DJ Ketlen Dias
Nessa conversa com a DJ moradora de Águas Lindas, falamos sobre o início da vivência com música na igreja evangélica; sobre as diferentes sonoridades do rap de Brasília; os desafios de conciliar maternidade e o trabalho como DJ, referências nos toca-discos e sobre processos de pesquisa e experimentação.
Entrevista por Thiago Flores. Conversa por email em 9 de abril de 2021.
Como começou seu envolvimento com música? Começou como DJ mesmo ou fez outras coisas antes disso?
Com cinco anos, gravei meu primeiro trabalho no estúdio, como cantora mirim. A primeira vez em que subi num palco, eu tinha seis anos, numa cruzada que contava com mais de 500 pessoas em Águas Lindas.
Com 10 anos, comecei a aprender tocar teclado, também na igreja. Com 12, gravei meu segundo trabalho. Era um CD, já tinha playback, era irado. Meu nome artístico era Ketlen Santos. Reproduzimos e vendemos 1.000 cópias.
Mas eu decidi que não seria cantora gospel. Era uma vida missionária, que demandava demais de mim na adolescência. Como DJ, comecei a tocar em 2014.
Você se lembra do primeiro rap que você ouviu? Qual foi?
O primeiro rap que eu ouvi e aprendi a cantar a letra toda foi Vale da Escuridão, do Realidade Cruel. Apanhei por conta disso, porque gravei a música em cima de uma fita de louvores da minha mãe. Mas era minha única chance de ouvir qualquer coisa que não fosse gospel em casa. Filha de pastores faz as coisas escondido mesmo.
Quando você percebeu que ser DJ poderia virar uma profissão?
Quando eu comecei a gastar dinheiro pra fazer som. Quando comecei a lidar com a manutenção dos meus equipamentos e, principalmente, gastar com a locomoção para tocar que eu sempre fiz por conta própria.
Você trampa com a Rebeca Realleza, artista que tem se destacado e tido bastante oportunidades na cena nos últimos anos. Como tem sido essa caminhada?
Ela também é filha de pastora, crescemos com ensinamentos e olhares parecidos. A rua trouxe pra gente a oportunidade de ver o mundo para além do olhar da sociedade ou da religião!
Ela tem umas experiências pessoais iradas, que inspiram as performances! O grupo conta com várias mulheres e algumas vezes se reúne para debater opiniões em relação aos shows, clipes, figurinos, tudo.
Somos potentes e podemos fazer o bem, levando nossa superação diária, força e auto-estima, principalmente, pra outras mulheres, dentro do rap e no geral.
Você tem um filho grande. Como a maternidade influenciou na sua jornada como pessoa e como profissional? Você pode falar de limitações e também de motivações geradas pelo fato de ter um filho para criar.
Ser mãe é algo que acendeu em mim a vontade de mudar o mundo. Como eu sei que isso é difícil, mudei minha forma de vê-lo!
Numa sociedade que julga a mulher por suas escolhas, percebi que, se não entrasse de cabeça e me profissionalizasse em tudo que fizesse, eu teria que me sujeitar a coisas que eu não quero!
Então, se eu curto fazer alguma coisa, eu penso em como aquilo vai refletir no meu filho diretamente.
Quem são as minas do rap ou do hip-hop que você mais admira? Pode citar rappers, produtoras, mas queria que você apontasse principalmente DJs.
Talvez minha resposta pareça preguiçosa, mas admiro todas!
A DJ Miria Alves, de SP, é um nome que eu lembro bastante. Ela tem uma história linda de como é possível inspirar outras mulheres. Não a conheço pessoalmente, mas sei que ela já me viu tocar num baile e isso já me motiva bastante!
A DJ Cinara, campeã do RedBull 3style, também. Já vi tocando e dividi line. Tive uma aula sensacional com aquele set, cê é loko!
As DJs do DF, pra mim, são todas bravas e encantadoras! Cada uma com sua propriedade! Todas tem uma história de resistência por trás do close. Já dividi line com algumas delas : Dj Savana, Dj Janna, Dj Paula Torely e GabJ.
Outra DJ de Brasília que me abriu os olhos para vertentes musicais foi a Camila Jun. Isso foi importante para minha carreira.
Quem são os produtores/beatmakers que você mais admira? Pode citar locais, nacionais e internacionais, fique livre.
Dr. Dre, DJ Cia, KL Jay, Duckjay, Metro Boomin, Zaytonven, Apuke, Sango , Laudz, J Dilla, Pharrell Willians, PartyNextDoor...tem uma pá são impressionantes mesmo!
Você faz beats? Tem essa pretensão?
Ainda não faço, mas já comecei a estudar e pretendo fazer, com certeza.
Como é a sua pesquisa de referências para fazer suas mixagens? O que mais gosta de utilizar?
Minha maior fonte de pesquisa são meus amigos que dançam! Eu olho pra eles para ver o que eles estão curtindo!
Então, em casa, me aprofundo, pesquiso, leio sobre e treino. Mas, nunca é exatamente nessa sequência.
A música acontece aos poucos, através da nossa vivência. Cada dia é uma vibe. Eu gosto muito de assistir outros DJs tocarem. Isso sempre me inspira a tentar algo novo. A arte da discotecagem é infinita nas possibilidades. É isso que sinto quando assisto outros sets!
Além de me aceitar como sou, sempre penso em melhorar na arte de mixar, mas não deixo de me divertir no caminho da parada. Eu amo mixar.
Como DJ, como você descreveria a sonoridade do rap do DF surgido na década de 90- GOG, Câmbio Negro, Álibi, Jamaika, Cirurgia Moral?
Diria que é uma sonoridade histórica. Uma mistura de G Funk e Miami Bass, com um rap mais pesado, que contava histórias difíceis, cruéis e que mostravam a realidade nua e crua daquela época!
Acho que naquela época, 2Pac foi referência forte no rap DF, Notorious BIG também.
Quais as principais diferenças entre o rap que era produzido nos anos 90/2000 e o que se faz hoje?
Questões tecnológicas são as maiores diferenças. Pelo que acompanho, acho isso. Antes só não tinham tantos recursos, como o autotune e tal. Mas, sempre foi incrível! Tudo foda! Antes e agora!
Na sua opinião, quem são os novos artistas de rap do DF com mais chance de ter sucesso? Favor incluir DJs.
Realleza - Hate Aleatório - Klap - Dj Kashu - Amaro - Taliz
Para você, quem são os personagens mais importantes desses mais de 35 anos de rap do DF?
Todos são importantes.
Hoje, eu tenho algum contato com alguns: DJ Chokolaty, DJ Ocimar Dabomb, DJ Jean Dabomb, Vera Verônika, Atitude Feminina, DJ Raffa, Tati Belladona, Tribo da Periferia, Viela 17, GOG, Câmbio Negro.
São muitos. Graças a Deus, fortalecendo e representando até hoje!
Top 5 da DJ Ketlen- Cite 5 músicas ou álbuns do rap do DF especiais para você
Realleza- Afrontosa
Tribo da Periferia- 2º Último
Cirurgia Moral- A Minha Parte Eu Faço
DJ Jamaika- Pá Doido Pirar
Marcão Aborígene- Luta e Resistência