DJ RAFFA SANTORO

Em um apartamento na 107 sul, no mesmo quarto onde foram produzidos grandes clássicos do rap nacional, tive a honra de conversar por algumas horas com um dos arquitetos da cena de rap no DF.

Numa conversa sincera, DJ Raffa detalhou as influências para a sonoridade produzida em Brasília; analisou as transformações ocorridas desde os anos 90; e falou sobre choque de gerações, reconhecimento e resiliência.

Entrevista e foto por Thiago Flores em 11 de janeiro de 2022


Você teve o privilégio de crescer em uma família com rico acesso à arte e cultura. Conta sobre o seu consumo de música durante sua infância e sua adolescência. Que tipo de sons se ouvia na sua casa e como foram suas vivências até chegar na cultura hip-hop?

Minha mãe – a bailarina Gisèle Santoro- veio do Rio de Janeiro, do nascimento da bossa nova. O padrinho do primeiro casamento dela, foi o Vinícius de Moraes. E o primeiro marido dela, antes do meu pai, foi o Oscar Castro Neves, um dos pioneiros da bossa nova. Muitos falam que a bossa nova era uma coisa mais elitista, mas foi um movimento importante para o Brasil.

E meu pai- o compositor, maestro e professor Cláudio Santoro—veio do norte amazônico, né?! Estudou música clássica no RJ, mas também foi um dos pioneiros da música dodecafônica. Teve toda uma fase nacionalista dele, em ele usava os ritmos brasileiros, como baião, como e outros ritmos nordestinos e do Norte.Depois, no exílio, na Alemanha, ele começou a trabalhar na música eletroacústica.

Então, eu cresci numa casa, com um estúdio de gravação enorme, com um monte de gravadores de fita magnéticas, sintetizadores, onde ele fazia experimentações de música eletroacústicas. Ele dizia que alguns sons que ele ouvia na cabeça, ele não conseguia reproduzir na orquestra. 

Pensa bem a mistura com que eu cresci. Se ouvia muito jazz, bbop, bossa nova, música clássica, música eletroacústica... até música barroca, entendeu. Então, era uma mistura muito louca.

E quando apareceram o hip-hop e o rap?

Voltando para o Brasil, em 1978. Você começa a escutar as músicas que seus amigos estão escutando. Não vou dizer hip-hop [a união dos 4 elementos], mas a gente conheceu como o break em 1982-83-84, quando eu tinha 14 anos.

Eu fazia dança com a minha mãe e eu adorava filmes de ficção científica. O break caiu como uma luva para mim: dançar o robozinho com músicas que tinham vozes de vocoder eletrônicas.

Entender o hip-hop, aquele movimento que veio do Bronx- não só dos negros, mas também dos latinos, dos porto-riquenhos, das gangues em NY- e que se espalhou pelo mundo, foi uma coisa que veio com a maturidade.

Eu fui começando a pesquisar a música negra norte-americana, indo mais a fundo no funk, no soul, nessa coisa toda. Foi um caminho natural. 

Meu pai nunca interferiu nos meus gostos musicais. Jamais. Ele sempre me apoiou em qualquer coisa que eu fizesse, contanto que eu levasse com seriedade. A minha mãe também.

Quanto mais eu me aprofundava no hip hop, mais a veia filosófica e revolucionária que meu pai tinha- por ter muito sido de esquerda, um dos fundadores do partido comunista- mais essa coisa toda também começou a me enraizar.

E como foi se inserir num movimento com origens periféricas? Como foi essa vivência? Sentiu algum tipo de resistência da galera?

Sim, mas o que acontece é o seguinte: talvez eu tivesse tido mais resistência se eu tivesse encarado esse rolê sozinho. 

Como teve uma galera, como o pessoal do Magrelos, que me procurou aqui [na 107 norte, no mesmo apartamento onde foi feita essa entrevista] e, através deles, eu comecei a frequentar os bares, ir para alguns lugares e depois como DJ, junto com o Elyvio, o pessoal dando espaço para tocar e eu frequentando esses lugares, comecei a fazer a amizades e as pessoas começaram a me enxergar como igual. 

Outra coisa, a galera vinha em peso pra cá. Ninguém aqui se incomodava. A gente enchia aqui o quarto, onde a gente está gravando agora. Esse quarto foi o início de tudo. A gente fazia as música aqui e eu estava, nos finais de semana, nos bares lá, ia para o Quarentão, ia para o salão do Bandeirante, ia para tudo quanto é lugar.

É natural do ser humano: você sempre julga antes. Depois que você conhece, você muda sua opinião. Como eu comecei a frequentar com pessoas que já eram conhecidas e já andavam por ali, foi mais suave isso aí.

Eu cresci com ensinamentos da minha família que eram muito bem claros. A gente tinha aversão a qualquer tipo de preconceito, a gente tratava igual os pares em qualquer lugar, seja numa embaixada, seja na favela.

Então, desde cedo, eu aprendi a me comportar em qualquer lugar, ser igual. Não me impondo, porque vim de um lugar mais privilegiado ou porque a cor da minha pele ser mais clara e me deixar com mais privilégios por causa disso. Eu já entendia meu papel nesse sentido. Isso foi muito importante para eu conseguir meu espaço e ser respeitado, entendeu.

No início dos Magrelos, os caras me chamavam de negão e eu nunca achei ruim, nunca fiquei puto. Pelo contrário, eu achava uma honra. 

O período do rap do DF anterior aos anos 90 é pouco conhecido. Muito antes dos lançamentos de GOG, Álibi, Câmbio Negro e Cirurgia, já se fazia rap aqui. Queria que você falasse sobre as  principais sonoridades e sobre personagens relevantes dessa época.

Em 82, 83, na época que a gente começou a dançar break, a participar de concursos, ainda existiam muitas crews de dança soul e funk. E era isso que tocava nos bailes. O break era resistência ainda.

Os DJs não tocavam, porque era uma batida mais rápida. Era uma sonoridade chamada de eletrofunk aqui no Brasil, vinha do movimento eletro, que começou com o Africa Bambaataa. Uma música, essencialmente, eletrônica, mais rápida. 

Isso depois virou o Miami Bass e até o freestyle. Esses estilos tinham predominância em Fort Laudardale, cidade próxima de Miami, e depois cresceram para o mundo inteiro. O maior expoente dessa linhagem era 2Live Crew. Tinha conteúdo explicito e sexual nas letras, aquelas coisas todas. 

De outro lado, começaram a chegar umas batidas mais rasteiras, mais eletrônicas, de onde vieram vários grupos, como o Whodini e Kool Moe Dee, entre outros, que faziam o rap em cima de uma música mais eletrônica. Em 1984, teve um boom. Todo mundo tocava break, o eletrônico. E veio essa coisa do rap mais eletrônico, mais rasteiro. 

Logo em seguida, veio o sampler, principalmente, com a criação da MPC, da KAY. Chegou essa cultura de samplear, criar batidas de sample, fazer looping e criar sons diferentes a partir de samplear de discos. Começou um movimento de um som mais acústico, mais sujo. 

Eu fazia um som muito eletrônico. Eu estava numa dessas minhas viagens no exterior e comprei o disco do Eric B. and Rakim [ Paid in Full, 1987]. Lembro que a primeira vez que eu ouvi aquilo, eu achei um lixo. Eu não entendia a proposta, porque era totalmente sample. Só batida do James Brown, só batida do soul, só sample. Foi assim, um choque pra mim. Eu encostei o disco. Três meses depois, eu pegava e beijava ele, loucamente: “Cara isso é tudo”. 

Eu precisei entender essa mudança toda. Cara, era uma época que não tinha internet, celular, nada vinha, cara. Tudo demorava seis meses, um ano para chegar no Brasil. 

Teve Public Enemy, aquele som muito sujo, com muito sample. Run  DMC misturou rock com rap, foi vanguardista pra caralho também e conseguiu levar isso para um outro público. Então, tudo isso a gente foi entendendo e foi tentando absorver e tentando colocar nas nossas produções. 

E quem já fazia rap no DF nessa época, pré-anos 90?

Tinha o Gilmar, do Paranoá. Ele participou do primeiro concurso de rap que eu fiz, lá na Danceteria da Fonte, no Cruzeiro. Ele era dançarino de break, se não me engano, ele ficou em segundo lugar. Depois, criou o Paradoxo, que gravou um vinil.

Tinha BSB Boys, que era o Jamaika, o Kalaco e o Kabala- que virou Rivas. Nunca gravou, mas era o grupo pá. Não foram bem no concurso, mas era o grupo que todo mundo queria ver, Nunca registrou nada e depois se separaram. O JamaiKa se juntou com o X e fizeram o Câmbio Negro. São dois que eu que eu lembro aqui.

O GOG fazia parte dos Magrelos, quando era grupo de dança ainda. Ele saiu e depois o Magrelos gravou DJ Raffa e os Magrelos. Ele também gravou logo em seguida. Tem o, agora não sei se é Circuito Negro, eu acho. Tem um grupo, cara, que era do P Sul que gravou um disco também, mas não foi pra frente.

Antes dessa galera toda, tinha um grupo de soul, chamava Black Jamaicas, gravou um disco também. A gente considera do movimento assim, mas era soul music. Era um grupo de dança que gravou um disco. 

Teve vários personagens. 

Eu parei de dançar break em 1986. No anos seguinte, comecei a produzir o disco dos Magrellos. Lançamos em 1989, foi o quarto disco do Brasil, né cara. Teve só o Taíde, Pepeu e Região Abissal antes. O Região Abissal saiu quase junto, saiu um pouquinho antes, em 1988. 

Então, o DF foi pioneiro. Pioneirissimo, né cara. Era uma loucura e nem tinha noção dessa coisa de ser tão pioneiro. Eu me lembro que nessa época, o Maurício Kubrusly, que era um crítico de arte para a revista Contigo e depois para vários veículos, fez uma matéria sobre esse disco. Nessa matéria ele fala a capital do rock seria a capital do rap. Ele estava, tipo, adivinhando.

Na década de 90 e nos primeiros anos 2000, o rap de Brasília ganhou projeção nacional. Você acredita que existia uma identidade nas produções musicais desse período? Acredita em elementos comuns nas obras lançadas naquela época?

Sim, muito. Criou-se um estilo que definiu o rap do DF. Mas não foi uma coisa pensada.  uma galera não se sentou e falou “vamos fazer isso, que vai caracterizar, que a gente vai ser isso...”, não foi. Foi o caminho natural, por causa das influências que tocavam no baile.

No começo, se tocava um Miami Bass. Então, a influência do Rio de Janeiro em Brasília era muito forte.

Depois de algum tempo, Los Angeles e a West Coast, o gangsta rap foi a principal influência no som do DF. Nesse momento, o Miami Bass e a influência do Rio começaram a cair. 

Antes Cash Box e Furacão 2000 vinham muito pra cá fazer bailes. Depois, começaram a vir as equipes de São Paulo: Cascatas, Chique Show. A gente passou a estar mais em conexão com São Paulo. Eu ia direto para lá, começando a produzir grupos lá, morei um tempo. Então, é uma influência também desse som.

A diferença é que o som de São Paulo é uma coisa mais suja, mais boombap. A gente era mais eletrônico, com muito grave. Esse grave foi a característica e, principalmente, o jeito de cantar. Eu falo isso muito no meu livro. As narrativas em primeira pessoa faziam as pessoas pensar que o cara era muito bandido, mas, na verdade, o cara está só contando uma coisa, mas na primeira pessoa. 

Era muito interessante isso. Foi uma coisa que aconteceu, mas a gente acabou criando um estilo de Brasília, do DF, do Cerrado. Um som que era característico e começou a ser copiado, cara. E as gírias também começaram a ser copiadas. Véi, tem grupo de São Paulo começando como Comando MCs falando “véi” nas músicas.

A história do rap DF foi marcada por tretas importantes entre grandes personagens da cena. Que tipo de impacto- positivo ou negativo- você acha que elas criaram na nossa cena?

Existem algumas coisas que fizeram o som de Brasília ser o que é hoje. A treta do Jamaika com o X, quando o Jamaika saiu do Câmbio Negro e criou o Álibi, por exemplo.

O Álibi era para ser antítese do que o Câmbio Negro estava fazendo. O Câmbio Negro estava levando o rap do DF para uma caminhada mais acústica, com banda, mais pegando um público do rock, aquela coisa toda. Colocou rap em outro patamar, colocou o rap nos festivais de rock. O Câmbio Negro se tornou o grupo a ser ouvido pelas classe A e B, pela galera mais alternativa, rock’n’roll, do Plano.

Aí, o Álibi se tornou a antítese disso. Em tudo. Quanto mais periférico, quanto mais eletrônico, mais gangster, mais gravão, mais baile, mais dançante,mais pesado, melhor.  Foi isso que levou toda uma geração a fazer esse tipo de som. O Câmbio foi por outro caminho. É legal, diversificou . Isso foi uma da coisas, vamos dizer, boas de uma coisa ruim. 

Eu não tenho medo de falar cara, se o Jamaica e o X tivessem se acertado e se tivessem continuado com o Câmbio Negro, o Câmbio Negro hoje ia ser a maior banda rap do Brasil, não ia ter pra ninguém.  Mas Deus não dá asas à cobra.

As outras tretas fizeram o DF estar na mira de mistérios. Você andava pelo Brasil e as pessoas perguntavam: “mas e aí, cara? Como foi isso? Não sei o que” Então, se criou um mito, uma fantasia dessas tretas e tal. Colocaram proporções muito grandes em coisas que não eram tão grandes assim. Na verdade, as pessoas adoram polêmicas.

Eu não sei dizer se teve um impacto comercial positivo ou negativo. Na verdade, para mim, essa coisa comercial era muito pequena ainda. A gente tava tudo começando, foi uma fase que ajudou os grupos a ter fama, né? 

Mas eu não sei se ajudou a vender mais discos ou fazer mais shows. Eu não posso te afirmar. Mas assim, é lamentável, porque a gente podia ter usado aquela energia para coisas mais positivas, mas o que fazer né?

Cada um absorve de uma maneira diferente. Eu não vou julgar ninguém. Assisti tudo de perto e tentei dar os melhores conselhos para cada um. Pra você ver como é uma coisa relevante até hoje, você está fazendo o projeto e tem que perguntar sobre o assunto

Quais transformações você identifica entre o rap produzido nos anos 80 e 90 e o rap produzido a partir dos primeiros anos 2000/2010?


Até os anos 2000 e pouco, a produção musical eletrônica não era com computador. Era com um equipamento não só caro, mas difícil de se encontrar no Brasil. Então, a gente fazia música com o que tinha né, cara. 

Quando o computador veio, ele conseguiu dar acesso às pessoas que queriam produzir, mas não tinham equipamentos. Foi uma coisa legal. Mas, ao mesmo tempo, fez cair muito a qualidade sonora. Por que? 

Essa galera que começou a produzir não tinha acesso aos timbres. A internet era uma coisa que estava começando a engatinhar. Então, eles começaram a trabalhar com programas muito amadores.

No início, eu era um crítico ferrenho dessas produções. Começaram a vir vários grupos na virada do século, no início dos anos 2000, com ótimas músicas, mas com um instrumental muito ridículo, muito mal feito. Eu pensava “porra, bicho, a gente investe no negócio para ter que competir com isso”. 

Mas a gente precisa entender as mutações na música, em tudo na vida O importante para esses artistas era se expressar, era botar sua música para fora, botar as músicas para se ouvir.Não importava se tinha qualidade ou se não tinha. Era importante mostrar a música. 

Eu comecei a entender esse movimento. A qualidade técnica não era boa, mas a música era. Você tinha que separar, cara. Eu demorei um pouquinho a entender que tinha que separar a parte técnica da qualidade musical. Isso não foi sempre fácil. Isso para gente da minha geração foi complicado, pra quem entendia um pouco mais sobre sonoridade e música.

Essa geração dos anos 00/10 foi importante, porque criou um público que a minha geração não criou. Essa geração veio com uma música mais devagar, com um instrumental mais atrás, com uma letra cantada, mais devagar.  A galera, as meninas, todo mundo começou a cantar as músicas. Ia para os bailes, para os shows e cantavam as músicas de seis minutos do começou ao fim. 

Isso foi revolucionário.  Depois da Ceilândia, vieram outros pólos. Um movimento muito forte no Entorno Sul, no Gama, Pedregal, Valparaíso. Muito forte, muitos grupos bons.Um movimento forte em São Sebastião. Depois,Planaltina. 

Se criou um espaço e essa galera invadiu, com seus produtores locais. Isso aí foi muito importante. Tem que saber enxergar a importância disso. Se criou um público, uma formação de plateia que cantava as músicas, que consumia os discos. 

Você acredita que existe um afastamento ou uma descontinuidade entre as gerações de artistas de rap no DF? Se sim, quais os desdobramentos causados por essa distância?

Esse foi o maior dos nossos erros. O maior erro foi ter não ter apoiado, realmente, 100% uma geração que veio depois.  O processo tinha que ter sido igual no samba. [A conexão entre as gerações] Tinha que ter sido por apadrinhamento. Esse cara apadrinha e vai produzir, vai ajudar...não teve isso. 

Por alguns motivos. Um: ego dos próprios artistas. Enquanto alguns novos artistas estava surgindo, muitos das primeiras gerações ainda estavam, não só em ascensão, mas trabalhando muito. Não estavam em final de carreira. Então, continuaram pensando muito em si, foda-se quem está vindo depois. Ninguém ajudou nós. Sabe, esse pensamento ridículo. 

Outro: por não gostar do que estava sendo feito. 

Cara, teve toda uma galera do underground, das batalhas, como Emicida mesmo, o Rashid e outros, que não tiveram apoio de ninguém, que eram só criticados. A minha geração falava: “ isso é uma merda, esses caras são uns vendidos.” E eles estão onde estão hoje, cara.

Por que essa galera que cresceu tinha a obrigação de resgatar gente, de ajudar, fazer, dar dinheiro ou colocar novamente no mercado? Não tem, cara. Eles não tiveram ajuda da gente. Então, ficou essa lacuna.

Depois veio uma outra geração, já com outro som. O pessoal do trap, Hungria... Por que o Hungria tem que chegar num programa de televisão e falar ”eu devo tudo ao GOG?” Não deve, não deve nada ao GOG.

E o GOG ainda fez uma conexão, quando fez a Família. Depois, cada um foi para o seu lado. Por exemplo: O Crônica Mendes é o que é hoje, por causa da da Família.

E como você vivencia isso pessoalmente?

Eu sou um cara que conseguiu atravessar a barreira das gerações. Estou trabalhando até hoje com a velha, a média e nova escola.

Estive o tempo todo me atualizando. O tempo todo, entendendo a mudança para não ter preconceitos. Hoje faço som raiz, mas faço trap também. Eu tenho que fazer, eu tenho que entender. 

Eu preciso entender todas as vertentes que existem. Eu não posso ter nenhum tipo de preconceito. Ao contrário, eu tenho que entender e tirar o melhor de tudo.  Meu nome tem que estar circulando para as pessoas saberem que eu estou trabalhando e que posso dar muito de mim ainda em produção.

Durante a pandemia 2020-2021, eu lancei 40 singles e produzi três a quatro álbuns. Quer mais vivo do que isso? 

A gente não tem que ficar brigando ou puto porque um cara da geração atual não vai na televisão reverenciar alguém que eles não têm como referência. 

Por dois motivos, por culpa nossa e também porque O Brasil não tem nada, não tem memória, não tem um lugar específico de pesquisa ou a longevidade dos artistas no Brasil, infelizmente, não igual nos Estados Unidos.

Você acha que isso contribuiu para que alguns artistas da primeira geração tivessem mais dificuldades em continuar suas carreiras e se manterem comercialmente?

Existem várias explicações. 

Alguns grupos tiveram relevância e depois acabaram. Gravaram disco. Depois acabou o contrato e não conseguiram mais se adequar. Sei lá, casaram, filhos, mudaram de profissão. Acabaram parando com o rap, apenas curtindo rap. Tem muito disso ainda. 

Outros conseguiram permanecer até hoje. Um dos bons exemplos é o Viela 17. Não só manteve as raízes, mas é um artista que conseguiu, de alguma forma, manter sua essência, mas sempre inovando, fazendo coisas novas e sempre ativo. É um dos poucos que conseguiu colocar gente nova pra trabalhar com ele, nos discos, pra cantar com ele. Tá sempre ali, trabalhando com gente da nova geração. 

É um negócio complicado. 

Os pouco que conseguiram foram aqueles que gente atravessaram as barreiras das gerações. Gente que conseguiu dar apoio para outros. Qual foi o problema?

Se o artista tivesse chegado num momento da carreira e falado: “daqui pra frente, eu sei que não vai rolar mais.” Deveria ter pensado:  eu sei que esse moleque é foda. Deixa eu investir nesse moleque, nesse MC. A ideia é o cara ganhar dinheiro e continuar através de outro, produzindo ou sendo empresário, colocando ele para abrir os shows...

Esse cara que foi apoiado vai botar o nome desse artista sempre em evidência. Vai levar ele junto aonde for. Não aconteceu isso, sacou.

Outra coisa.

Eu vejo pelo Atitude Feminina. O grupo tem 20 anos. Mas, quando eu olho as estatísticas do Spotify, a idade do público que mais acessa é de 23 anos. Como se conseguiu fazer isso? Não só manter o público original, mas conseguir um novo público. Como você trabalha isso sem precisar se vender ou fazer outro tipo de música?

Por exemplo,  o que o L.L Cool J fez no Rock The Bells  cantando com o Eminem... sei lá, tinha o quê? Umas cem mil pessoas no show, cantando e gritando juntos músicas dos anos 1980. 

A longevidade desses artistas lá fora é totalmente diferente, quando o cara cria uma relevância. De alguma maneira, ele está sempre sendo lembrando e tal. E aqui, infelizmente, a gente não tem isso.

O país não tem muita memória. O rap ainda não é pop, continua sendo underground. Ah, velho, pode ter milhões de visualizações no YouTube, mas não toca numa rádio comercial do Brasil. Não é pop.

Existe uma disparidade entre os números dos artistas de rap na Internet e a ocupação de espaços no mainstream?

Não toca em nenhuma rádio comercial, cara! Você tem só em São Paulo, naquela 105 FM, o Espaço RAP. É diário, mas é num horário e pronto. Agora, televisão, rádio mesmo, você não tem os grupos de rap tocando junto na programação com músicas pop, com músicas sertanejas. 

Por mais que se saiba que se você colocar o rap vai dar muito bom, existe até hoje um preconceito. Parece que os grandes empresários não querem que isso aconteça. Não querem dividir o mercado.  

Mesmo que o rap esteja lá em cima no Spotify, no YouTube,  por mais que esteja gerando dinheiro... eles não querem. Eles preferem a música descartável do funk. Uma coisa que a gente ouve e daqui uns seis meses, a gente não está ouvindo mais. 

Não querem véi. Não querem. Quando se fala em trap, então, muito menos.

Muitos dos entrevistados pela pesquisa falam sobre um sentimento de frustração em relação ao rap. O rap seria ingrato. Você acredita nisso? Vive isso?

Eu vivo isso todo dia: sentimentos de ingratidão, sentimentos de frustração. Eu vivo isso todo dia. 

A questão é que eu não deixo isso me dominar. Imagina você saber que você faz um trabalho muito bem feito, nível internacional. Você coloca isso nas plataformas, mas não tem dinheiro para investir. Seu trampo passa quase despercebido. Isso é frustrante.

Mas se eu me deixar dominar, eu tô ferrado. Eu não faço mais nada. Como eu disse pra você, cada um lida com isso de uma maneira diferente. 

Existe o artista cara que foi até ali [determinado ponto da carreira]. Parou, se acomodou e não continuou mais na carreira. Ele também favoreceu para ficar no esquecimento. Ele não quis, por exemplo, digitalizar toda a sua obra e colocar nas plataformas. Ficou pra trás. Não consegue se adequar às novas mídias e tal. Escolha dele. Num momento, foi artista, depois ele virou outra pessoa. 

É difícil ter que lidar com esses problemas de não ter uma produtora. Eu sei disso. Participei da coletânea Jazz Beats Home 3, do DJ Hum, com uma música. A produtora do DJ Hum tem grana pra investir, impulsionar e colocar pra isso ser visto. A minha música teve muito mais visualizações do que qualquer outra que eu coloquei no Spotify. 

Está sendo mais ouvida nos Estados Unidos do que aqui no Brasil. Tipo assim, eu sei que meu produto é bom, basta ter investimento. Isso é muito frustrante. Mas eu tenho que saber lidar. Isso não pode me dominar. Eu tenho que continuar trabalhando. E cara, você mexe com o sonho dos artistas também. 

O hip-hop, pra nossa geração, foi muito ingrato, mas...

Os caras assistem essa nova galera ganhando dinheiro e tal, mas teve muita gente, da nossa geração que ganhou muito dinheiro. Só que gastou tudo com drogas e rock’n roll. Mulheres. Poucos souberam pegar essa grana e investir em alguma coisa concreta. Poucos. 

Tinha grupo que tinha tudo: tinha loja, tinha até confeitaria, tinha serigrafia. Pena que jogou tudo fora. Cheirou tudo. 

Complicado, né, cara, tem os erros. Tem que saber conviver com eles. 

O hip-hop que não me deu nada. Me deu foi muita dor de cabeça. Muitos bons amigos, muitos bons trabalhos, muitos momentos maravilhosos. Mas, cara, eu também sou um daqueles artistas e produtores que viveu muito o momento e não se preocupou com o futuro. Quando acordou, já estava velho. E não tinha construído nada. Eu tenho culpa disso. Os dois anos de pandemia foram pra refletir muitas decisões. 

O financiamento do meu apartamento não foi com o rap. O grupo Patubatê foi contratado pela Nissan para viajar o Brasil inteiro fazendo revezamento no revezamento da tocha olímpica, durante cinco meses. Isso me deu a grana para dar a entrada num apartamento e financiar o resto. 

Foi isso que eu construí. Com o hip-hop, eu não consegui construir nada. Eu também tenho culpa nisso. Entrava um pouquinho de dinheiro, eu comprava equipamento. Até hoje é assim. Muita gente errou como eu. E teve toda uma outra geração muito mais empreendedora. Que conseguiu ser mais esperto. 

Apesar de tudo, eu consegui ficar mais ou menos estável na minha carreira. Sem muitos altos e baixos. Ficar mais assim na linha, estar sempre em evidência, sempre trabalhando. Isso é muito importante.

Hoje, é pior, as coisas são muito mais rápidas. Eu tenho que estar o tempo todo online. O tempo que eu podia estar gastando em criar uma música, eu tenho que gastar na rede social, gritando: “Olha ,gente, eu tô aqui.” Infelizmente. 

Mas, cara, assim, esse é o modo de vida que eu escolhi. Não tô arrependido. Me arrependo de algumas decisões. Mas o que fazer, cara?

Quem seriam os artistas de rap do DF com mais potencial para despontar local ou até nacionalmente? Quem você acha que agrega as qualidades para construir uma carreira assim de relevância? 

Estou produzindo uma mina chamada Dree-K. Está pra sair o EP dela. Acho que ela vai ter um nicho todo no mercado. Vai crescer muito e ser uma grande artista. Eu acho que ela tem tudo.

Tem uma outra cantora que gosto muito, que eu acho que também vai crescer muito: a Thalis. 

Tem uma outra menina que eu acho sensacional, da batalhas: a Fugazzi. Acho que, se ela começar a fazer mais música, um álbum e tal, vai crescer muito. 

Gosto muito do Paulo Amaro. Está começando a se consolidar, mas tem muito pra crescer. Muito. No movimento LGBT, mas fora do movimento. Conquistar outro público. 

São alguns exemplos. Tenho outros, mas estou lembrado aqui, mas são alguns exemplos que eu posso dar. 

Observando os quase 40 anos de rap no DF, quem você apontaria como os personagens mais impactantes dessa caminhada?

GOG, X e o Jamaika. E o Marcão, do Baseado.Foram caras que criaram um estilo. 

Da geração que veio depois, acredito que o Atitude Feminina foi um dos grandes grupos. O Japão do Viela também. 

E, cara, não posso tirar o Duckjay disso. Nem o Tribo. O Duckjay provou que não era mais uma onda. Ele veio pra ficar. Eu conheço tantos outros que vieram e foram embora. 

Então, eu acho que é uma galera muito relevante, no sentido de rap do DF. Existem vários, mas dos que eu acho mais importante assim, do momento.

A última pergunta é um top cinco faixas ou álbuns do rap do DF especiais para você. Não precisa ranquear, só citar.

Cinco álbuns, cara. Eu falo pra você:

Atitude Feminina -Rosas;

Viela 17- O Alheio Chora Seu Dono;

Câmbio Negro- Sub-Raça

Álibi- Pague para Entrar e Reze para Sair

Código Penal- Vivemos como o Diabo Gosta e Ninguém se Liga

As músicas:

Câmbio Negro- Sub-Raça, com certeza;

Atitude Feminina- Rosas

Atitude Feminina- Enterro do Neguim

Viela 17 ft Look ft Vadioslocos- Só Curto o que é Bom, do Viela;

Código Penal-Mente Criminal


Referências

[Freestyle- subgênero da música eletrônica, também conhecido como latin freestyle, por ter sido desenvolvido por imigrantes latinos das periferias de Nova Iorque, no começo dos anos 90. Fusão de instrumentação sintética e percussão sincopada do electro dos anos 80, produzida com teclados e baterias eletrônicas.]

[2Live Crew- Maiores expoentes do Miami Bass, o grupo conquistou grande sucesso no final dos anos 80 e começo dos 90, com trabalhos recheados de letras sexualmente explícitas, batidas pesadas e melodias envolventes]

[MPC- Sigla para Music Production Controller, é uma bateria eletrônica, formada por 16 pads que reproduzem uma infinidade de sons. Equipamento fundamental para a disseminação do rap e do funk]

[L.L Cool J- Rapper, cantor e ator. Seu nome artístico significa Ladies Love Cool James. Um dos pioneiros do rap norte-americano, famoso por suas baladas românticas. No currículo, tem mais de uma dezena de álbuns, muitos lançados pela gigante Def Jam.]

[Rock The Bells- Festival produzido por LL Cool J, com a apresentação de artistas fundamentais para as história do rap norte-americano. Realizado no Queens, Novai Iorque]

[Jazzy Beats- Coletânea de música instrumental produzida pelo mestre DJ Hum. DJ Raffa está presente no Volume 3, com a faixa Feelings]