BIRO RIBEIRO
Carismático e criativo, Biro Ribeiro tem sua trajetória profundamente conectada à palavra rimada. Fui até Vicente Pires e colei na casa do MC e poeta para falar sobre as batalhas
de freestyle no DF, projetos literários e os potenciais
pedagógicos do hip-hop.
Entrevista por Thiago Flores em 26 de julho de 2020
Como foram seus primeiros contatos com música?
Dizem que a batalha pioneira aqui em Brasília não foi bem uma batalha, mas tipo um encontro que eles chamavam de Sindicato da Rima, lá pra 2005, 2006. Mas os eventos que são realmente tidos como pioneiros são o Rima Forte, no Recanto das Emas e o MC’s de Classe, uma roda de rima, que rolava ali na Praça do DI e até a Flora Matos colava. Tem vídeo dela rimando lá. Só que isso acontecia muito esporadicamente, não tinha periodicidade definida, nem nada. Aí rolou a Microfonia, uma festa fechada que teve batalha de rima. Inclusive, um dos finalistas foi o Oreia, que estava passando um tempo em Brasília. A primeira vez que eu batalhei foi na segunda edição do Microfonia.
A partir da Microfonia, o Ahoto teve a ideia de fazer uma batalha periódica, que acontecesse sempre em uma data definida, num horário, num local definido. Daí ele criou o Calango Pensante, a primeira batalha de Brasília a acontecer periodicamente. Foi também a primeira batalha daqui que viralizou midiaticamente, em número de views no YT. Ela acontecia sempre no segundo sábado de cada mês no Conic, lá pra 2010. Ela se tornou a mãe de todas as batalhas que vieram depois. Durante muito tempo ela foi a referência de Brasília.
Quando a gente, eu, Nauí, DeJah, Zen, saiu de Brasília pela primeira vez para batalhar, pro primeiro desafio DF versus BH, em 2012, a gente viu como o movimento lá [em Belo Horizonte] era grandioso, gigantesco, dez vezes maior que o nosso. Eles faziam evento toda sexta-feira, embaixo do viaduto, com condições até meio tensas de realizar a parada. Aí, a galera voltou pra cá instigada a movimentar mais a cena.
Quando a gente voltou desse acontecimento em BH, a gente começou a fazer batalhas em outras periodicidades. Aí, surgiu a Batalha do Museu, criação do Zen, que acontece todos os domingos até hoje. Foi criada a Batalha do Neurônio, que eu organizo. Ela é mensal e se tornou a primeira e única batalha de conhecimento de Brasília até hoje, baseada no modelo do MC Marechal. Surgiu a Praça é Nossa, que é a batalha no Val [Valparaíso de Goiás, entorno do DF]. E foram surgindo várias outras batalhas, a partir dessas.
E, na sua opinião, quem seriam os personagens mais relevantes dessa trajetória?
A primeira geração foi responsável meio que por criar o movimento. A minha geração, que eu defino como a segunda: Dejah, Nauí, Zen, eu, foi muito importante por dois pontos: por viralizar a parada em Brasília e por colocar Brasília no circuito nacional.
Marinho e Singelo já foram uma geração um pouco posterior, mas que também deram uma expandida no nosso nome.
Depois veio o Alves, é um dos maiores campeões da cena. Ele é o maior campeão de Brasília em competições fora, foi um cara que trouxe muita visibilidade. Também veio o Sid, temos que citar ele porque ele foi o primeiro a conquistar um título nacional, o título do próprio Duelo de MC’s.
Então, essas pessoas foram muito importantes nesses quesitos. De trazer a visibilidade, de difundir a parada e tudo mais. E hoje tem a molecada que dá continuidade a esse trabalho, Hate, John.
Eu citaria esses nomes como um todo.
Quais foram as batalhas mais importantes da sua carreira?
Vou falar de batalhas que eu só assisti e que batalhei.
A batalha mais marcante que eu não estou envolvido foi a que me fez virar MC, tá ligado? Douglas Din x Nissin, do Oriente. Não sei se tu já viu essa batalha, mas é aquela que ele manda a rima do Dr. Dolittle, tá ligado?
Quando ele mandou essa rima, eu gritei, joguei o fone de ouvido pro alto. Eu falei: “mano, puta que pariu, pelo amor de deus, quem é esse cara? Eu quero ser esse cara, mano, eu quero fazer isso, tá ligado”. Essa foi a batalha que me instigou a virar MC.
Aí, a mais marcante da minha vida e que eu batalhei foi quando eu enfrentei o Douglas Din, em BH, no desafio DF vs BH. Era o cara que tinha me inspirado, meu ídolo. Lembro que antes da batalha, eu pensava: porra, mano, quero enfrentar qualquer um, menos o Douglas Din. E a primeira batalha do dia foi eu e contra ele.
E eu ganhei essa batalha, tá ligado? Esse foi, talvez, o grande marco histórico da minha carreira de MC: ter ganhado dele, lá dentro do viaduto. Ele era um cara muito foda lá, quase imbatível.
Além disso, acho que essa batalha trouxe visibilidade pra cena do DF: um moleque de Brasília ganhou do Douglas Din, tipo, existe freestyle em Brasília. Quem são esses moleques?
Teve batalhas que marcaram negativamente. Hoje, eu olho pra trás como aprendizado. Eu fui o primeiro MC de Brasília a ir pro Nacional, em 2012. Eu sou um cara que, naturalmente, fico nervoso. Sou muito ansioso. Quando eu fui para o Nacional, eu bebi, fiquei alterado, muito nervoso. Eu passei da primeira fase. Pra segunda, demorou uma enormidade e aí mandei mal.
Demorei a superar esse trauma. Nem acho que eu tenha superado, acho que aprendi a conviver. Eu levava muito a sério o lance da batalha no sentido de competitividade. Não gostava de perder. Eu tinha medo de mandar mal, às vezes tinha problema de autoconfiança. Então, era sempre uma superação estar no palco batalhando.
Então, essas são as grandes batalhas que me marcaram. Então, umas positivas e outras negativas. Engraçado, as duas no mesmo lugar. Tem lugares que a gente já foi do céu ao inferno.
Dá para sobreviver fazendo somente freestyle? Ou precisa ser músico de estúdio ou fazer outras paradas?
A resposta é não, mas estamos lutando para mudar isso. É não, por vários fatores, inclusive, por imaturidade profissional nossa, de não enxergar os enormes potenciais que a batalha possui, em todos os aspectos: social, cultural, econômico mesmo. Até político.
Essa imaturidade faz a gente não enxergar o freestyle como business. Acho que a gente deveria. É aquele lance do Emicida: se alguém tem que ganhar dinheiro com isso, que seja eu, tá ligado? Que seja a gente que faz a parada, de fato.
Não é possível que você trilhe uma carreira apenas dentro do universo de batalha e viva financeiramente disso. Entretanto, há exceções de pessoas que tiveram e visão organizacional que conseguem fazer isso.
Por exemplo, a Batalha da Aldeia consegue financeiramente movimentar coisas grandiosas, mas através de estratégias traçadas, conceitos de marketing e coisas que são chatas para o artista, mas imprescindíveis pro processo.
Essa pergunta é maravilhosa. Em Brasília, esse é um dos meus objetivos. Eu vi que pra mudar esse cenário, eu teria que traçar várias metas, obedecendo a realidade que me cerca, a cidade que me cerca, que me rodeia e tentar fazer rentabilidade através das batalhas
Eu organizo a Batalha do Neurônio tem seis anos, acontece uma vez por mês. É massa, o freestyle é maravilhoso, num lugar legal, no Tagua Parque. Só que a gente viu que o potencial é gigante. Então, a gente começou a vender apresentações de freestyle para diversos locais e diversas intervenções.
Chegamos a ser contratados pelo time de basquete de Brasília, o Ceub, para ser mestre de cerimônia, levando o freestyle. Colamos desde presídio até universidade pública, empresa, congresso. A gente viu que o freestyle é mágico. O freestyle agrada pessoas que nem gostam de rap, mas curtem a rima de improviso.
Há quem consegue girar a parte monetária disso, mas, assim, são exceções apenas. Mas a galera está enxergando que dá pra fazer de outras formas, não só como artista. Mas, por exemplo, na produção, ou na parte técnica ou na parte de engenharia de música, tá ligado, ou essas paradas. E produção cultural... e não só os palcos, mas os bastidores também.
Hoje, as batalhas são uma vitrine muito forte pro mercado fonográfico. Muito MC entra para as batalhas já pensando
no trampo de estúdio futuro?
Isso aumentou muito hoje.
Quando eu comecei, por exemplo, era mais um hobby do que uma potencial carreira. E sei que não eram todos que vislumbravam que haveria possibilidade de trilhar uma carreira fazendo batalhas, depois migrar pros sons, fazer som, receber das plataformas, receber cachê, fechar parcerias. Viver disso financeiramente,
As pessoas da minha geração de freestyle underground que tiveram a mentalidade mais sagaz são as que talvez estejam melhor colocadas hoje. Por exemplo, o Froid. Ele já tinha plena convicção que queria fazer uma carreira. Do tipo: eu vou ser cantor. Vou fazer música, vou viver disso e pagar minhas contas com o rap.
Alguns MCs foram dando certo e essa mentalidade de profissional, essa ambição, foi ficando mais abrangente. A molecada, hoje, vislumbra essa possibilidade, dá pra fazer.
O DF, principalmente nos anos 90, surgiu no cenário nacional
com uma identidade bem marcante. Na sua opinião, existe
uma cara/som que define o rap do DF dessa época?
Como você descreveria?
A galera chama essa identidade dos anos 1990 de gangster. Eu não sei muito se é a terminologia certa. É bem a cara do rap Brasília naquela época. Para descrever aquela sonoridade, eu chamaria assim também.
Acho que o Tribo da Periferia modernizou essa parada de forma magnífica. É muito a cara do rap de Brasília atual.
Mas existe o rap underground também, principalmente da molecada saindo das batalhas. Esse som é muito mais heterogêneo. Tem de todo jeito que você pensar, tem o rap mais melódico, mais cantado, outro mais rasgado, outro mais bandidão mesmo e o outro mais seco, sei lá.
O Froid veio do underground. Um Barril de Rap (UBR), que era o grupo dele do Yank, Sampa, tipo assim... O Movni, que era o grupo do Nauí AfroRagga. Hoje, eu diria que o grande nome do underground seria o Murica. Ele é a pérola mesmo, saca. Representa bem o underground de Brasília, a mistura de tudo, de rap com orgânico, com a MPB, com o suco de fruta, tudo misturado ali.
Além do rap, você tem um trampo muito consistente
com a literatura. Qual o papel da escrita para você?
Eu sempre fiz poesia, desde os 13, 14 anos. Nunca abandonei essa vertente, por ser apaixonado por ela. É um local que eu me sinto confortável e competente pra expor meu trampo.
A gente falou de como desenvolver carreiras na batalha, no rap. Na arte independente, a gente tem que se virar. Eu faço muito a analogia do polvo. Cada tentáculo do polvo é algo que se pode fazer, que você pode explorar e tentar fazer girar alguma coisa.
A poesia é um desses tentáculos, né. Existe uma cultura do Slam e dos Saraus. No DF, embora tenham muitas coisas legais sendo feitas, ainda é muito tímida. Em São Paulo e no Rio, o slam movimenta muita coisa: pessoas, recursos, iniciativas legais.
Funciona muito como uma espécie de divulgação das minhas coisas, das minhas poesias e eu tenho planos mais abrangentes para isso.
Suas rimas sempre tem relação com conhecimento, com mensagens, provocações. No geral, na sua opinião, qual é o potencial pedagógico e transformador do rap e do hip-hop?
Mano, é uma importância vital, gigantesca. A cultura hip-hop e todos os seus elementos são armas poderosíssimas pra esse processo de auto aceitação, criação e expansão de consciência, emancipação do ser e educação de visão crítica e política.
O rap fala numa linguagem que muitas vezes a academia não fala. Ele atinge locais onde o Estado não vai, a educação não chega.
Quais seriam as principais dificuldades enfrentadas na sua carreira atualmente?
A falta de acesso à informações mais burocráticas em relação à registros musicais, plataformas, perfis e distribuidoras.
Sinto um certo preconceito de gênero nisso, pois, em certos casos quando busquei auxílio, fui instruída a deixar isso de lado, porque seria muita coisa para uma "mulher" fazer sozinha. Como deixar de lado, se é a partir dos meus registros musicais que irei receber pelas minhas composições? Se eu tivesse realmente esquecido isso, simplesmente só postando meus trabalhos, quem sabe alguém já não teria registrado meus trabalhos em outro nome.
No geral, é isso: acesso a informações mais minuciosas.
A música é um caminho complicado, porém, libertador.
É super possível viver dela.
Na sua opinião, quem são os personagens mais importantes
desses quase 40 anos de rap no DF?
Essa galera antiga pavimentou, musicalmente, uma cena gigante: Japão com o Viela 17, GOG, Câmbio Negro, o X né, DJ Jamaika. Essa geração foi importante pra caralho, tá ligado.
E Tribo também, trabalho fudido. Trabalho foda, desde lá atrás até hoje. Estouradasso no Brasil. Você vai no interior, mano, e o que dá é Tribo da Periferia. Lá na minha cidade, em Patos, a galera ouve pra caralho.
A minha geração de freestyle é muito importante para a cena de batalhas. A gente tem essa noção. Antigamente, eu tinha vergonha de falar isso, né? Hoje, não. Eu sei reconhecer, pô.
Eu citaria nomes dessa linha do underground que são muito importantes pra Brasília: Nauí, Froid, Murica. São de momentos diferentes, mas que difundiram a música também.
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