AMARO

Nas entrevistas de PESO, Amaro foi citado como um nome importante da nova geração de rappers do DF. Nessa entrevista, o MC, artista plástico e tatuador de Samambaia fala sobre influências musicais, interações entre o movimento rap e a comunidade LGBTQIA+, preconceito e oportunidades de uma carreira em ascensão.


Você nasceu no DF? Sempre morou aqui? Fala um pouco sobre sua trajetória pelo território de Brasília.

Sim, nasci no Guará. Minha família inteira morava no Guará, na casa da minha vó. A gente passou pelo Areal e quando eu tinha uns quatro ou cinco anos, quando meus pais conseguiram comprar a casa deles, a gente veio para Samambaia.

Eu cresci na Samambaia. Moro aqui até hoje. Quase não tenho memórias desses outros lugares. Minhas lembranças são todas da Samambaia Sul, moro até hoje no mesmo lugar.

E como era o contato com música no seu ambiente familiar?

Aqui em casa, nunca teve músicos, ninguém fazendo música, mas sempre consumimos muita música. Meu pai ouvia muito sertanejo, minha mãe ouvia muita MPB, minha irmã mais velha ouvia rock e meu irmão mais velho ouvia rap.

Até meu irmão começar a fazer rap, então eu fui interagindo com o rap desde sempre.

E como foi o processo da sua inserção no rap? De se apropriar do que você recebia do seu irmão e construir uma vivência individual com o gênero e o movimento hip-hop.

Meu irmão tinha um grupo de rap. A partir do momento em que eles me pediram uma ajuda para um show, para umas coisas de palco, eu comecei a sentir de verdade como esse rolê do rap acontecia.

Eu fui só me apaixonando. Meu irmão foi fazendo shows, participando de concursos, e eu fui me envolvendo cada vez mais. Quando eu vi, eu estava participando com alguns grupos.

Eu fiz rap dos 15 aos 18 anos e parei. Fui fazer faculdade de Artes Visuais. Profissionalmente falando, eu voltei pro rap há poucos anos, já com uma consciência sobre a minha sexualidade.

E eu queria muito trazer pro meu rap as minhas influências das Artes Visuais. Quando eu vi que dava para somar essas duas linguagens, eu comecei a entender que precisava me profissionalizar pra fazer disso uma profissão.

A questão do gênero e da sexualidade sempre foram temáticas no seu rap?

Quando eu comecei a compor, as minhas letras eram mais sobre a realidade social, diferenças de classe. Coisas que eram pauta dentro do rap. Eu venho dessa escola de rap, mais politizada, mais militante em relação às questões sociais.

Quando eu voltei pro rap, eu voltei em função da minha sexualidade e quis inserir esses assuntos que são parte da minha vivência.

O rap do DF ganhou muita projeção nacionalmente na década de 90. Você enxerga uma identidade no som daquele período? Características comuns no conjunto de obras que deram uma cara pro que foi produzido aqui?

Brasília realmente tem uma identidade única. Isso é inquestionável. Tanto que vários grupos vem produzir aqui para tentar conseguir essas características que Brasília tem. Mas não tem como reproduzir isso. O que é feito aqui é feito porque é vivenciado aqui.

A identidade do rap do DF teve sua base desenvolvida por todos esses caras[dos anos 90]. Um trabalho fundamental. Mas, de lá pra cá, muita coisa mudou. Hoje, a gente tem uma margem[para diversidade] muito grande. Tudo evoluiu dessa mesma essência das antigas. Naquela época, era um rap mais pesado, mais quebrada, mais agressivo, mais politizado.

Era um rap gangsta. Hoje, não temos rap gangsta. O trap, principalmente do Rio de Janeiro, está trazendo isso de novo: muita quebrada, muito rua. Era isso que Brasília fazia, o que Brasília fez a vida inteira. O que está sendo abordado hoje, Brasília fazia há 15 anos e nem faz mais hoje.

O rap sempre foi um ambiente muito machista, com um grau elevado de preconceito e homofobia. Aos poucos, o gênero tem se aberto para a inserção de artistas e das pautas LGBTQIA+. Mas tem sido um processo sensível, complexo. Como você tem vivenciado isso pessoalmente? E como é a recepção na sua comunidade?

Questões relativas à masculinidade e heteronormatividade, sempre criaram uma barreira entre o rap e a comunidade LGBT. Apesar de ser um movimento muito libertador, o hip-hop reproduz preconceitos, machismo, homofobia, coisas muito enraizadas.

Um rapper falando dessas pautas ainda é um desafio para nossa comunidade, a aceitação da musicalidade. Muitas pessoas LGBTs não se conectaram com o rap por conta da ideologia tradicional desse tipo de música. Parte da nossa comunidade não se conecta por achar que não existe representatividade no gênero.

Meu trabalho surge até para falar que existe representatividade, sim, que o rap também vai ser porta-voz da nossa comunidade, pois a gente sempre esteve nas periferias. Do outro lado, pelo rap ainda reproduzir essas mentalidades, algumas portas são fechadas para nossa comunidade.

Nesse caso, eu não falo só do rapper gay. Se pro rapper gay já é um rolê bem complicado, para pessoas trans já é uma outra história. Tem muitas travestis que fazem rap hoje e não tem as mesmas oportunidade que um rapper hétero e cis gênero.

Colocar essas questões da sua sexualidade nas letras demanda um autoconhecimento, um processo de meditação sobre suas vivências, sobre a suas identidades pessoais e artísticas. Como esses processos se cruzam, como você canaliza suas vivências pessoais e transforma em elementos artísticos?

A arte e os processos de se produzir arte sempre refletiram uma busca por identidade.

Quando eu era criança, eu era uma criança viada. Nunca me conectei com as brincadeiras de rua. Já sofria preconceito e bullying, então eu preferia me isolar. Nesse processo de me isolar, eu ficava em casa, desenhando e me conectando com a arte.

A arte sempre foi muito importante para essa questão do meu autoconhecimento. Fazendo ilustrações, pintura, desenho, música.

O lance da identidade musical, acho que vem também da diversidade das minhas vivências e influências. Meu pai ouvia muito sertanejo, minha irmã, rock, meu irmão fazendo rap. Meus compositores favoritos não são, necessariamente, do rap.

Sou muito apaixonado pelas composições do Zeca Baleiro, do Paulinho Moska, um cantor de MPB carioca, do Lenine. Isso vai automaticamente trazendo uma identidade pro seu som.

Eu aprendi a falar sobre a sexualidade ouvindo Ana Carolina. Já falar sobre pautas sociais, a referência foi o MV Bill, por exemplo.

Acho que esse processo de criação de identidade acontece de maneira natural. Você não pode forçar ou se cobrar essa criação. Ela precisa fluir.

Nos anos 90, o DF emerge no cenário nacional com um rap muito poderoso, reconhecível, apesar das diferenças entre os artistas. Você acredita que existem elementos em comum nas produções daquele período? Qual seria essa identidade desses sons?

O rap daqui flertava com um rolê mais gangsta. Eu percebia o esforço da galera daqui de incluir o grave, de ter uma pegada mais bandidona.

Mas a gente tem outros nomes que fizeram outra parada. Tipo o GOG, que já trazia uma questão mais politizada.

O rap aqui tem muita identidade até hoje, uma identidade do DF. Mas dentro disso, são vários artistas produzindo coisas diferentes.

Rotular a identidade do DF só como gangsta acaba sendo um deslize, porque é um rap muito plural.

Quando entrevistei o Menestrel, ele falou que se dedicou a estudar o game. Na sua entrevista pro Rap Total Podcast, você falou sobre isso também, sobre a necessidade do artista periférico se empoderar de um conhecimento para além da música. Quais são as lições mais valiosas que você aprendeu nesse sentido? Que tipo de conhecimento um artista novo deve buscar para além do fazer música?

O conceito de arte é essencialmente elitista. Fica parecendo que o que a gente, enquanto periféricos, está fazendo é uma não-arte, não-cultura. Começa daí. Por outro lado, nesse universo, a gente cresce pensando que dom e talento são suficientes.

A gente começa a produzir intuitivamente e quando vê, a gente tá no game. Tem pessoas que dominam todos os processos para uma música acontecer. E eu sinto falta desse diálogo com a comunidade artística periférica.

Fazer rap é só ir pro estúdio e gravar música? Não. Além de estudar antes- composição, flow, melhorar dicção-, é necessário que a gente entende o que é a estética do nosso trabalho, identidade visual, como a música chega na plataforma, como você estoura a bolha dos seus amigos e atinge mais pessoas.

São muitas coisas. A gente sabe pouco sobre como registrar a composição, registrar o fonograma, quanto eu ganho com isso, quanto eu devo investir nisso. Como organizar um show? O que é um rider técnico, um rider de camarim?

O artista precisa estudar muitas coisas, porque, se não, ele deixa isso na mão de outras pessoas e nem sempre essas pessoas estão lá para ajudar. Quando você não sabe de nada disso, você vai colocando essas responsabilidades nas mãos de muitas pessoas, fragmentando as coisas. No final, essa galera só quer a fatia delas do rolê e você acaba vendendo seu trabalho inteiro.

A gente precisa entender a música como arte e como mercado, para que gente não se frustre.

Quais as principais deficiências do DF como mercado de rap? Quais os desafios para Brasília conseguir revelar e sustentar mais carreiras, por mais tempo?

Organização. O DF precisa se organizar artisticamente e culturalmente e entender que a cena daqui é muito potente. Se organizar enquanto Estado, movimento e pessoas que produzem arte.

É preciso reconhecer a potência e projetar os artistas local e nacionalmente.

Quais artistas do DF você acha que tem mais chance de despontar local e até nacionalmente?

A Griff. Filho e sobrinho do Duck. Os moleques são muito bons, fazendo um trap com a essência de Brasília. O Offmelt, um cara absurdo. Jhoi Breezy.
O Gohan, de São Sebastião.

Esses moleques são novos e tão vindo para revolucionar.

Na sua opinião, quem seriam os personagens mais relevantes desses quase 40 anos de rap no DF?

Como eu apontei anteriormente, o rap é muito plural.

Teve o X. Que, há muitos anos, levantou a bandeira de musicalizar mais o rap, de tocar com banda. Hoje, a gente vê quão visionário foi o X.

Tem o GOG, que já traz um outro rolê, das letras. Sempre gostou de colocar samples de música brasileira nas músicas, uma outra viagem.

Tem o Rei, com aquela parada mais gangsta, mais rua.

Sou muito fã de um grupo da Samambaia chamado Circuito Negro, que ganhou um festival que não acontece mais, o Abril Pro Rap, que já foi o maior festival de rap no Brasil.

São vários nomes, é difícil citar só uns. Cada época teve um representante do rap do DF com mais relevância.

TOP 5 do Amaro- Álbuns ou faixas do Rap do DF
especiais para você

Circuito Negro - Tempo para pensar

GOG - CPI da Favela

X - Um Homem Só