DJ A
DJ A é nome certo na maioria dos line ups de festas de rap em Brasília. Veterano das pick-ups, campeão nacional do Redbull 3style 2016, DJ do GOG, o currículo é longo.
Sentamos em frente ao bar Primo Pobre, na 204 sul, e trocamos ideias sobre a sonoridade do rap do DF, a influência de Duckjay na música da cidade, sobre percalços de profissão de DJ e desafios do mercado de rap local.
Entrevista e foto por Thiago Flores em 18 de outubro de 2019
Como se iniciou o seu envolvimento com música? O rap e o toca-discos sempre estiveram presentes? Ou trilhou outros caminhos antes?
Cara, sempre [estiveram presentes]. Quando eu comecei a me interessar por música, eu tinha por volta do 11 ou 12 anos. O primeiro contato que me despertou algo mais forte foi com o próprio rap.
Sei até a primeira coisa que eu ouvi: um disco dos Racionais chamado Holocausto Urbano, o primeiro álbum deles. Não sei nem como aquilo veio parar na minha mão, acho que foi um colega de colégio que levou.
Desde então, o rap sempre foi a base musical. Posso até dizer que passei a escutar outros estilos depois de já estar inserido dentro do hip hop.
Eu comecei como DJ, sempre fui DJ. Para falar a verdade, pra não te dizer que eu nunca toquei nada, eu toquei bateria. Tive aula já depois de velho, um tempo atrás.
Minha parada sempre foi o lance do toca-discos mesmo. Meu envolvimento sempre com a música se deu sempre através disso.
O que você consumia de rap do DF quando era mais novo e o que você consome agora?
Quando eu era moleque e estava começando a entrar nesse meio, foi bem na época que surgiu o Câmbio Negro e o GOG já estava se destacando. Então, eu sempre consumi o rap de Brasília a partir deles.
Dia-a-Dia da Periferia foi o primeiro disco do GOG que eu ouvi, na real. Ele já tinha outros trabalhos antes, mas esse foi o primeiro disco que eu ouvi realmente. E Câmbio Negro, eu realmente ouvi muito.
Hoje, eu gosto muito da cena local. Eu gosto muito do Jean Tassy, um artista excepcional. O Froid, né? Não só eu, mas muita gente no rap gosta bastante do trampo do cara. O Rapadura, posso dar n nomes.
Eu escuto bastante coisa daqui, mas atualmente, dentro da cena local, é isso.
Você acha que o rap do DF nos anos 90/00 tinha uma sonoridade característica, elementos musicais que deram uma cara para nossa cena?
Cara, sim. Se você for perguntar para pessoas de fora daqui, elas também tem essa mesma impressão, tanto que chamam de Rap DF. O rap daqui tem uma cara diferenciada.
Isso se deu lá atrás. Eu acho que o Jamaika inseriu essa parada no estilo de rap de Brasília: a batida. A gente sempre teve essa pegada, um batidão mais arrastado, grave falando muito.
Você pode até comparar com aquela linha Dirty South, um som que bombava no sul do Estados Unidos e eu acho que a gente pegou muito isso como característica. Não sei dizer se os produtores da época escutavam mais esse tipo de som do que o som que vem de Nova York.
O nosso rap é muito diferente do rap de São Paulo, principalmente, se você for pegar nos anos 90/00. Hoje, eu acredito até que não seja tanto, porque as coisas se globalizaram mais, né?
Mas, naquela época, era totalmente visível a diferença. Você escutava um rap de São Paulo e escutava um rap daqui, você falava: “mano, isso aqui é de Brasília”.
O próprio Tribo da Periferia criou uma característica do som daqui. Eu acho que o Duckjay é um dos grandes responsáveis por essa identidade.
Você delineou bem a contribuição do Jamaika para nossa sonoridade. E qual seria a participação do Duck? Você consegue identificar?
Eu não vou dizer com certeza, só ele pode dizer isso, mas...
Na época dos Vadioslocos, eu acredito que ele se influenciou muito pelos sons do Lil Jon e aquela banca que estava fazendo muito sucesso. Dava para ver que ele criou uma levada baseada naquilo: o jeito de cantar, o tipo de produção e aquela pegada meio que já conversando com o trap. O trap veio daquilo, né?
Então, o Duck já desenvolvia uma música conversando com o que veio a ser o rap de hoje. Com certeza, ele foi um divisor de águas dentro do rap de Brasília, cara. Isso aí é inegável, sabe?
Depois dele, vieram outros, veio Hungria, uma galera fazendo som nessa pegada, mas ele foi o pioneiro. Com certeza, Duckjay é responsável por isso, porque é o cara que mexe com a produça, né? Pra mim, ele é o cara que colocou Brasília na cena novamente com esse estilo.
Você toca com o GOG há quase 10 anos. É um nome inquestionável da história do rap nacional, mas, assim como outros artistas da primeira geração do rap do DF, é um cara que acabou perdendo relevância comercial. Que motivos construíram essa situação? Quais as alternativas para essa galera se manter trabalhando?
O GOG e esses artistas não estão no mainstream, mas ainda estão na base.
Por exemplo, o GOG não está fazendo milhares de show e lotando várias casas com músicas novas. Mas ele não parou. Ele continua fazendo trabalhos que muitos MCs de agora não fazem, que é o trabalho de base, o trabalho de militância. A raiz do hip-hop e do rap.
Esses MCs caras que abriram as portas talvez não tenham mudado, porque nada mudou. Socialmente, a situação que a gente vive não mudou. A situação da periferia continua a mesma, a situação do negro continua a mesma. Então a voz dele, os temas que ele abordava, ainda são relevantes.
Hoje, o GOG está ali, em periferias. A gente toca em rolês para públicos pequenos, mas é uma parcela do público que está ali para escutar o que o cara tem a dizer e absorver aquilo. Eles não estão ali somente para celebrar, entende?
Eu acho isso. Na verdade, eles foram perdendo relevância comercial porque não quiseram abrir mão de seus discursos. É discurso muito politizado. E esse discurso é indigesto. Não entra facilmente na cabeça de todo mundo. Você tem que querer absorver aquilo ali.
Agora, se a população e o público, em geral, não querem ouvir mais esse tipo de conteúdo, é um outro ponto. Os artistas de rap nacional, em geral, já mudaram o discurso. Eles falam sobre outras coisas.
Quais são os seus trampos como DJ atualmente?
Bom, fora minha carreira como DJ A e o trabalho com o GOG, eu tenho um projeto que se chama InLapse com um produtor musical chamado Tap, que atualmente mora no Rio. Fora isso eu tenho alguns projetos que acontecem esporadicamente com alguns instrumentistas.
Nos últimos anos, a gente nota o surgimento de muitos DJs. Você acha que existe uma vulgarização ou precarização do ofício de DJ? Como o público identifica um trabalho de qualidade de um trabalho fake?
Mano, isso é um assunto muito discutido entre nós, DJs. Realmente, hoje, você disputa espaço com muita gente: de ex-BBB ao cara que não conseguiu fazer nada e vira DJ.
Isso acontece pela facilidade de você conseguir matéria prima. Você tem a internet: tem música pra caralho ali, na mão. Consegue ter um equipamento mais simples hoje, você pode ter uma controladora. Enfim, você consegue ter acesso mais fácil à profissão.
Com a quantidade também vem a má qualidade. Nem todo mundo se prepara de forma adequada. Às vezes, o cara é só um seletor de música, o cara só passa a faixa, o cara só gosta de música. Isso não torna ele um DJ. O mínimo que o cara tem que fazer, não faz. Ou, quando faz, faz mal feito.
Mas tem casos também, em que as pessoas entram no mercado, vão evoluindo e conseguindo fazer um bom trabalho. O público consegue identificar facilmente quem é real ou não. O bom Dj cria uma atmosfera na hora que está tocando, conduz a pista até onde ele quer chegar, sabe a hora certa de fazer certas coisas.
Muitas vezes, quando o DJ não tem muita experiência ou simplesmente não sabe o que está fazendo, ele vai fazer qualquer coisa, vai tocar só música da moda. Ele acha que é o suficiente para fazer com que a coisa aconteça e não é assim. Nossa função não é só tocar o hit né.
Essa pergunta, na verdade, vem de uma percepção minha. Se você discordar, por favor, se coloque. Principalmente nas festas no Plano Piloto, eu vejo muito DJ tocando, mas pouco MC rimando. Existe mesmo essa disparidade? Por que?
Pro MC sempre foi mais difícil. Nunca foi fácil. Nunca vai ser, na real. A gente não tem essa cultura aqui [de mc’s rimando nas festas]. Essa é a verdade.
O DJ ganhou mais espaço e ele mesmo acaba fazendo papel de MC: aquela parada de mestre de cerimônia mesmo, animar o público, anunciar atrações. Hoje, muitos DJs já tem essa característica de pegar o microfone, de falar com o público diretamente. Uns mais discretos, outros falam mais. Mas acontece. Acaba que o trabalho do MC fica de lado. É um custo e, às vezes, o próprio produtor não quer arcar com isso, sacou?
Eu trabalho com um Mc. Eu tenho o Israel Paixão e procuro levá-lo em todos os rolês que eu vou. A Makossa sempre tem o Hadda. Ele é o MC da Makossa. Ele tá sempre ali: na animação da galera, apresentando os DJs que vão entrar na sequência. Isso é muito irado, faz falta.
É uma comunicação que você tem com o público. Às vezes, trocou a atração e você nem sabe o que aconteceu, sacou? O MC faz esse papel, né. Ele vai estar ali, faz um Hey Ho, dá uma queimada na pista, porque às vezes tá precisando.
Deveria acontecer mais, mas, realmente, no mercado atual, o DJ assume o papel principal.
Na sua visão, o que falta para Brasília, de fato, conseguir sustentar carreiras artísticas de maneira mais consistente e por mais tempo? E revelar, sustentavelmente, mais artistas e mais produtores?
Isso é meio complexo, não é uma coisa só de Brasília, né?! A dificuldade é praticamente a mesma em todo lugar. É uma situação de Brasil, cara, na real. É cultural mesmo. O brasileiro tem muitas outras preocupações e acaba que a cultura fica meio que de lado, entende?! Já em outros países, que já passaram por muitas coisas, eles tem a cultura como uma prioridade.
Porra, a gente está em um país em que o governo cortou simplesmente o Ministério da Cultura! Você está entendendo? Não é prioridade pra gente.
A gente não tem espaços, não tem uma rotatividade pra conseguir ocupar a cidade. A gente tem Lei do Silêncio... Tudo aqui faz que com que você ande para trás e vá deixando sua arte de lado, procurando outros ofícios pra poder se manter, o que é muito triste.
A cidade precisa ter uma movimentação maior pra que as coisas possam aflorar. A gente tem muito talento aqui, mas eles acabam ficando retraídos. Você vê que as grandes festas aqui da city é tudo ocupado. A gente não tem lugar próprio para festas, a gente ocupa lugares. Você pega um Estádio Nacional, você faz festa, você pega um clube, você faz festa no clube. Você acha um bar maneiro, você vai lá e faz uma parada no bar maneiro, mas a gente não tem locais para isso, entendeu?!
Acaba que o produtor, pela limitação dos recursos disponíveis, nem sempre consegue valorizar o trabalho da forma que ele realmente merecia ser. Então, todos acabam ganhando pouco.
É um trampo fih, viver disso não é fácil.
Quais foram os impactos de ser um vencedor da Red Bull 3style 2016? O que mudou de lá pra cá?
Acredito que o maior impacto na minha vida, na minha carreira foi ter me dado uma carta de apresentação. Essa é a palavra.
Por exemplo, eu sou um DJ de Brasília, tenho o meu mercado aqui. O que faz com que um produtor me leve para fazer um som lá no Rio? Eu, que não sou do Rio, que não sou conhecido pelo público de lá? O cara não tinha um pretexto para me levar. Muitas vezes, ele gostava do meu som, gostava do meu trabalho, mas ele pensava: “Pô, vou trazer o cara, eu vou gastar um dinheiro e talvez o retorno não seja tão grande.”
Quando eu ganhei o Red Bull, aí ele tinha o porquê. Porque o produtor já podia anunciar: DJ A, ganhador do Red Bull 3style, sacou?! Então, naquele momento, virou minha carta de apresentação. Quem é DJ A? É o ganhador do Red Bull 3style desse ano.
Logicamente, eu aproveitei esse gancho mesmo. Fiz o que eu pude fazer para aproveitar esse momento, porque eu sabia que ele não iria durar para sempre. Com isso, a gente foi se consolidando nos mercados e acaba que, mesmo depois de ter passado o tempo, eu ainda consigo oportunidades por isso.
Explicando para um leigo, o que os avaliadores analisam numa competição como essa?
É um júri bem técnico. Inclusive, no meu ano, eram grandes DJ’s: dois campeões mundiais, um canadense, um chileno e o Nedu Lopes, três vezes segundo lugar no Mundial e que já tinha ganhado o brasileiro várias vezes. Eles sabem muito bem o que precisa ser avaliado.
O que conta é a sua criatividade, a montagem dos 15 minutos, aquilo que você está fazendo ali. Qual é a reação do público em cima do que você está mostrando? O público está te entendendo, se ele está reagindo?
Também, avaliam tecnicamente se você está errando ou não. A técnica vai contar também, mas a criatividade muito mais, pelo menos no Red Bull Freestyle. Existem outros campeonatos em que a técnica é o carro chefe. No Red Bull, você pode cometer uns deslizes e passar batido, por exemplo.
Em quais DJs novos o público deveria prestar atenção aqui do DF?
U Miranda, com U mesmo. Eu boto muita fé nele. Já está fazendo um trabalho foda e provavelmente vai conseguir alcançar um bom espaço.
O Klap. Ele é produtor e DJ. Acho que ele é muito bom. Ele evoluiu como produtor para um nível muito alto. Como DJ, ele ainda está começando, mas eu estou levando em conta o que ele representa para música. É um menino, é foda, vai despontar.
Tem a GabJ, eu acho ela sensacional, muito boa. Também produz, o que é muito bom. Ela tem um talento nato, consegue conduzir bem uma pista. Acho que é um nome maneiro. Tem a Ketlyn Dias, de Águas Lindas. Ainda está no início, mas também já manda um som maneiro.
Eu acho legal isso: tô falando dessas duas minas, porque visualmente, elas passam uma certa fragilidade feminina. Mas o som não tem nada de frágil. Fazem um som muito pesado, tá ligado? Você escuta a música, olha pra lá e nunca acredita quem é que tá botando aquele som.
E rima mesmo? Quais seriam os grupos e artistas?
O Jean. Não posso nem falar que ele é um cara novo na cena, mas é um cara que está bem. Eu acredito que ele vai estourar em pouco tempo assim. Acho ele muito bom.
Tem o Israel Paixão, ele também tá mandando um trabalho legal. É um trabalho diferente, toca com banda, acho bem rico, com um musical que eu acho legal para caralho.
Tem uma mina que se chama Soane, não sei se tu conhece. Puta que pariu, ela canta demais e eu acho ela foda. Ela é um diamante, real. Já fiz uns sons com ela e fiquei de cara. Ela não tem nada lançado. Tem uns trampos, um projeto dela, mas ainda não botou nada na rua. Mas acho que não vai demorar muito também não. É um talento.
Top 5 do DJ A – Álbuns ou faixas do rap do DF especiais para você
GOG - Dia a dia da periferia
Câmbio Negro - Sub-raça
Tribo da Periferia - 3º Último
Israel Paixão - M.A.M.G
Jean Tassy - Amanhã
Referências
[Lil Jon- rapper, produtor e DJ, nascido em Atlanta, Estados Unidos. Reconhecido por ter popularizado um estilo chamado crunk, popular nos estados do sul dos EUA, caracterizado pela atmosfera festiva e dançante, com instrumentais pesados, batidas cruas de baterias eletrônicas e sintetizadores simples e marcantes. O subgênero é um dos precursores do trap.]
[Red Bull 3style- maior campeonato de DJs do mundo, realizado pela gigante de bebidas energéticas. São realizadas competições em vários lugares do globo para selecionar representantes para a grande final. DJ A venceu a edição brasileira em 2016]
[Nedu Lopes- Experiente DJ mineiro, tricampeão do Red Bull 3Style, se tornou curador e jurado do torneio. É instrutor no Ban Music Center, o maior centro de música eletrônica da América Latina]