EDIÁ
Ediá foi apontada por vários entrevistados de PESO como uma das revelações do rap do DF, com grande potencial para despontar local e nacionalmente. Nesta conversa, trocamos idéia sobra a influência do Pará, sua terra natal, em sua arte; sobre machismos; processos criativos; e sobre dificuldades de iniciar uma carreira artística.
Entrevista por Thiago Flores via Whatsapp em 26 de julho de 2020
Como foram seus primeiros contatos com música?
Meu primeiro contato com a música foi com meu pai, que também é músico e multi instrumentista. Desde pequena, sempre presenciei meu pai cantando em shows em pequenas cidades do Pará, onde era conhecido como "Edson Set". Isso me inspirou muito, as serestas dançantes que ele cantava sempre embalavam multidões. Aquilo me encantava, a vontade era sempre de subir no palco com ele.
Nos mudamos para Brazlândia, DF, em 2006. Por aqui, iniciei meu contato com a música por meio da dança, fui ginasta e baliza. Aos 7 anos, me identifiquei com a cultura hip-hop e comecei a dançar break, juntamente com a RSC (Rock Street Crew), minha primeira cia de dança.
Daí pra frente, o rap, o graffiti, a arte urbana e suas amplas vertentes sempre fizeram parte de mim. Participei de vários grupos de danças e conheci muito da cultura daqui de Brasília. Comecei a compor meus primeiros versos com beat free da internet ali pelos meus 14 anos, por conta de vivências que precisavam virar músicas!
Depois entrei pra igreja, onde o processo durou pouquíssimo tempo, mas me ensinou muito! Foi minha primeira vez segurando um microfone, me abri para aprender a como cantar, como me envolver com o público ali presente, como me achar dentro do que eu mesma cantava sabe?
Por isso, foi tão curto o processo, me encontrei rápido e parti. A igreja foi um instrumento lindo de abertura nesse meu caminhar. Desde 2016 faço música, faço rap, faço arte! Nunca me arrependi de riscar essas linhas!
Você é paraense. Qual a relevância da cultura da sua terra para o trabalho que você desenvolve hoje?
Busco sempre deixar claros minhas raízes e costumes, minha ancestralidade e os jeitinhos do nosso sotaque e nossa rica cultura! Mas também as labutas e pelejas de minha terra, que por muito foi esquecida.
Nasci em Rondon-PA, mas vivi com minha família no interior (KM-56). Pra mim, a música é meu meio de conseguir levar aos quatro cantos minha voz e minha luta, juntamente com meu povo e minha reza!
E sua relação com o rap do DF? Você conhece os artistas mais antigos? Gosta da sonoridade que deu projeção para Brasília no cenário do rap nacional?
Conheço muito! Inclusive, tenho vários trabalhos e participações com o Paulinho, mais conhecido como Rei (Cirurgia Moral). Trabalho com a Belladona também, que desde 1999 representa muito nós mulheres nesse espaço midiático!
Sobre a sonoridade, não só gosto como sou fã dessa vertente gangsta. O rap nacional é rico, cheio de verdades e soluções. Nada melhor do que a verdade nua e crua, falada pelas pessoas certas, da periferia e que sentem as duras vivências nas mãos do sistema diariamente.
No DF, você já trabalhou com alguém que você queria muito? Tem alguém com quem você sonha trampar e ainda não realizou?
Uma das minhas ambições era gravar com o Lerym, produtor da Belladona. Isso aconteceu, temos o trabalho "Lua Nova" que foi produzido totalmente por ele.
O outro é o Duckjay, do Tribo da Periferia. Tenho muita vontade de trabalhar/produzir com ele, e fé que vai rolar haha.
Como é o seu processo de criação?
Meus processos criativos são super singulares e eu levei um tempo até conseguir respeitar tais processos. Não é questão de escrever sempre, mas só escrever, sabe? Com beat ou sem beat, é necessário o feeling, a sensação de ser o instrumento da música, pra conseguir expressar o que ela tem a me dizer.
Na maioria das vezes, escrevo numa linguagem mais abstrata, as interpretações podem ser variadas, mas nunca perdem o sentido. Amo escrever sobre a vida e suas dádivas, os ciclos femininos; mas também sobre o sistema e suas falhas, sobre temas sociais que precisam ser debatidos.
Gosto de escrever, esse é o ponto! Não importa o que me venha, eu passarei o conhecimento adiante.
Vivemos numa sociedade machista. Você acha que o rap reproduz essa mentalidade sexista? Já vivenciou alguma situação de discriminação de gênero? Como foi?
Acho que sim, mas, não generalizo, claro. Mas temos ainda uma boa parte da galera do rap que parece não entender o que é o rap.
O hip-hop é preto e também foi construído por mulheres pretas. Temos fortes nomes como Missy Elliott, Lauryn Hill, Queen Latifah, mas e o restante delas? Muitas tiveram seus nomes omitidos nessa construção desde a década de 70.
Já vivenciei situações, sim. Inclusive no estúdio de gravação, pronta pra cantar, não me deixaram participar do som, porque minha voz era de "menininha". Já me disseram que eu não sei o que estou fazendo no rap, que esse espaço pra mulheres é muito agressivo. Tudo isso partiu de homens.
90% dos estúdios que eu frequento são compostos por homens. Refleti muito sobre esses acontecimentos, estudei índices e fiz pesquisas de campo quanto a mulheres nesses meios de produção, porque eu queria migrar de estúdio.
Infelizmente ainda ocupamos muito pouco, mas em comparação a como era antes, estamos indo com tudo. Esse espaço também é nosso! Hoje, todos com quem trabalho, sejam homem ou mulher, conhecem muito bem a mulher que sou e qual espaço ocupo. Zero tolerância pra qualquer liberdade que não foi dada. Brincadeiras ou comentários machista/sexista não passam! E jamais passarão.
Até o momento dessa entrevistas, quais foram seus trampos mais relevantes?
Meus principais trabalhos lançados são "Cuidado com esse Rap", "Pássaro Forte", "Incógnitas", "De novo", "I Wanna Be" feat. Ana Lélia & "Lua Nova" feat. Belladona.
Na sua opinião, quem são os novos artistas do DF com mais chance de despontar?
Vou deixar uma longa lista aqui:
Cárita (@caritaja) Mulher artista, dona de uma voz poderosa e integrante da Banda Gaito.
Lígia Ingrid (ligiaingridd) Cantora, compositora e professora de Dança do ventre. Rainha no campo da voz felina, mulher de força e talentos natos.
Aline Sugai (@alinesugai) Dançarina e professora, artista de alma, trabalhamos juntas no projeto "Seio Sonoro" criado por ela. Uma das melhores vivências artísticas que tive.
Marx (@oficialmarx) cantor, compositor e produtor musical; homem de muita ideia certa, levadas gostosas, tudo pra subir!
Dreek (dreekoficial) Rapper compositora, braba nas linhas, mulher de força! Com certeza vai destrinchar na carreira!
Professor X (@xaviersupremo) Rapper compositor, super viaja por diversas vertentes e sabe muito bem como guiá-las, artista real! Temos vários trabalhos juntos, ele vai ganhar o mundo!
Sonny Heros (@sonnyheros) Beatmaker, produtor fonográfico e professor de Bateria. Trabalhamos juntos em diversas produções, admiro muito como ele abraça os artistas que rebece em seu estúdio, sempre pegou muito bem todas as minhas ideias. Produtor dos pesos que o Professor X vem soltando. Irá muito longe! Certeza!
Bruna Stone (@bru.stone) Tatoo Artist, cantora e compositora. Admiro a Bruna pela simplicidade e aconchego que trás em sua voz! É simplesmente de aquecer o coração. Força e leveza andam juntinhos quando ela canta!
Quais seriam as principais dificuldades enfrentadas na sua carreira atualmente?
A falta de acesso à informações mais burocráticas em relação à registros musicais, plataformas, perfis e distribuidoras.
Sinto um certo preconceito de gênero nisso, pois, em certos casos quando busquei auxílio, fui instruída a deixar isso de lado, porque seria muita coisa para uma "mulher" fazer sozinha. Como deixar de lado, se é a partir dos meus registros musicais que irei receber pelas minhas composições? Se eu tivesse realmente esquecido isso, simplesmente só postando meus trabalhos, quem sabe alguém já não teria registrado meus trabalhos em outro nome.
No geral, é isso: acesso a informações mais minuciosas. A música é um caminho complicado, porém, libertador. É super possível viver dela.
Na sua opinião, quais seriam os nome mais importantes da trajetória do rap do DF?
Japão Viela 17, Rivas e Ravel, Heitor Valente, 3 um Só, Dj jamaica, Pregadores da Paz, Kamikaze, Filho do Justo.
TOP 5 da Ediá- Álbuns ou faixas do Rap do DF especiais para você
Gabiru - Chuva de Flow
Heitor Valente - O Legado (álbum)
Bruna Stone - Baby Boo
Vullto - Baile Black
Thiago Jamelão - Solo Session