DJ DONNA
Donna é uma das DJs mais presentes na cena do Distrito Federal. Em 2018, foi eleita a melhor DJ do país pelo Women’s Music Event- Brasil. Nessa conversa, falamos sobre feminismo, bass e sobre as lutas de uma carreira de mais de duas décadas.
Entrevista por Thiago Flores em 20 de fevereiro de 2019, por email
No dia 3 de agosto de 2019, você abriu o show de 30 anos de carreira dos Racionais MC’s, aqui em Brasília. O que significou esse momento para você e como foi ser a única mulher no line desse dia?
Abrir o show dos Racionais foi como se eu tivesse superado todos os obstáculos da minha carreira, inclusive o do machismo. Foi um orgulho terminar o set, ir pra frente do palco, levantar meus discos e geral aplaudir.
Racionais é uma das maiores referências do rap nacional pra mim. Sempre foi: pelas letras, pelo peso da realidade que retratam. Mais ainda: por, nos shows atuais, terem cuidado com algumas letras antigas, que davam a entender um machismo. Eliane Dias [CEO da Boogie Naipe, gestora da carreira dos Racionais e de outros artistas] tem total peso nessa melhora e na inclusão de mulheres nos lines de abertura nos shows.
Você falou no obstáculo que o machismo representou na sua carreira. Como essa barreira se manifestou na sua trajetória?
Vivo situações de discriminação até hoje, mas me muni de profissionalismo e qualidade no trabalho. Usei o método preventivo: quanto mais era cobrada para ter técnica e equipamentos, mais eu lutava e estudava para tê-los!
Às vezes, eu chego a um evento com meu toca-discos e os técnicos de som me olham com ar de dúvida, tipo: “Duvido que sabe tocar!” Se peço no rider técnico um equipamento específico, muitas vezes, os produtores dificultam para disponibilizar.
É muito difícil, mas nunca tive medo de desafios. Aprendi a montar PA, entender de equalização do som e até de luz para não ser boicotada. Porque eles fazem isso, sutilmente: deixando seu retorno bem alto e o PA baixo, sem foco de luz em você. Um cabo falta e “ah, não temos”, são várias situações.
Hoje, sofro bem menos, por conta da minha caminhada, da minha postura profissional e, às vezes, por conta do meu carão mesmo(risos).
Você é uma das DJs mais experientes do DF. Como era a participação das mulheres no início da sua carreira?
Sempre foi difícil. Não havia mulher que se destacasse discotecando rap. Existia uma cobrança em ser muito boa, em todos os sentidos: pesquisa musical, performance, acervo e equipamentos.
Como foi a evolução da sua caminhada até virar DJ profissional?
Comecei a tocar miami bass nas festas de música eletrônica que minhas irmãs produziam com os amigos.
Em 2001 ou 2002, passei pela Red Bull Music Academy- SP, quando fui selecionada entre mais de 2 mil candidatos do mundo inteiro. Também fiz o curso com o DJ Ocimar.
Fui reconhecida pelo movimento Hip Hop, mas não inclusa! Naquela época, como não me chamavam pra tocar, comecei a fazer uma pista de Hip Hop, onde eu convidava os DJs dentro das festas de música eletrônica.
Dentro da cena do Hip Hop, só tocava em lazer de rua no Paranoá ou em eventos que eu mesmo produzia no Setor de Diversões Sul. Criei o Só Diversões Sul, com o apoio da loja que trabalhava, misturando, mais uma vez, DJs de Rap com DJs de música eletrônica .
Na sua visão de DJ, que características tinha o estilo de rap do DF que emergiu nos anos 90?
Sempre foi um rap pesado, gângster. Sempre escuto que o DF é a capital do Bass, que o original Gangsta Rap é aqui no DF.
Apesar de terem sido importantes para o surgimento e consolidação do estilo e projetado o DF nacionalmente, muito dos artistas dessa época perderam relevância comercial atualmente. Muitos sofrem com a instabilidade financeira e falta de novas oportunidades. Na sua opinião, quais as razões dessa circunstância?
Se manter relevante é questão de se atualizar no mercado, se profissionalizar e saber lidar com os mecanismos de mídias atuais.
Que tipo de transformações você enxerga nas sonoridades produzidas nos anos 90/2000 e atualmente? E no mercado?
O Rap se ramificou. Do boom bap ao breakbeat, que eram mais instrumentos reais, mais musicados, foram surgindo mais vertentes vindo cada vez mais eletrônicas. Daí, foram aparecendo outros estilos e ritmos adaptados ao rap, com mais efeitos vocais e instrumentais.
O que desponta atualmente no DF é o Trap que, para mim, é o antigo Dirty South, mais eletrônico claro.
Você é curadora do Palco Radiodifusão do Festival Satélite 061. Como é o processo de pesquisa para a seleção de artistas?
Sempre que posso, viajo para outros estados para conhecer de perto o trabalho dos DJs e MCs, para ficar atualizada musicalmente. Quando conquistei essa curadoria, tinha uma boa bagagem dos artistas dos outros estados.
A ideia é simples: dar visibilidade para bons artistas que não são reconhecidos, colocando eles no mesmo line que artistas renomados. Trouxe ao DF, primeira vez, 08 DJs Mulheres nos toca-discos , minas de SP/RJ e DF.
Você acha que as curadorias de festas e festivais poderiam ser mais democráticas em relação à participação das minas? Acha que esse fator influencia na quantidade de minas com trampos conhecidos na rua?
Sempre lutei para inserirem mais minas no line. Não só isso: colocá-las em bons horários e pagar cachês justos. Batalhei muito para conquistar isso para mim e comecei esse processo para as outras mulheres. Criei o Conexões Urbanas Impressões Femininas na Cultura de Rua, com oficinas de capacitação para mulheres e um line só de minas, nos 04 elementos do Hip Hop!
Acho que festas e festivais deveriam ser mais democráticos, sim. Às vezes, a programação soa como se estivessem cumprindo uma cota! Acontece também: em eventos com o line 100% feminino, o público masculino não comparece em peso para prestigiar.
Qual a relevância de ter sido premiada no 1º Women’s Music Event na categoria Melhor DJ, em 2018? Qual foi o sentimento?
Foi umas das coisas mais incríveis que me aconteceu. É o primeiro prêmio no Brasil dedicado somente para as mulheres na música, criado por mulheres. Somos proativas, arregaçamos as mangas e criamos nossas oportunidades.
O Women’s Music Event é um marco para a história da mulher na Música e muitas ainda não se deram conta disso!
Eu luto, sem me martirizar. Às vezes, nem me dou conta do que já fiz e evoluí. Não cobro nem espero reconhecimento. Só batalho com excelência pelo meu amor à música e pelo meu amor ao meu filho, para que nunca lhe falte nada!
Quais os seus trampos atualmente? Em que projetos está envolvida?
Tenho trabalhado como curadora em festivais fora do país. Em 2018, fui para a Espanha para o Mapas Mercado Cultural, representando o Satélite 061. Em 2019, em abril, fui para Cabo Verde, representando o Conexões Urbanas Impressões Femininas na Cultura de Rua.
Sigo com meus projetos: Boom Bap, Satélite 061, Conexões. E sou residente do Festival Latinidades, o maior festival de mulheres negras da América Latina.
Quais artistas você aponta como revelações aqui no DF? Em quem o público precisa prestar atenção atualmente? Quais minas?
A Realleza, a volta do Câmbio Negro, Hodari, a Thabata. E DJs mulheres: Janna, Paula Torelly e GabJ.
Qual o seu álbum preferido de artistas do DF?
Playlist da DJ Donna- Escolha 5 músicas ou 5 álbuns de artistas do DF.
Câmbio Negro - Sub-raça
Viela 17- Mokozin
Flora Matos- Preta de Quebrada
BellaDona- Bem Mais
GOG- Brasília Periferia
Referências
[Eliane Dias- Advogada, empresária e produtora. À frente da Boogie Naipe, gerencia a carreira dos Racionais MC’s e de artistas como Mano Brown, Danzo, Yunk Vino e Duquesa]
[Miami Bass - subgênero do electro, popularizou-se nos EUA e na América Latina nos 80 e 90. Conhecido pela batida continuada da caixa de ritmos Roland TR-808, produzindo uma sonoridade grave, rápida e intensa. Ritmo muito importante para o desenvolvimento do Gangsta Rap e do funk carioca]
[Red Bull Music Academy- programa iniciado em 1998 como uma série de palestras e workshops sobre o universo da música. Desde então, passou a ocorrer anualmente em diferentes cidades sede, selecionando DJs e artistas promissores para atividades de formação com baluartes da música mundial]
[DJ Ocimar - dj e produtor da DaBomb, um das festas de rap mais tradicionais de Brasília. Ministra um dos primeiros cursos de formação de Djs do DF]
[Boombap- Sonoridade e estilo de produção clássico e fundamental para o rap, consagrado na Costa Leste americana nos anos 80 e 90. O nome é uma onomatopéia para os sons do bumbo e da caixa da bateria, utilizados no rap geralmente em loop e acompanhado de samples]
[Breakbeat- vertente da música eletrônica desenvolvida no final da década de 70, com destaque para a contribuição do DJ Kool Herc em utilizar essa sonoridade dentro da cultura hip-hop. Baseada na utilização de samples, na técnica back to back e na alternância de elementos percussivos e grooves na mixagem de músicas]
[Dirty South- Expressão ambrangente para se referir a um sistema cultural oriundo do sul dos Estados Unidos, construído desde os tempos da escravidão, mas “redescoberto e reverenciado” pela cultura hiphop. No rap, compreende estilos como o crunk e chopped & screwed, produzidos, principalmente em Atlanta(Geórgia), Houston(Texas) e Miami(Flórida)]
[Women’s Music Event- Plataforma de música, negócios e tecnologia focada no protagonismo feminino. Realiza palestras, eventos, premiações a outras atividades produzidas por e para mulheres]
[Festival Latinidades- encontro de saberes e potências de mulheres negras. Único do gênero, um projeto multi-liguagens que celebra memória, força e legados. Há 14 anos, vitrine e plataforma para a produção artística e intelectual de mulheres negras]
[ Câmbio Negro- Sub-raça- álbum lançado em 1993, ainda com DJ Jamaika e X na formação]
[ Viela 17- Mokozin - faixa do álbum Lá no Morro, lançado em 2008]
[Flora Matos- Preta de Quebrada- single lançado em 2017]
[Belladona- Bem Mais- faixa do álbum À Flora da Pela, lançado em 2014]
[GOG- Brasília Periferia - faixa do álbum Dia-a-dia da Periferia, lançado em 1994]