GABIRU

Gabiru é mais um cria da Ceilândia, a Meca do rap no DF. Nesta entrevista, conversamos sobre  rap de mensagem, preconceito,  juventude periférica e desafios para a carreira de um jovem rapper.

Entrevista por Thiago Flores via Whatsapp em 5 de julho de 2020


Onde você nasceu e foi criado? Onde você vive atualmente? 

Nascido na Ceilândia, criado no Setor O, onde vivo até hoje.

Como foram seus primeiros contatos com música? Quando o rap surgiu na sua vida?

Tenho resquícios de música em minha família, deixados pelo meu tio, que trabalhava com sonorização , era DJ e organizava bailes de lazer na quebrada. 

Mas foi no Ensino Médio quando eu tive o primeiro contato com microfone cantando rap. Dia 8 de agosto de 2014, cantei a primeira vez para o público e a partir disso não parei mais.

Quando você percebeu que o rap poderia ser uma escolha profissional?

Quando escrevi minhas primeiras letras e pessoas ao redor começaram a reconhecer que eu fazia uma coisa diferente das outras propostas aqui do DF. Quando minhas músicas começaram a fazer sentido na vida de outros indivíduos.

Você curte o rap do DF que surgiu nos anos 90? Como você descreveria essa sonoridade que colocou o Distrito Federal no mapa do rap nacional?

Na minha infância, ouvi muito Jamaika, Guindart, Pacificadores, Vadioslocos, Tribo da Periferia, Viela 17. Admiro muito a luta desses caras,  admiro a forma como eles trabalharam e colocaram o DF no mapa. 

Estilos autênticos, verdadeiros. Acho que isso trouxe uma cara pro RAP do DF e conseguiu elevar o nível até que chegou num contexto nacional.

Quais as maiores dificuldades para o começo de carreira de um rapper?

Viver de um sonho é sempre um desafio. Minhas dificuldades começaram dentro de casa: não havia aceitação da família, que é algo natural. Eles querem que a gente se forme e tenha um emprego fixo pra se estabilizar. 

Na rua, as pessoas me viam como louco por escolher fazer algo tão complexo. Na visão deles, [fazer sucesso] é uma coisa que acontece com um em um milhão. Até hoje encontro dificuldades desse tipo, mas não há nada que me faça desistir.

Você tem letras bem desenvolvidas e apresenta reflexões importantes nas letras. Qual a relevância da mensagem pro seu rap? De onde vem a sua inspiração?

As inspirações vem das minhas vivência e de pessoas próximas. Daquilo que vi e vivi. Acredito que, de onde viemos, fazer um rap consciente, que incentive nossa geração e as próximas a serem diferentes e procurar uma melhora, não só para a família, mas para a comunidade, é de grande valia. 

Todo rap é de mensagem. Uns carregam mensagens boas, outros, mensagens ruins. Cabe a nós arcarmos com as consequências.

Na sua vivência com ativismo social e juventude, quais as suas impressões dos nossos jovens de periferia atualmente? Mais críticos ou mais alienados? Um pouco dos dois?

Um pouco dos dois, mas a alienação vem à frente. Nossos jovens ainda estão muito vulneráveis à violência do Estado e tem uma visão de enfrentamento deturpada demais. Pensam que bater de frente com o Estado é ser bandido, quando na verdade é exatamente isso que eles querem. Aos poucos, é essa visão que tentamos mudar. 

Mas também tem uma parcela de manos e minas que vem mostrando em suas ideias um conceito de subversão que agrega pro meio que a gente vive.

E nesse contexto, qual a importância da cultura hip-hop e do rap?

O rap é algo que dá sentido à vida de muitos. Realmente salva vidas. Se não existisse, a nossa existência não faria tanto sentido. Me sinto grato por fazer parte do movimento.

Quais são os seus principais trampos lançados?

Tenho várias músicas, mas o principal trabalho foi um EP intitulado VISÕES. Esse trabalho foi muito importante pra nós.

[Depois dessa entrevista, Gabiru lançou mais dois EPs: Mudança de Planos (2021) e Gelo no Sangue (2022)

Com que artista do DF você gostaria de trabalhar?

Já trabalho com muita gente que eu gostaria. Mas tem um que eu realizaria um sonho muito grande, que seria o GOG.

Na sua opinião, quem são os personagens mais importantes desses quase 40 anos de história do rap do DF?

GOG, Cirurgia Moral, Tribo da Periferia, Um Barril de Rap.

Qual é o seu álbum preferido do rap DF?

Segunda Via, do Um Barril de Rap

 TOP 5 do Gabiru - Músicas ou álbuns do rap do DF especiais para você.

Pacificadores - Eu queria mudar
Tropa de Elite - Seis Bocão (Opala 71 Azul)
GOG - O amor Venceu a Guerra
Heitor ValentE - O legado
Tribo da Periferia - Aniversário do Colombiano