DJ Savana
Além de DJ, Savana é licenciada em Letras pela UnB e profunda estudiosa da cultura hip-hop. Conversamos longamente na Feira do Guará sobre pesquisa musical, modalidades do ofício de DJ, racismo, apropriação cultural e os desafios da cena brasiliense.
Entrevista por Thiago Flores na Feira do Guará em 28 de outubro de 2021
Queria que você se apresentasse, por favor.
Meu nome é Savana. Savana mesmo. É de verdade, não é artístico. Nasci no Maranhão e fiz a típica trajetória dos que vem pros grandes centros no sonho da vida melhor. Me estabeleci na Samambaia e vivo lá desde que cheguei aqui no DF.
E como foi a sua relação com a música na sua infância? Como era o consumo na sua família? E como começou seu envolvimento com o rap e o movimento hip-hop?
Acho que viver na Samambaia foi um grande fator para que eu me envolvesse com o rap, com a cultura urbana. Minha primeira referência foram os meus primos. Meu primo tinha um grupo, 3drão, típico dos anos 1990, daquele jeito. Agora, ele faz parte do Ideologia e Tal, também um clássico daqui. Esse meu primo foi a primeira grande referência. Quando eu tinha quatro anos de idade, eu já pensava, sentia: eu quero ser assim, eu quero me vestir com esses panos. E foi assim.
Eu tenho um núcleo familiar bem sólido, o que é bem difícil na quebrada: um pai presente, uma mãe dentro de casa. Minha mãe teve essa possibilidade de ser mulher do lar. Isso muitas vezes me mantinha afastada da rua, mas alimentou muito minha educação, fazendo com que eu me interessasse pela minha própria história, da minha família e pela quebrada mesmo.
Eu sempre tive muito interesse em pesquisar música. Minha casa não era o ambiente propício. Meus pais não tem esse hábito, mas eu sempre me interessei e pesquisei.
O rap era constante, era uma audição normal na quebrada. A gente sempre ouviu outros ritmos típicos das periferias, como o forro, que é a cara da minha família do Maranhão. Mas,na adolescência, foi quando o rap me pegou, de fato.
Não por só uma memória auditiva, mas de consciência mesmo. Embora eu seja muito fã do rap DF, não posso omitir que foram os Racionais o grande ponto de virada. Principalmente de autoestima.
Eu sempre estudei em ambiente diferente da minha classe social. Em condições muito adversas, eu aprendi o alfabeto com um ano e meio, lá no Maranhão. Eu não tinha brinquedo, não tinha nada. O brinquedo que eu tinha era um brinquedo didático e com um ano e meio eu aprendi o alfabeto com esse brinquedo.
Minha mãe e meu pai ficaram muito impressionados. Minha família inteira tem pouca leitura, então, aquilo era totalmente fora da curva e fez com que eles se debruçassem sobre a minha educação. Minha mãe chegava nas escolas particulares e falava: “essa menina é um gênio, quero bolsa, vocês tem que dar um bolsa pra ela”. E foi assim. Sempre estudei em escola particular por bolsa. E tinha essa parada: eu sempre estava aquém da grana da galera. Não foi diferente quando eu entrei na UnB.
O lance dos Racionais, o lance da autoestima entra nesse recorte aí, de eu sempre estar em ambientes onde as pessoas tinham mais grana do que eu, mais acesso do que eu. Pô, eu vi que eu era massa, sacou. Na real, é massa ser assim, é massa ser quem eu sou e vir de onde eu vim. Esse foi o grande ponto de virada.
Eu permaneci na pesquisa musical. Eu tinha o hábito visitar os acervos de família. Todo mundo tinha vinil antigamente, mas já era uma coisa que as pessoas não ligavam tanto, com o advento do CD. Então, eu ia pegando o vinil nas casas onde as pessoas não queriam mais e ia colecionando.
E quando você começou a tocar realmente? Lembra da primeira vez que se apresentou em público?
Em 2013, eu já tinha uma coleção mais maciça de discos. Então, vários camaradas da cena do hip-hop falavam: “mano, tu tem que tocar. Não é possível uma pessoa ficar com uma coleção dessa guardada. Tem que ir pra rua isso aí.”
Aí, em 2013, um deles me convidou pra estrear num evento de grafite. Era a revitalização da fachada da Faculdade Dulcina e uma parada da loja de grafite do Miguel Molina. E foi muito massa. Desde então, nunca mais parei.
Continuei. Eu já tinha um emprego. Eu já tinha minha formação e tal. Só aí que eu pude mesmo deslanchar nessa parada, porque o lance é ter recurso [financeiro]. Ser DJ é uma parada cara, ainda mais de vinil. Então, só nessa idade adulta e com uma renda que eu podia patrocinar meus sonhos.
Então você não vive de música?
Não vivo de tocar. Eu acho que essa é uma realidade bem normal no contexto do rap no geral, dos DJs, dos artistas dessa cultura do hip-hop.
Infelizmente, pouquíssimos DJs no DF vivem só de tocar. Pouquíssimos MCs vivem só de tocar. Todo mundo tem outro trampo.
Voltando ao ofício do DJ. Para explicar para um leigo, o DJ pode tocar de que formas que não sejam o vinil e quais as diferenças?
Hoje, tem muitas maneiras de tocar. O lance de eu tocar com vinil é porque eu gosto dessa mídia. Não acho que ela seja a mais legal ou que o DJ que toca de vinil seja mais maneiro.
Tem o Serato. É uma tecnologia que chamam de time-code. Serato é uma marca. Tem o Tracktor, que é outra, uma mídia vazia. É um vinil vazio, mas que ele faz a leitura do arquivo digital.
É mais ou menos como funciona uma CDJ, só que no caso da CDJ, a mídia é cheia, você grava e você não precisa de um computador. No caso do time-code, você precisa do computador: aquele sinal vai ser passado pela placa de som pra ler o arquivo que o computador tem.
Essa é outra forma de tocar de vinil também, só que não exatamente o vinil tradicional.
Tem as controladoras também. São inúmeras as possibilidades. Essas são as formas básicas. Eu acho maneiro que se popularizem e que seja mais fácil o acesso.
Todas essas formas oferecem as mesmas possibilidades técnicas?
Essas formas são mais interessantes para mixagem.
Na minha visão, pra fazer outras coisas que são típicas do rap, scratch e outros recursos de manipulação de disco, eu acredito que o vinil e o time code sejam mídias mais interessantes.
Você acha fundamental o DJ saber fazer scratch ou é possível desenvolver uma carreira sem saber? Quais seriam os prejuízos
para quem não tem essa habilidade?
Eu não faço scratch. Eu faço mixagem, eu discoteco só.
Eu acredito no modelo de DJ de rap, sacou? Habilidades mil e tal. Não as tenho, mas eu tenho fé nesse modelo. Eu vejo como uma grande perda pro hip-hop, pro rap, o cara chegar só com um pen-drive e botar a batida, sabe.
O bagulho é feito de elementos. O DJ é importante demais. De alguma forma, atualmente, o dj ficou com um papel jogado de canto. Ninguém se importa se ele sabe ou não fazer scratch, a não ser em nichos específicos de DJ, onde as pessoas vão para admirar a performance e ver isso. Mas eu acho importante, sim.
Eu acho que existe um prejuízo para a cena de modo geral. Mas é isso: tem prejuízo para uns lados e ganhos para outros, com o advento de outras maneiras de fazer. Eu sou otimista no geral.
Na sua visão de DJ, de pesquisadora musical. Como você descreveria em termos de sonoridade e discurso o que surgiu de rap do DF
nos anos 1990? E quais as diferenças dessa identidade para o
que vemos hoje?
Uma identidade foi cunhada pelos caras dos anos 90. Acho que depois da identidade do peso, do grave, com a galera dos anos 1990, ela só foi pontuada de novo com Duckjay.
O que dizer, né? O cara inventou uma maneira de se fazer rap. A gente sabe muito bem qual é. Onde a gente ouvir, a gente vai identificar. A gente vê a receita dele qual é. A gente consegue entender muito bem.
Eu já coloco na pessoa do Duckjay a diferença.
O machismo e o racismo são traços muito profundos da nossa sociedade. Qual é o impacto desses fenômenos na sua experiência pessoal e profissional? Essas manifestações se misturam
na prática?
O machismo, eu confesso que, pra mim, se manifestou mais nas relações de trabalho mesmo. Em relação aos meus camaradas, não posso me queixar sobre o início da minha trajetória. Me deram força e me deram o espaço,
O que eu vejo hoje é que a mulher, a DJ, a mina entra na parada da cota. Não é exatamente uma vontade ou uma exigência do cara que está produzindo. É que pega mal, vão reclamar, vão se queixar se não tiver uma mulher no line-up. Então, muitas vezes, a inclusão acontece apenas para cumprir um protocolo.
Outras práticas acontecem constantemente: de acharem que você não sabe manipular o equipamento, não sabe como liga uma parada, não sabe mexer com cabo ou com eletricidade. É muito comum. Além dos cachês exorbitantemente menores.
Quanto ao racismo, existe essa parada da apropriação cultural. Veja que ironia do destino: os grandes bailes blacks são feitos no centro, em Brasília, de fato. São festas maneiras, porque chamam as atrações que eu quero ver. As atrações são meu interesse. Mas as festas não tem qualquer comunicação com a periferia, não tem nenhuma contrapartida para a quebrada.
Não fazem questão de que pessoas pretas ganhem bem, trabalhem de uma maneira justa e proveitosa. Nunca se teve a preocupação de ir lá mesmo na quebrada, promover uma ação social que seja. O produto que esse produtores manipulam é a cultura. É algo muito delicado, não tem como separar isso da vida das pessoas que produzem essa cultura.
Sobre esse ponto, sobre a absorção da cultura por entes do mercado que não tem muita relação com a criação artística, com o sentido histórico do rap do hip-hop. Você enxerga algum caminho para equilibrar essa situação?
A gente é o motivo do rolê e não recebe nada por isso. Não vou mencionar só a grana, porque a grana é o mínimo. É sobre respeito mesmo.
São diversas situações que a gente, eu trabalhando como DJ ou seja lá como, o chão de fábrica na parada, pretos e pobres estão passando coisas inimagináveis dentro de festas de boy, que tem um recorte de cultura e raça.
A gente precisa de grana, a gente precisa de recurso e eu acho que é importante essa comunicação, ter esse link com o mercado. Mas a gente precisa rever em que termos essa
relação vai acontecer.
Eu acho que a gente está num ponto de virada. Se não agora, quando? Eu acredito nesse diálogo. Acredito nesses caras ouvirem o que a gente tem pra dizer, entenderam como a
gente faz.
Eu faço [eles entenderem] na base da pancada. Primeiro, eu dialogo profissionalmente, internamente, colocando o que eu penso. Só que eu sou ignorada e a parada se perpetua. Então, se não vai por bem, vai ser por mal. Então, vai ser publicamente que eu vou manifestar
Na sua visão, quem são os artistas com mais chance de despontarem local e até nacionalmente? Quem são os artistas
que merecem atenção do público?
Olha, dos MCs, cara, eu vejo o Murica como esse cara. Eu acho o mais preparado pra isso. Acho que a cena exige essa preparação pra você atingir certos patamares. Não digo, exatamente, só de grana, mas de uma consistência artística mesmo. Eu vejo o Murica como essa pessoa mais preparada. Admiro o trabalho
de vários, o vejo estando mais próximo da galera, do novo consumidor de rap.
De DJ, cara, deixa eu mencionar um jovem. Tem algumas pessoa que eu boto mó fé. Tem o Cliff, que é um mano da Ceilândia. Infelizmente, ele tem poucas oportunidades de tocar, mas é
um cara com uma pesquisa muito interessante. Ele é o que
eu apontaria.
Alguma mina?
Então, as minas... eu vejo a Kashu se movimentando muito,
se manifestando bem.
Na sua opinião, quem seria o personagem mais relevante dessa trajetória de quase 40 anos do rap do DF?
Olha, difícil essa né. Tem muitas pessoas fodas, mas eu acho que o X, do Câmbio Negro, pra mim, ele é o bichão.
Ele é o mais, pra mim. Inclusive, depois que eu tive a oportunidade de conhecê-lo e trocar uma ideia, achei mais
foda ainda. Eu acho que ele é esse grande cara pra representar
o rap DF.
Top 5 da DJ Savana. Faixas ou álbuns do Rap DF especiais para você
Câmbio Negro – Careca Sim, E Daí?
"Sou negão, careca da Ceilândia mermo, e daí?". Esta punchline aos 2 segundos de som é muito poderosa. Eu ouvi por tabela ainda menininha aqui pela Samambaia entre vizinhança e parentes e lembro que já me impactava.
Cirurgia Moral – Minha Parte Eu Faço
Um clássico que também extrapolou os limites do DF. Outro som que pertence às memórias de infância aqui na Samamba. A dramaticidade desse som é a mais genuína expressão do gangsta rap. Outro dia eu soube que Rei escolheu o sample e DJ Raffa Santoro executou a batida com maestria, filho do grande maestro que é. Menção honrosa para o uso luxuoso de um Moog na batida. Arte.
GOG – Brasil com P
Impossível pra mim ignorar o maior caso de aliteração do Rap Nacional. Verdades inescapáveis expressas com tamanho requinte.
Tribo da Periferia – Carro de Malandro
Clássico inoxidável, a música mais executada do ano de 2006 no DF, sucesso pelas quebradas do Brasil. DuckJay criou e apurou uma estética musical, tem caneta, tem conceito artístico. É hitmaker. É um visionário.
BellaDona – Não Pega
Pra mim, a rapper mais braba do RAP DF. Habilidosa com as palavras, lírica potente com um rico acabamento de vocabulário legítimo das quebradas. Permanece evoluindo sem jamais perder a essência.