e se inspirando em você, sem você saber. Então, tem que pensar nessa responsa sempre.

Como foi sua relação com música na infância e adolescência? O rap sempre esteve presente?

Na infância e adolescência, ouvia muito samba, pagode, rap do DF, funk e rap dos Estados Unidos. Isso foi moldando minha cabeça pra música. O rap sempre esteve presente, minha mãe ouvia Racionais desde quando eu era pequeno

Como você descreveria a sonoridade do rap produzido no DF entre 1990 e 2000, a cena que colocou Brasília no circuito nacional? Você acha que as obras de GOG, Jamaika, Álibi, Cirurgia Moral tem alguma coisa em comum, uma identidade?

Sim. Nessa época, o rap DF dominava muito. O rap nacional tinha um estilo forte, né, de letra e sonoridade. ODF fazia muito bem isso.

O que percebo em comum além da sonoridade e temas abordados, era a revolta com as injustiças do sistema e governo brasileiro, os problemas sociais em comum que todos esse artistas viviam.

Quais as principais transformações entre o rap que era produzido nos anos 90/00 e o que é produzido atualmente?

Até hoje, o rap DF tem seu estilo próprio de grave e produção. Pra mim, o principal é isso:  as batidas, o 808, o grave, né?! Temos Hungria e Tribo da Periferia dominando porque criaram um jeito bem autêntico e original de fazer rap.

Acredito que a nova geração trouxe bastante versatilidade, porque explora outros estilos de rap. Os temas também mudaram um pouco. Antigamente, você não ouvia muitas músicas por aqui falando sobre sexo, festas, por exemplo, Isso foi mudando com o tempo, com a chegada forte do Tribo, do Hungria, Pacificadores… 

Eu gosto de todos os estilos de rap do DF: do GOG, com um mais politizado, focado na letra e em apontar as injustiças sociais e propor soluções, até o Tribo conseguindo abordar qualquer tema.

O Froid representa muito dessa mistura da nova e antiga geração do DF, só que fazendo do jeito dele na autenticidade dele

Tudo faz parte do rap. Nenhum deixa de ser rap.

Na sua opinião, quem são os novos artistas do DF com mais chances de despontar local e nacionalmente?

Acredito muito nos irmãos daqui, como o André Aerre, Santzu que já cresceu demais na cena.

Na minha quebrada, tem o Dudu Teas e o Malik RCT.

Tem o Rach, o Matuto, o Bluntpk, o Leonni, o Will Ori, o Kaylon, a Novin Mob, o Bless, a Aff Mídia, a Ediá, a Taliz, a Fugazzi, o Vullto e por aí vai.

É muita gente boa por aqui.

Quem são os personagens mais relevantes desses quase 40 anos de rap no DF?

GOG, Tribo, Hungria, Pacificadores, Baile da Smurphies, Froid. Os das antiga, Código Penal, Liberdade Condicional. Por aí vai. Acredito que todo mundo que contribuiu de forma positiva pro movimento hip-hop foi importante pra manter ele vivo por aqui.

Isso fez com que a cena daqui evoluísse também.  Hoje, tem mais artistas, mais estilos diferentes de rap, mais espaço.

Os manos das antigas abriram mais a mente também em relação ao Trap, por exemplo. Isso tudo é importante e só aconteceu porque os manos não desistiram e mantiveram seu corre vivo, inspirando todos que vieram depois

Colocaria o Batma OG L como figura muito importante também para a nossa cena. São muitas pessoas, não vou conseguir citar todos.

TOP 5 do Hate RCT- Faixas ou álbuns do rap do DF especiais para você. Não precisa ranquear.

 1. Um Barril de Rap - Nada Consta

2. Tribo da Periferia - Aniversário do Colombiano

3. Pacificadores - Eu queria mudar

4. Liberdade condicional - Equipe da Favela 

5. Cirurgia Moral - Faro Fino