Daher Guindart 121
Fui até a Estância, em Planaltina, para conversar o com líder do Guindart 121. Daher me recebeu na sede das lojas Daher Rodas e Rodas, onde também mora. Conversamos longamente sobre sua trajetória atribulada antes do rap, sobre tretas no DF, sobre a caminhada como vendedor e segundo dono da Discovery, e sobre novas influências no som do Guindart.
Entrevista e foto por Thiago Flores em 7 de dezembro de 2019.
Você já deve ter respondido essa pergunta algumas vezes na vida. Como surgiu o nome Guindart 121?
Todo mundo pergunta isso aí mesmo. Eu comecei o grupo com o Marquinhos, do Tropa: “Vamos montar um grupo? Vamos”.
Um dia, a gente estava passando no Plano e tinha um guindaste estendido num prédio. “Por que não colocamos Guind’art?” Quer dizer o quê? Força. 121, o artigo do homicídio. Força assassina.
Quer dizer que vocês são assassinos? Não, a gente assassina o lado negativo da parada, a discriminação, etc... Então, funciona... força assassina, Guind’art 121.
E como foi sua caminhada até formar o Guindart?
Eu já mexia com dança de rua. Eu comecei em 1980, em Goiânia. Comecei dançando jazz, daí passei pro soul, depois praqueles funkão das antigas. Depois, veio o break.
Já são 40 anos de cultura hip-hop. Eu tinha 11 anos quando entrei.
E a rima? Quando deu o click para começar a cantar?
Foi num show do Álibi, lá em Goiânia. Minha primeira inspiração foi o Kabala [conhecido atualmente como Rivas] com aquela música “Chaparral, madrugadas selvagens, matanças à vontade” [Chaparral, do álbum Abutre].
Eu falei: “Caralho, como é legal esse cara cantando. Vou montar um grupo.” Fiquei com isso na cabeça. Com 25 anos, eu já estava cansado de dançar. Aí, eu resolvi acompanhar a cena e começar a escrever e fazer rap.
Eu sempre fui um cara muito pesado. Com 18 anos, fui preso. Com 21, fui polícia civil em Goiânia. Cheguei em Planaltina, tive que montar uma casa de mulher, um cabaré.
Eu vim pra Planaltina em 1991. Planaltina era o terror e eu era o cara que tocava o terror aqui. Os caras respeitavam demais. Já tinha um grupo aqui: o Código Penal. Eu era dançarino do Código Penal até lançar o Guindart.
E como foi esse começo de carreira? Que tipo de dificuldades vocês enfrentaram?
Vou falar a verdade para você: eu sempre tive condição financeira boa. Sempre fui um cara estruturado financeiramente, minha família também. Mas eu era da rua mesmo, respeitado.
Os caras sabiam: esse cara é de verdade, não apareceu do nada, esse cara nasceu no rap. Então, nunca fui boicotado ou discriminado [na rua] e nem senti a dificuldade financeira do começo.
Outra coisa: eu já comecei com o Raffa, um ótimo produtor. Eu dei muita sorte. No primeiro CD que eu lancei [Ser ou Não Ser Gangster,1994] , estourei Emanoel e Fissurados. Então, eu já comecei bem, graças a Deus.
E como você conheceu o DJ Raffa?
Na época, todo mundo comentava: “produtor foda aqui é o Raffa. Fez o Câmbio Negro, fez o Álibi, o Cirurgia Moral, Código Penal”
Pensei: “tem que ser esse cara então, mano.” Conheci pela fama.
A década de 90 e o começo dos anos 2000 marcam a emergência do rap do DF no cenário nacional. Você acha que existe uma identidade comum nos artistas que surgiram nessa época? Existem traços peculiares do rap que era produzido aqui naquela época?
Explodiu mesmo em 1998/99: Deus Nosso Pai; Tô só Observando, do Jamaika, Esteja em Paz; do Consciência X atual, tinha o RZO. O boom de Brasília foi em 2000.
[No ano 2000, os grandes nomes da primeira geração do rap do DF já haviam lançado suas principais obras: GOG (Dia a Dia da Periferia, 1994; CPI da Favela,2000); Cirurgia Moral (A Minha Parte Eu Faço,1995); Câmbio Negro (Sub-Raça,1993; Diário de Um Feto, 1995); Alibi(Abutre, 1995; Pague para Entrar Reze para Sair, 1997); e DJ Jamaika(Utopia-Se Fosse Sempre Assim,1998)]
O que fez o rap de Brasília explodir no Brasil é que nós não imitávamos Racionais. Em SP, todos os outros grupos imitavam Racionais. Todos puxavam muito asa dos Racionais, no estilo.
Nós, não. O Jamaika tinha uma pegada. Guind’art era totalmente diferente: Emanuel,Tenha fé em Deus. O Rei: mata esse cara, tem que ser agora.... Era um choque. O povo escutava o rap de São Paulo e, de repente, escutou um som que não tinha nada a ver. Muito grave, muito bass, arrastado. Então, aquele boom boom destacou Brasília.
Fiz essa pergunta para todos os entrevistados mais antigos, da mesma forma. A trajetória do rap, principalmente, até os anos 2000, foi marcada por muitos desentendimentos entre grupos. Quais foram os impactos desses desentendimentos para o cenário do rap no DF, para o movimento?
Foi ótimo. Isso valorizou o rap de Brasília. Criou aquela polêmica. Isso já tinha nos Estados Unidos, já fazia parte [da cultura do rap].
Foi muito bom. O comentário que tinha em São Paulo era: os caras do DF não gostam do GOG. O GOG era muito forte em São Paulo, era mais forte lá do que aqui, se brincar.
Os caras falavam para mim: “Vocês não gostam do GOG.” Eu mesmo não tinha nada contra o GOG, mas os caras lá não batem bem com o GOG. Não sei porquê, treta pessoal.
Isso foi muito bom para o cenário. Isso foi o que trouxe a divergência... Porque em São Paulo não existia uma treta assim. Então, aqui é que foi o boom de Brasília.
E você acha que, a longo prazo, teve efeitos negativos?
Não. Na minha visão de vendedor, não.
Em termos de mercado [fonográfico] e de baile, eu acho que o mais prejudicado foi o GOG, em Brasília. Ele cresceu mais em São Paulo. Em Brasília, ele deu uma baixada, porque as músicas do Rei cresceram muito.
Em tese, foi bom para os dois. Não sei no âmbito pessoal, lógico. Mas, musicalmente, foi bom para os dois.
Você tocou em um ponto importante da sua trajetória no rap. Você sempre se envolveu com a parte comercial da música, foi vendedor e, depois, tornou-se dono da Discovery. Como começou essa sua atuação de vendedor?
Eu comecei a vender porque o Genivaldo [fundador e primeiro dono da gravadora Discovery] chegou um dia para mim e falou: “Daher, você já vendeu mil cópias do Emanuel.” Achando muito. Eu achei pouco, mano. Eu já tinha essa visão de empreendedor, de empresário. Eu falava: “Só mil? Mil é pouco! Eu quero mais.”
O que eu fiz? Naquela época, eu tinha um Omegazão CD, teto solar, digital, coisa mais linda... Aí, eu peguei os CDs dos caras: Álibi, Câmbio Negro, Cirurgia Moral, Código Penal e meti no meio dos meus. Saía com o carro lotado e voltava com ele vazio. Eles vendiam 1000 CDs em três meses e eu vendia em um dia, três dias. Os caras ficavam doidos perguntando o que esse cara faz?
Eu era muito visionário empresarialmente. Os caras iam, por exemplo, na Pro Vinil, em Brasília. Eu ia no Carrefour. Os cara iam na lojinha Fulano, eu ia no Pão de Açúcar. Então, minha visão sempre foi muito grande. Os lojistas perguntavam: “esse CD vende?” Aí, eu falava: “Põe aí pra você ver.” Ele colocava e as empresas vendiam tudo. Passei a vender horrores, milhões. Vender 100 mil discos: 1 milhão de reais.
Eu era um cara sangue no olho demais. Eu chegava, sei lá, em Ribeirão Preto. Conversava, vendia e “tenho que ir embora”. Não parava para beber cerveja, fumar baseado. Eu ia, vendia e saia voado.
Mas era complicado. O sertanejo sempre foi muito forte em Goiás, Minas, interior de São Paulo. Vendia 50 Cds para uma loja num mês. No outro mês, não tinha nenhum mais, pois todos tinham sido vendidos. Mas era a mesma dificuldade para conseguir vender mais: “Será que eu pego? ” E o dono da loja perguntava pro gerente, pro vendedor. A mesma ladainha sempre. Isso me deixava muito irritado.
Tinha o preconceito também. Eles tinha um argumento assim: “Não vou comprar, porque os caras roubam esses CDs de rap tudo.” Já estava discriminado o rap, correto? Aí eu dizia: “o senhor vai deixar de vender 200-300 CDs, porque vão roubar? Não tem outra solução?”
E de vendedor para dono da gravadora? Como foi?
Eu cresci como vendedor e o Genivaldo viu isso.
Em 1998, nós vendeu(sic) 50 mil discos do Espaço RAP Volume 1, coletânea da 105 FM, com GOG, Racionais e duas faixas nossas. Foi o disco mais vendido do Espaço Rap até hoje. Lancei o segundo álbum, Livre Arbítrio, que explodiu no Brasil. Deus Nosso Pai e Cláudia, que era a minha mulher que morreu, história verídica.
Comecei a indicar grupo para Discovery lançar e ele não queria. Fui lá e lancei o Liberdade Condicional: por mim. Que é o Vida Eterna, Precisamos de Jesus meu irmão...
O Genivaldo pensou: “vou arrumar concorrência para mim.” Outra coisa: ele sabia que o CD ia acabar. Ele teve essa malandragem e eu não tive essa visão futura. Comprei a gravadora. Ele queria sair fora, virou crente e eu assumi.
Até hoje, ela é minha, mas está parada. Eu não quis entrar muito no mundo digital. Entrar para ganhar pouca coisa não adianta para mim. Por exemplo, eu vendia dez mil CDs, 100 mil reais por mês. Para começar pequeno no mundo digital, não animei.
E nessa trajetória de empresário da indústria fonográfica, quais foram seus maiores acertos?
Eu acertei no Liberdade Condicional. O grupo vinha se arrastando, não tinha expressão nacional. Aí, lancei o Vida Eterna. Tive visão com o Tribo da Periferia. Ninguém apostava. Pacificadores, vinha arrastando, veio para a gravadora, lancei também e estourou. Lancei o Revolução Rap, que também estourou. Com o Pivete Branco, que era do Pavilhão 9, lancei aquela música de São Paulo à Brasília e tal, acertei com ele.
Acho que, como vendedor e como produtor, meu maior acerto é o Tribo... maior nome do rap hoje.
E como foi a história com o Tribo da Periferia? Como vocês se conheceram e como foi o trabalho com o grupo?
Quem me apresentou o Tribo foi o falecido DJ Adevaldo, de Planaltina. Na época, ele falou: “Pô, Daher, tem um grupo aí, Tribo da Periferia, ajuda os caras”. Ele tinha uma rádio pirata que tocava Tribo demais, só que o grupo não tinha expressão ainda. O Dourado do Código Penal também falou: “ajuda esse caras, os caras são bons.”
Com muito custo, eles vieram aqui, o Duckjay mais o Marlon. O Tribo não era só Duckjay, tinha esse outro cara que saiu, o Mano Marlon.
O Duck veio até mim e pediu ajuda. Eu lancei aquele Verdadeiro Brasileiro, que tem o selo do Discovery e do G1. Não andou muito depois disso. Por contrato, o Duck tinha que me apresentar mais dois CDs e não veio. Como eu achei que não ia dar nada, eu deixei ele seguir.
Ele seguiu a história dele e eu deixei até aqui. Nós temos contrato assinado até hoje. Estamos tendo uma divergência na justiça agora. Uma multa de dois milhões de reais que a gente tem que resolver, sabe.
Estamos vendo esse probleminha, mas o Tribo foi descoberto em Planaltina mesmo, um grupo local.
Na sua visão, quais as principais diferenças do rap que era feito nos anos 90 e 2000 para o que é produzido atualmente no DF?
Eu penso o seguinte: o rap das antiga tinha um objetivo. Nós tínhamos a obrigação do resgate: tirar os moleques do crime. Hoje, os moleques não tem esse compromisso.. Eles tem o compromisso de ganhar dinheiro. Não vou falar que está errado, mas é outra visão, né. Não é a visão de resgate.
Quais os momentos mais difíceis da sua carreira ou as maiores frustrações nessa trajetória no rap?
Na sua visão, quais as principais diferenças do rap que era feito nos anos 90 e 2000 para o que é A maior decepção foi não ter conseguido que o rap de Brasília entrasse em São Paulo. Lutei e morri na praia.
Brasília sempre trouxe São Paulo. Desde os primórdios, sempre vieram Racionais, Realidade Cruel, Facção Central, Naldinho e nunca foi recíproco. Nunca valorizaram lá.
E eu ficava com muita raiva com os paga pau aqui de Brasília, que ficavam pagando pau para São Paulo. Eu sabia o que acontecia. Eu via que eles não queriam valorizar Brasília. Por quê? Se eles vinham para cá, por que não levar nossos artistas pra lá?
Os mil quilômetros pra cá são os mesmos mil para lá. Então, enfrentamos muita dificuldade. Era só GOG. Inclusive, acho que o GOG pecou nisso: em não fazer Brasília virar lá dentro. Faltou isso, muito.
E os momentos mais especiais? Quais você apontaria?
Fui muito feliz quando eu dançava. Eu fazia com o coração.
Quando o Guind’art estourou mesmo, com O bom malandro, em 2007, né. Se eu fosse americano, eu tava andando de helicóptero, porque eu acertei música demais. Guind’art tem 8 10 músicas que são hits nacionais.
A maior alegria foi quando eu fui fazer um show em Goiânia, na rádio Araguaia. Fui fazer show e tive que sair escoltado. A polícia teve que vir, porque não deixavam eu sair. Tinha uma 10 mil pessoas, coisa de louco, de filme. Povo louco, caindo no chão, pulando na van. Aquela coisa de louco.
Fui muito feliz. Fiz show em mais de 10 estados do Brasil, fiz show com Public Enemy, 50 Cent, Ja Rule. Eu fiz show com muitos caras internacionais. Então, eu fui muito feliz e sou, até hoje. O Guind’art está aí, eu tenho mais alegria do que tristeza. São quase mil shows na carreira, então é muita estrada.
Na sua opinião, quais novos artistas do DF podem despontar local e nacionalmente?
O que eu vou te falar, pouca gente sabe. A rádio não toca alguém que vai estourar. Ela só toca se ele estiver estourado. Eu não tenho ninguém dessa nova geração pra dizer que pode vir a estourar. Eu só escuto alguma coisa quando está todo mundo escutando.
Mas... tem aqueles moleques do 61. O 61 tem chance. Tem o menino aí, que custa deslanchar, o Misael. Ele está travado, mas eu acho que ele pode deslanchar. O Daher Filho, que é meu filho, é um moleque que faz trap e que tem muita chance de deslanchar também. Ainda não foi, mas tem chance.
Da nova geração, tem a filha do JamaiKa, mas eu acho que ela não se encaixou no trap ainda, ela canta um rap ainda, não canta um trap.
Porque hoje só vai ser for trap, rap não vai mais. Não tem como você voltar a música do Raul Seixas mais. Então, só vai se for trap.
Pra você, quais são os personagens mais importantes desses quase 40 anos de rap aqui no DF?
O X né, do Câmbio Negro. Jamaika. O Raffa. O Rei, acho que ajudou muito, marcou muito Brasília.
O DJ Marola. O Marola começou vender, seguiu meus passos e foi para São Paulo, eu como gravadora, ele como distribuidora. O Marola representou muito, nacionalmente. Esses seriam os cinco nomes.
Top 5 do Daher Guindart 121- cinco músicas ou cinco álbuns mais especiais da história do rap do DF.
Hungria - Dubai
Tribo da Periferia - Imprevisível
Câmbio Negro - Sub-raça
DJ Jamaika - Tô só observando
Guindart 121 - O Bom Malandro
Referências
[ Discovery - Maior gravadora independente de rap do país nos anos 90. Fundada pelo paraibano Genivaldo, foi comprada por Daher no começo dos anos 2000.]
[Espaço Rap Vol.1 - Coletânea de rap produzida pelo programa de rádio Espaço Rap, transmitido pela 105,1 FM de São Paulo, desde 1993. Foram lançados 11 volumes da coletânea até 2006. ]