DIOGO LOKO

Essa entrevista aconteceu em fevereiro de 2019, às 22 horas. Depois de acompanhar um show do Etnia das Ruas para uma projeto social na Samambaia, sentei com Diogo para uma conversa sobre a trajetória dele na música, união e desunião no rap, freestyle e as parcerias com Viela17, Nocivo Shommon e 1Kilo.

Entrevista e foto por Thiago Flores em 23 de fevereiro de 2019

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Atualmente, você vive de música?

Mano, a música tem sido minha maior fonte de renda, tá ligado?! Eu ainda tenho outro trabalho no Instituto Sociocultural de Brasília. Então, o som ainda não é 100%.  

Eu trabalho para que seja. Eu tento colocar minha música para funcionar como uma empresa.  Tento focar para ter um retorno e tem dado.

Mas música é passageira. Se não der o resultado esperado, eu tenho um plano, porque meu pé nunca saiu do chão, tá ligado? Mas a gente acredita, esperando a arte ser valorizada, da maneira que a gente acha que tem que ser. 

E quando decidiu levar o rap a sério?

Na minha vivência com música, o rap não veio primeiro. Minha família sempre foi musical, tá ligado?! Meu vô, os irmãos do vô, meu pai, meus tios, todos mexiam com banda. Meu vô tocava saxofone. Minha mãe e meu pai tocavam juntos na noite. 

Eu tocava percussão com a banda do meu pai. Já escutava rap, mas não cheguei rimando. Era tenso rimar com a banda dele, cover do Zé Ramalho. Até introduzir o bate-bate demorou...  Mas, quem faz o refrão daquela música do Jamaika?   “Bate, bate, bate na porta do céu  oooo”... Ele tocava essa e, aos poucos, meu pai liberou e passei a mandar a parte do Jamaika.

A banda do meu pai tocou em um aniversário de Samambaia, na Feira Permanente, e eu fiz uma versão da música Minha Alma, do Rappa. Depois disso, desandou. Meu primo falou que queria tocar reggae: “Vou fazer uma banda de reggae. Bora?”  Bora, eu fui pro reggae, fiquei mó tempão. 

Tava nessa banda de reggae certinha, mas pensei um dia: “Mano, vou fazer rap.” Mas fiquei em choque um bom tempo. Na década de 90, eu ouvia Consciência Humana, Sistema Negro, Racionais, Consciência X atual, Sabota, RZO, SNJ... via como os caras faziam. Os caras eram monstros demais. Eu pensava “Vou fazer rap não, moço, dá pra mim não”. 

Então, de ouvir até fazer, foi outro processo. Tive que estudar primeiro e só vim a gravar em 2005. 

Você falou da influência do rap dos anos 90. Essa década foi muito importante pro DF. Na sua visão, quais as características do rap daqui nessa época?

O rap é sempre bem particular. É sempre diferente em cada lugar que ele surge.

Nos anos 90, eu acho que a peculiaridade daqui foram as gírias, tá ligado?! O  “véi”, o “comédia”, as gírias locais. Surgiu Cirurgia Moral, Guindart 121, Código Penal, tinha essa diferença do linguajar.

Por mais que eles [os artistas do DF nessa época] quisessem fazer um protesto nas letras, não dava para comparar com a história que SP tem. SP tem 500 anos. Brasília tem 50, tá ligado?? Lá tinha muito mais coisa pra falar que a gente. Então, a gente se diferenciou por outras coisas. 

A cara de Brasília é o gravão. O rap do Distrito Federal é os treme o chão. Em SP, era uns boombap loucão, tinha a produção com graves, mas não comparava com os graves daqui. Você pode fazer o teste ouvindo. Isso não era competição. Era questão de produção. A característica era bater o gravão mesmo.

A trajetória do rap no DF foi marcada por tretas entre grupos, artistas e produtores. Sem entrar em detalhes, mas, qual foi o impacto disso na caminhada?

Vamos ser ligeiros nessa. Pega a visão:

Câmbio Negro, X, GOG, REI, Cirurgia Moral viviam se atacando. Eu acho que não foi uma parada positiva pro rap daqui. Pega uma fama de desunião.Eu acho que influenciou nisso.

Atitudes corretas trazem resultados positivos. Atitudes negativas vão chamar coisas negativas. Essa treta do rap DF foi foda, tá ligado? Porque, na minha cabeça, era pra gente estar escutando eles com músicas novas até hoje. O sucesso não ia parar. 

O rap do DF mostrou desunião. Isso continua. Tem quantos artistas fodas aqui? Quantos artistas se juntam numa track? 

Vários artistas daqui tiveram um momento muito relevante na cena nacional, nos anos 90 até começo dos anos 2000. Tornaram-se referências, mas, hoje, não tem uma produção consistente e perderam apelo, principalmente comercial. E por que você acha que isso aconteceu? 

Hoje, infelizmente, muita música é descartável. Eu acho que muita gente das antigas precisa se atualizar, tá ligado?!  Se atualizar não é mudar o estilo. É se atualizar com o público. O público quer atualidades deles, tá ligado? Imagina o Jamaika soltando um peso junto com Japão? Aquele papo da união...

Tem uma galera daqui que teve um momento no passado e se atualizou com o público deles, tá ligado? Hungria, Pacificadores, Duck... Essa galera fez isso: viu o que o público estava esperando deles e se antecipou. Mas isso não é fácil. Não adianta falar ”vamos se antecipar”.... Tem todo um processo, um estudo, uma estratégia.

Você ganhou notoriedade no freestyle. Fala um pouco dessa história e quais foram as batalhas mais marcantes na sua carreira? 

Eu frequentava algumas batalhas, mas não rimava. Teve um show no Arena- Tribo da Periferia e Jah Live- e eu ouvi o Ahoto falando no microfone: “Daqui a pouco, batalha de MCs”.  Nesse dia, eu me animei, falei pra Chelly, minha esposa: “hoje, eu vou batalhar.” 

Mas, aí, quem chega no evento? Biro Biro, um dos maiores rimadores daquele tempo. Na hora, já falei: “não vou mais não, não vou começar minha batalha contra esse cara”. Nisso, cervejinha, só molhando a palavra... E a Chelly sumiu. Daqui a pouco, eu ouço o Ahoto anunciando a batalha e falando meu nome. 

Caralho, peguei a cerveja e subi. Batalhei com um mano lá de Sobradinho. Me saí bem. Próxima fase: peguei o Qualhada. Foi mal, mas esbagacei. Aí, já não pipoquei mais não. Fui para a semi final: DJah. Disgrama. Mas passei o Djah. Chegou na final, torei o Biro também, foi louco. 

Depois desse dia, o Zen me chamou para ir na Batalha do Museu. Ganhei. Aí, teve outro evento no Museu do Calango Pensante, venci outra final contra o Djah. 

Outro momento sinistro foi a final de BH. Meu pai tinha morrido, tá ligado?! Eu estava num sentimento muito forte e nem ia para a viagem.  A galera fortaleceu, foi muito marcante “ Você vai para a viagem, você vai...”

Chegando lá em BH, deu um horário, a gente batalhando e a polícia embaçou a batalha, desligaram o som.  Falaram “se quiser, só à capella.” A gente fez à capella.  A final fui eu contra o Nauí, eu ganhei. Nesse dia, eu me emocionei cabuloso. 

E como o freestyle influencia seu processo de criação atualmente? Você pensa em voltar a batalhar?

Pra quem compõe, é a melhor coisa, fi. Aqui em 10 minutos, eu faço vários freestyle. Mas não faço várias letras, tá ligado?! De vários freestyles, eu posso fazer uma letra rapidinho. Tudo se aproveita, tudo é material. 

O freestyle não é bem uma facilidade. É como aquele jogador que começa no futebol de salão e, depois, vai pro campo. Ele tem aquilo, tem o recurso.

Hoje, tenho outras prioridades. Mas sempre penso em voltar. Pode acontecer, sim. Tenho saudades de batalhar.

Você já trampou com vários grupos e artistas.  Quais são os trabalhos atuais e as parcerias mais consistentes?

Eu e a Chelly temos o Etnia das Ruas desde 2000. O grupo teve algumas formações, parou um tempo, voltou em 2005, mas só voltei a gravar nesse projeto em 2010. A gente lançou um CD, Tamo na Caça, em 2016.

Momento importante foi quando eu conheci o Japão, numa batalha. A mulher do Japão me procurou e eu fiquei doido, né? Já curtia o som do bicho sinistro. Me chamaram para fazer um projeto com ele, um álbum chamado 20 de 40. Foi o primeiro CD que eu lancei. Eu já tinha músicas gravadas, mas CD, trampo, o primeiro foi esse.

Eu fui para o Viela em 2014. Fiquei até 2016. Dois anos fodas pra caralho. Aprendizado total, Daniela Mara Santos, produção sem palavras, mil grau, direcionamento foda. 

Do Viela, eu peguei Alto Kalibre, já conhecia a rapaziada, fui fazer esse projeto que era mais uma galera tentando se ajudar, tá ligado. 

E como funciona o Alto Kalibre, quem faz parte?

O Alto Kalibre é Velho Oeste, Desaforo Norte, a Layla Moreno, Rafael Pereira, Nenzim, Paulo Guerreiro, Don Gerson, eu, Etnia da Ruas, Mente Sativa. 

A galera se juntou na intenção de fazer uns trampos juntos. Tentar, de alguma forma, bagunçar a cena local. A gente viu a Indústria Kamikaze, referência, que se juntou e começou a fazer som. 

A Alto Kalibre trabalha muito. Na manha, um trabalho cuidadoso. Saíram alguns trabalhos, mas vão sair mais alguns ainda. Mas são 11 coletivos, uma hora vai desencontrar. O que eu fiz? Fui pro estúdio e gravei o trampos que eu tinha pra fazer. E fui fazer o Diogo Loko. 

Nessa caminhada, você tem colado com alguns nomes importantes do rap nacional. Como tem sido?

Quando eu comecei a fazer o Diogo Loko, eu trombei o Nocivo Shommon, um dos caras que eu mais tenho gratidão no rap nacional. Nocivo Shommon foi monstro. 

Participei do CD dele, Anjos e Demônios, e gravei um single e um clipe com ele aqui em Goiânia, que é o Guerreiro Ronin. Ele ainda me chamou para a cypher R.U.A 4. Abriu as portas, me botando na cena para dar uma força.

Depois, apareceu o Xamã. Veio aqui e eu gravei o Distrito 44 com ele. O bicho foi pro Rio e eu mandei uns trampos pra ele.  Nessa época, ele ainda estava na 1Kilo.

Foi quando a 1 Kilo veio para um show em Brasília e eles pediram pra alguns conhecidos a indicação de um rapper que estava no corre. Os caras me procuraram. Vieram no estúdio da AltoKalibre. 

Aí, rolou a oportunidade de ir para o Rio. Lá,eu  gravei O Surto, o clipe; Atravessando Fogo, outro videoclipe que tem no canal deles. Foi, nesse momento, que eu descobri que a 1Kilo era uma gravadora. Até então, eu achava que era um grupo de rap, uma banca. É uma gravadora, mano. 24 horas produzindo.

Foi quando me chamaram para fazer o Alma de Favela, o EP. Eu sou muito grato a 1Kilo: Dj Grego, Sadan, CT, Funkeiro,Pelé e Knust. Eles produziram um EP meu, tá ligado..

E quais foram os maiores ensinamentos de ter colado com essa galera da 1kilo?

Eu vi isso: um fluxo de trabalho que eu nunca tinha visto no rap, tá ligado? E, olha, eu tenho um tempão de trajetória e vi um bagulho que, meu irmão... Os caras estouraram porque procuraram estourar. Não foi nada de mão beijada, não caiu do céu não. Os moleque tem visão de mercado, de tudo... 

Tentamos trazer essa metodologia de trabalho pra dentro da Alto Calibre, dentro da Songbeats, dentro da Ballaclava. Fazer o bagulho independente, igual nego fez, tá ligado? Fazer um bagulho onde a gente possa reunir os moleques bom, todo mundo trampar e ser à pampa. Essa é a visão.

Como rapper, como você descreveria essas sonoridades que estão em alta no momento, como o trap e o drill? Na sua opinião, quais são as principais diferenças desses estilos para boombap tradicional?

Eu acho todos esses gêneros fodas. Curto e exploro mais o drill, que é aquele beat mais acelerado, a rima é no contra tempo do beat. O drill, ao meu ver, é meio que uma evolução do trap, onde a possibilidade de flows aumenta muito.

O trap explodiu no Brasil: o bpm um pouco mais lento, Autotune. Essa estética dominou a cena.

O boombap já é a raiz, a origem. O beat transmite mais emoção, entendeu?

Na sua opinião, quais os nomes mais importantes da trajetória do Rap do DF?

São manos que levaram o nome de Brasília pros quatro cantos do país: DuckJay , Tribo da Periferia; Gustavo Hungria,  Renato Froid e o Francisco Rapadura.

Tiveram outros manos daqui que chegaram, mas, igual a esses quatro, não. 

E você consegue dizer quais os seus álbuns preferidos?

Que sinuca de bico, viado. Mas vamos lá.

Viela 17 – Lá no Morro;
Vadioslocus – Até Quando o Caneco Secar
Um Barril de Rap- CD dos Meninos ;
DJ Jamaica- Utopia- Se Fosse Sempre Assim
Heitor Valente- O Legado.

 
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Referências

[DJ Jamaika- Dando Trabalho pros Anjos, faixa do álbum Utopia- Se Fosse Sempre Assim, lançado em 1998 ]

[Viela 17- 20 de 40 - álbum lançado em 2014 ]

[ Nocivo Shommon -Anjos e Demônios - álbum lançado em 2017 ]

[ Nocivo Shommon feat Diogo Loko- Guerreiro Ronin, single lançado em 2017 ]

[Gali/Diogo loko MC/Kamon/Thiago SKP/Ravi Lobo/Nocivo Shomon/Mauricio DTS/L.O - R.U.A 4-cypher lançada em 2018 ]

[Diogo Loko, Xamã, Major RD- Distrito 44,single lançado em 2017]

[Viela 17- Lá no Morro, álbum lançado em 2008]

[Vadioslokus- Até o Caneco Secar, álbum lançado em ]

[Um Barril de Rap- Cd dos Meninos, álbum lançado em ]

[DJ Jamaika- Utopia- Se Fosse Sempre Assim, álbum lançado em 1998]

[Heitor Valente- O Legado, álbum lançado em 2017]