Anderson Benjamin

Rapper e fotógrafo, cria do Paranoá, Anderson Benjamin ganhou destaque no rap local e nacional por conta do trabalho com o grupo Ataque Belíz. Nessa conversa, falamos sobre a trajetória da banda, influências musicais não convencionais e sobre conexões entre música e fotografia.

Entrevista por Thiago Flores. Conversa por email em 30 de junho de 2020.


Como começou seu envolvimento com música? Como foram seus primeiros contatos e a trajetória até conhecer o rap?

Aprendi a gostar de música com meu tio. Ele me influenciou, por sempre estar ouvindo a rádio Antena 1. Depois disso, nunca mais parei de ouvir. 

Uma vez, meu primo me levou uma fita cassete com um som do Gabriel o Pensador. Acho que foi o primeiro rap que ouvi Lora Burra. Na época, achei a batida e as rimas algo diferente. Aquilo me prendeu. Fiquei curioso em descobrir mais sobre o rap.

Com o tempo, eu descobri que outro primo que morava na Ceilândia tinha muita coisa de rap. A gente tinha videocassete e ele copiava pra mim uns vídeos que ele gravava do antigo Yo’Raps, que rolava na MTV.  Essa era a forma de conhecer novos artistas: o famoso tráfico de fita VHS. Sempre algum amigo tinha algo novo e eu só ia acrescentando na fita que já tinha.

Quando você começou a fazer rap, levar a sério e entender que poderia ser algo profissional? Como era a cena da sua quebrada e do DF naquela época?

O Alisson me chamou pra participar do grupo dele na época Júri. Ele sempre via que eu colava nos ensaios e ficava viajando nas rimas. Aí ele fez o convite e eu abracei como minha vida. Levei à sério desde a minha primeira apresentação. Como sou perfeccionista, queria que saísse a melhor possível.

Eu via a música poderia fazer mudança na vida de uma pessoa. Além de ser uma forma de entretenimento na periferia e também me afastar do crime.

No começo, existiam alguns grupos na cidade do Paranoá. A maioria era desconhecida, acho que somente o grupo Paradox já tinha disco lançado e fazia um pouco de sucesso. Fora isso, geral ainda estava na luta para estar no holofotes. 

No DF, a gente já ouvia nomes em destaque, como Câmbio Negro, GOG, Cirurgia Moral e Liberdade Condicional. Eram os artistas que nos inspiravam. A gente queria ser como eles: fazer música e transformar a mente das pessoas.

Como se formou o Ataque Beliz? Como você conheceu os caras?

Em 1997, quando eu tinha 17 anos, eu conheci o Alisson Melo. Uma vez, ele apareceu lá em casa com outro amigo, porque tinha ficado sabendo que eu tinha umas fitas VHS, e me pediu emprestado. Ele até perdeu essa fita depois e eu queria quebrá-lo (risos).

Depois disso, a gente ficou bem próximo. Ele já tinha um grupo chamado Júri e fazia ensaio com outro amigo, o Marcelo. Eu sempre colava no ensaio, porque eu gostava da música deles. Nesse meio tempo, ele me convidou para fazer do grupo. Eu aceitei na hora. Logo depois, a gente ficou sabendo que Higo Melo também escrevia uns raps e o convidou para o grupo.

Logo em seguida, nosso amigo Marcelo foi assassinado, confundido com outra pessoa. A gente ficou bem mal na época. Demos uma pausa. Nesse tempo, Higo foi convidado para entrar no grupo Falso Sistema e o Alisson tinha se convertido. Eu fiquei somente escrevendo umas rimas. Engraçado, apesar dessa separação, a gente nunca se afastou, mesmo cada um fazendo uma coisa. 

Em 99, eu e o Alisson resolvemos criar um grupo, chamado 2 família e começou a tocar em aniversários da cidade. Participamos do Abril Pro Rap, até ficamos em segundo lugar na lista, na época. 

Logo em seguida, Higo teve a ideia de criar um projeto com a gente, chamado Ataque Beliz. A ideia era fazer sons que não soassem como os que já existiam no DF e assim seguimos. 

A banda nasceu com aquela proposta de sonoridade já definida? Quais eram as maiores referências do grupo?

A gente tinha um gosto bem peculiar. A gente detestava o que era comercial. Todos ouviam muito rap underground. Wu Tang Clan, Mos Def, Guru, Common, Busta Rhymes, Pharcyde e The Roots eram nossas maiores referências. 

Criamos nossa sonoridade ouvindo esses caras. A gente não encontrava estúdio ou produtor que fizesse algo que a gente gostasse. Por isso, criamos nosso próprio estúdio (Q-Estúdio) e começamos a estudar programação para fazer nossos próprios beats. Só assim a gente ficava em paz com as melodias.

O Ataque Beliz apresentou um trabalho com uma estética bem diferente do que era tradicionalmente produzido no DF. Como era a reação do público em relação a essas diferenças? Existiu algum tipo de preconceito ou resistência por parte da galera? 

No começo, foi tenso. Geral detestava. Geral queria um grave pesado, por isto ser referência aqui no DF. Aí, chegava um grupo com sampler de Jazz, o pessoal não entendia. Até falava que aquilo não era Rap. 

Várias vezes, tocamos em eventos e ficava um monte de gente de braço cruzado, sem entender nada. A gente ignorava e dava o nosso melhor. Se, de 300 pessoas, duas estivessem curtindo, para a gente, estava ótimo.

Quais foram os momentos mais marcantes e especiais na sua trajetória com o Ataque Beliz? E os mais tensos/piores?

O mais marcante foi ser convidado para tocar no programa Som Brasil, em homenagem ao Ataulfo Alves. Ser um grupo de rap do DF, sem empresário ou jabá, e ser convidado pra tocar na maior emissora de TV do país e fazer uma roupagem dos maiores sucessos do mestre foi um momento mágico.

O momento mais tenso foi tocar em um evento que a produtora nem água ofereceu pra gente. Tive que comprar uma e, quando acabava, eu ficava enchendo a garrafa na pia do banheiro. E o pior, ela deu cano na gente. Foi dessa história que nasceu a música “As Maravilhas do Hip-Hop”.

Em 1990, o rap do DF surgiu nacionalmente com grande impacto. Você consegue identificar características próprias do rap daqui? Que diferenciassem o estilo do que era produzido em SP e em outros locais?

Naquela época, o rap aqui do DF seguia a linha de Los Angeles, famoso gangsta rap, com batida grave, sintetizadores, letras eram bem machistas e relacionadas ao cotidiano de crime. 

Tinham alguns que nadavam contra a corrente: o GOG que fazia uma linha mais politizada, sempre batia de frente com o governo; o X (Câmbio Negro) que seguia a linha mais rock com rap também seguindo a linha política. Esses dois eram os que mais me identificava.

Já em SP, o pessoal era a linha New York, com batidas de Boom Bap e rimas mais agressivas e politizadas também. Eu curtia muito essa época. Grupos como DMN, Sistema Negro, MRN e Racionais são grupos fodas.

Que diferenças em sonoridade e discurso você conseguiria apontar entre o que é produzido hoje e o que era produzido nas décadas de 90/2000?

A questão da sonoridade isso vai de cada um. Tem uns que vão pela popularidade sonora, outros vão manter a essência e fazer o que gostam de verdade. Independente do público.

E as letras continuam com um discurso político forte. Isso é ótimo, afinal, nosso país não tem sossego para falar sobre festas e afins.

Além do Ataque Beliz, você fez outros trampos na música?

Eu lancei um projeto com Alisson e Patrick Rerison chamado “Veemente - O tema é amor”. Fizemos um disco em homenagem ao dia dos namorados. Produzidos, escrevemos e gravamos o disco em duas semanas, com diversos artistas aqui do DF.

Também lancei um EP chamado “Cada Cabeça é um universo” que foi vencedor do prêmio Hip-Hop Zumbi na categoria melhor EP.

Atualmente, você mora aonde e faz o quê?

Moro no Jardim Mangueiral. Eu continuo trabalhando com fotografia, minha segunda paixão.

Existem conexões entre a fotografia e o rap e a cultura hip hop/rap na sua produção?

Hip-Hop é a minha maior referência. Desde a época que folheava as revistas de rap The Source, meu sonho é poder estampar minha visão em várias capas de rap. Continuar ainda assinando minha linguagem mesmo que seja apenas visual.

Você acompanha o que tem sido feito de rap onde você mora e no rap do DF atualmente?

Onde eu moro não, mas onde cresci, na cidade do Paranoá, tem um grande camarada que torço muito por ele, o cara tem uma caneta braba. Salve Preto, Radicalibres.

Eu estou um pouco por fora da cena. Acabei de voltar para o Brasil. Estava morando fora por 3 anos e meio. Curto muito o Japão Viela 17, o Markão Aborígine. Ah, tem um camarada muito bom, que recomendo: Jean Tassy.

Na sua opinião, quais são os personagens mais relevantes dos quase 40 anos de rap do Distrito Federal?

Sem dúvida GOG e Álibi os caras tomaram a cena quando chegaram e até hoje ecoam nos falantes na periferia.

Qual o seu álbum predileto de rap do DF?

GOG - Prepare-se

TOP 5 músicas ou álbuns do rap DF do Anderson Benjamim 

GOG “Razão Para Viver”
Ataque Beliz “A Poesia”
Falso Sistema “Sonhei com a Paz”
Cirurgia Moral “Gospel Gangsta”
Câmbio Negro “A Volta”

Referências

[Gabriel Pensador - rapper carioca, um dos pioneiros do movimento do RJ. Alcançou grande sucesso nacional nos anos 90 e 2000. Para além da música, chamou atenção por ser branco e de classe média.]

[Abril Pro Rap- concurso e festival de rap realizado em Brasília no início dos anos 2000. Os melhores grupos gravavam uma coletânea e o vencedor do evento tinha um álbum produzido e lançado pelo selo CD BOX.]

[Prêmio Hip-Hop Zumbi- premiação criada em 2010, especializada no movimento hip-hop do Distrito Federal. Descontinuada em 2014]

[The Source- é a publicação de rap mais antiga do mundo, fundada em 1988. A partir da revista, foram criadas premiações, rankings, documentários e outros produtos com foco no rap e no hip-hop dos EUA.]